Confesso: eu achei que esse tabu era lenda urbana da torcida. Botei na conta do exagero rubro-negro. Aí fui checar os dados e levei um balde de água fria — a última vez que o Flamengo encerrou a fase de grupos com a melhor campanha da Libertadores foi em 1984. Quarenta e dois anos atrás. Antes da internet, antes do streaming, antes de qualquer coisa que a geração atual considera básica. Eu estava errado em minimizar isso, e hoje entendo o peso do número.
O que os números revelam sobre 42 anos de ausência
Em 1984, o Flamengo dominou a fase inicial da Libertadores com a melhor campanha geral do torneio — e mesmo assim acabou eliminado nas semifinais. Seria injusto chamar de maldição — mas é uma maldição em escala continental. O Rubro-Negro chegou diversas vezes às fases finais, conquistou títulos em 2019 e 2022, mas nunca mais fechou a fase de grupos como líder absoluto do torneio.
Nesta edição de 2026, o cenário é diferente. Com 13 pontos no Grupo A, o Flamengo lidera o torneio e está empatado em pontos com Rosario Central e Independiente Rivadavia, ambos argentinos. A diferença está no critério de desempate — e atualmente o Rubro-Negro leva vantagem. Um resultado positivo diante do Cusco, nesta terça-feira (26), às 21h30, no Maracanã, pode encerrar o jejum de quatro décadas.
A relevância prática do feito vai além do simbólico. O time que fecha a fase de grupos com a melhor campanha geral garante o direito de jogar como mandante em todos os confrontos do mata-mata — exceto a final. Em competição de nível sul-americano, onde viagens longas e climas adversos pesam, isso equivale a uma vantagem estrutural relevante. O SportNavo mapeou as campanhas do Flamengo desde 1984 e identificou que, nas cinco participações mais recentes, o clube avançou às semifinais ou finais ao menos três vezes — mas nunca saiu da fase inicial no topo da tabela geral.
Por que o feito escapou tanto tempo
A resposta não é simples, e quem apostar em uma causa única está simplificando demais.
Entre 1985 e 2010, o Flamengo passou longos períodos fora da Libertadores ou caindo nas fases iniciais. A instabilidade financeira dos anos 1990 e 2000 desorganizou elencos que poderiam ter sido mais competitivos. Quando o clube voltou a montar times de peso — com Ronaldinho Gaúcho em 2011, por exemplo — o desempenho nas fases preliminares ainda era irregular.
O ciclo mais recente, iniciado com Jorge Jesus em 2019, trouxe dois títulos continentais, mas o formato expandido da competição tornou ainda mais difícil dominar a fase de grupos de ponta a ponta. Com mais times fortes no mesmo grupo, qualquer tropeço compromete a liderança geral. Em 2022, ano do segundo título, o Flamengo terminou a fase de grupos em segundo no próprio grupo.
E aí vem a pergunta que ninguém faz direito: qual é o peso de ser o primeiro colocado geral numa competição que mudou completamente de formato em quatro décadas?O contexto importa. A Libertadores de 1984 tinha estrutura diferente da atual, com menos times e menos rodadas. O torneio cresceu, ficou mais disputado e a margem para erros diminuiu. Isso não invalida o feito — torna mais difícil. E é exatamente por isso que a campanha de 2026 tem valor real, não apenas histórico.
O que o Flamengo precisa fazer hoje no Maracanã
O adversário desta noite é o Cusco, do Peru — time que já está eliminado da fase de grupos e não tem nada a perder. Segundo a comissão técnica rubro-negra, o grupo principal deve ser utilizado, com foco em manter ritmo e intensidade mesmo sem necessidade de resultado para classificação.
"A gente quer terminar na frente de todo mundo. Isso dá vantagem, dá moral, dá confiança para o mata-mata", afirmou um integrante do staff técnico do Flamengo em coletiva prévia ao jogo.
A transmissão fica por conta da ESPN (canal fechado) e do Disney+ (streaming), com bola rolando às 21h30, horário de Brasília. A torcida rubro-negra projeta Maracanã lotado — o que, em média nas últimas rodadas, tem representado público acima de 60 mil pessoas para jogos da Libertadores no estádio.
"Jogar no Maracanã cheio numa noite de Libertadores é diferente de tudo", disse o lateral Ayrton Lucas em entrevista publicada nas redes sociais do clube na véspera do confronto.
Rosario Central e Independiente Rivadavia também jogam nesta rodada. Se qualquer um dos argentinos vencer e o Flamengo pontuar, a liderança geral pode se consolidar ou ser disputada no saldo de gols. O Rubro-Negro precisa acompanhar os resultados paralelos, mas a conta mais simples é vencer: uma vitória sobre o Cusco encerra o debate e coloca o clube no topo pela primeira vez desde 1984.
Caso o feito se confirme, o Flamengo entra nas oitavas de final como primeiro colocado geral e decide todos os jogos do mata-mata em casa até a final — vantagem que pode ser decisiva diante de adversários como times colombianos, argentinos ou paraguaios, que historicamente perdem rendimento fora de seus países.








