Julho de 2022. O Flamengo desembolsou R$ 94 milhões para repatriar Everton Cebolinha do Benfica — operação que, à época, foi vendida como a reafirmação do poder financeiro rubro-negro no mercado sul-americano. Quatro anos depois, o atacante soma 186 jogos, 21 gols e 25 assistências com a camisa do clube. O retorno sobre o investimento, calculado por participação direta em gols, fica em 0,25 por partida — abaixo do esperado para um ativo de R$ 94 milhões.
A narrativa que circula nos bastidores é a de que o Flamengo simplesmente "perdeu" Cebolinha. A leitura mais precisa é outra: o clube identificou o problema antes que ele virasse passivo maior, e está reposicionando sua estratégia de aquisição de ativos humanos antes do encerramento do contrato, previsto para dezembro de 2026.
O que os números de Cebolinha realmente dizem sobre o modelo anterior
R$ 94 milhões divididos por 186 partidas resultam em um custo unitário de aproximadamente R$ 505 mil por jogo. Para um atacante de beirada, o referencial europeu aceita esse tipo de amortização quando o jogador entrega acima de 0,5 gols ou assistências por partida — o chamado goal involvement rate. Cebolinha ficou em 0,25. O que para o modelo inglês de precificação seria considerado um ativo subperformante, no padrão sul-americano ainda é tratado como "passagem irregular" — e aí mora o erro de diagnóstico que o Flamengo agora tenta corrigir.
Segundo o jornalista Guilherme Pinheiro, conhecido como Flazoeiro, o técnico Leonardo Jardim deu aval explícito para que a busca pelo substituto priorize um jogador sem grande projeção midiática. A instrução ao departamento de scout é clara: identificar potencial antes que o mercado precifique o ativo.
"A intenção é que seja uma aposta, mas visto com muito potencial para criar sua história no Rubro-Negro", afirmou Flazoeiro em seu canal no YouTube, sintetizando o briefing passado pela diretoria ao setor de inteligência esportiva.
A lógica financeira por trás da virada de postura do Rubro-Negro
A mudança de perfil não é estética. Ela tem estrutura de custo-benefício.
Um jogador com menor projeção midiática chega com três vantagens financeiras imediatas: fee de transferência menor, luvas reduzidas e salário base mais baixo. Se o scout acertar o alvo, o clube compra o direito econômico por uma fração do valor de mercado futuro — e a margem de revenda financia a próxima operação. É o modelo que clubes como o Porto e o Red Bull Salzburg operam há décadas na Europa, e que o Flamengo ainda aplica de forma intermitente.
Há também um componente de timing. O contrato de Cebolinha vence em dezembro de 2026, mas o clube mantém a prerrogativa de exigir indenização por transferência até julho — o que significa que uma venda nesta janela ainda gera receita. A diretoria, segundo apuração do portal Bolavip Brasil, prefere negociá-lo para o exterior, evitando reforçar rivais diretos como Corinthians, Grêmio ou São Paulo. Uma rescisão amigável chegou a ser discutida internamente, com custo estimado em R$ 7 milhões em salários restantes, mas a proposta foi descartada publicamente.

"Cebolinha tem contrato vigente e precisará cumpri-lo ou ser negociado formalmente", reafirmou a diretoria rubro-negra, segundo apuração do portal flamengorj.com.br.
Scout como centro de decisão — e o que o Flamengo precisa acertar agora
O nome do substituto ainda não foi identificado publicamente. O departamento de scout do clube é o protagonista desta fase do processo — e a responsabilidade é proporcional ao mandato recebido.
O Transfermarkt lista o valor de mercado atual de Cebolinha em patamar significativamente inferior ao investimento original de 2022, o que reforça o argumento interno de que o modelo de contratação de estrelas consolidadas carrega risco de depreciação acelerada. A nova diretriz aponta para o caminho oposto: comprar baixo, desenvolver, vender alto.
Leonardo Jardim, que assumiu o comando técnico do Flamengo nesta temporada de 2026, tem histórico europeu de trabalhar com elencos sem superestrelas — seu período no Monaco entre 2014 e 2017 é o caso mais citado, quando o clube francês revelou Kylian Mbappé e Thomas Lemar antes de vendê-los por centenas de milhões de euros. A referência não é acidental no discurso interno do clube.
A janela de transferências de julho é o prazo operacional para a diretoria fechar tanto a saída de Cebolinha quanto a entrada do substituto identificado pelo scout. O Flamengo volta a campo neste fim de semana pelo Brasileirão 2026, e a pressão por resultado imediato coexiste com um planejamento de médio prazo que, pela primeira vez em anos, coloca a valorização de ativo acima do impacto de imprensa na contratação.










