Quando o árbitro paraguaio Derlis López apitou o final no Estádio Hernando Siles, o Fluminense tinha apenas seis finalizações contabilizadas — contra 14 do Bolívar — e uma derrota por 2 a 0 que carrega um debate que vai muito além dos 90 minutos. A decisão estratégica de subir os 3.600 metros de La Paz somente no dia da partida, na quinta-feira (30/04), é o epicentro de uma crise que coloca o clube na lanterna do Grupo C da Libertadores com apenas 1 ponto em 9 disputados, um aproveitamento de 11%.
O dilema científico da altitude e as duas escolas de pensamento
Não há consenso entre fisiologistas e preparadores físicos sobre a melhor abordagem para partidas em altitudes extremas. A primeira corrente defende a chegada antecipada — dois ou mais dias antes — para que o organismo inicie a adaptação cardiovascular e hematológica. Foi exatamente essa a estratégia adotada pelo Palmeiras quando enfrentou o Bolívar nesta temporada de 2026: a delegação alviverde desembarcou em La Paz com dois dias de antecedência, absorvendo os primeiros efeitos da altitude de forma controlada. A segunda escola, adotada pelo Fluminense, baseia-se na janela de tolerância das primeiras seis horas após a chegada à altitude elevada, período considerado o menos crítico para quem não está aclimatado. A lógica é que os efeitos mais severos do mal agudo da montanha — dor de cabeça intensa, náusea e distúrbios do sono — se manifestam tipicamente entre 24 e 72 horas após a exposição. Dormir em Santa Cruz de la Sierra, a apenas 400 metros acima do nível do mar, e subir para La Paz horas antes da partida seria, teoricamente, o melhor dos dois mundos.
A aposta do Fluminense e o que aconteceu dentro de campo
A delegação tricolor chegou à Bolívia ainda na quarta-feira (29/04) e ficou hospedada em Santa Cruz de la Sierra, exatamente para garantir uma noite de sono de qualidade antes do deslocamento ao jogo. A subida para La Paz ocorreu apenas horas antes do confronto. O técnico Luis Zubeldía optou por promover duas alterações em relação ao time que venceu a Chapecoense, escalando o zagueiro Ignácio e o lateral Renê. O Fluminense entrou em campo com: Fábio; Guga, Ignácio, Freytes e Renê; Bernal, Hércules e Savarino; Canobbio, Serna e Castillo.

O resultado foi um time irreconhecível. Aos cinco minutos, José Sagredo cruzou pela esquerda e Robson Matheus — filho de pai boliviano e mãe brasileira — apareceu entre Ignácio e Freytes para bater de primeira e abrir o placar. A zaga ficou estática. A marcação alta que caracteriza o estilo de Zubeldía foi praticamente abandonada: o próprio técnico percebeu que pressionar a saída de bola adversária demandaria um gasto físico inviável naquela altitude, entregando consequentemente a posse ao Bolívar. O time que normalmente propõe o jogo ficou refém do adversário sem conseguir criar.

"Fluminense vai se classificar", afirmou Zubeldía após a partida, em declaração que soa mais como gestão de vestiário do que análise realista de uma campanha de 11% de aproveitamento.
Expulsão bizarra aprofunda o buraco tricolor
O que já era dramático ganhou contornos de colapso aos dois minutos do segundo tempo. O volante Bernal, que já carregava cartão amarelo recebido aos 28 minutos do primeiro tempo, aplaudiu ironicamente uma decisão do árbitro Derlis López após um lance revisado pelo VAR. López não hesitou: segundo cartão amarelo imediato, expulsão. A análise do SportNavo sobre o incidente aponta que a decisão foi tecnicamente correta dentro do regulamento, mas a ingenuidade do jogador em situação tão delicada é inaceitável num atleta profissional de alto rendimento. Com um homem a menos durante praticamente todo o segundo tempo, o Bolívar controlou a partida com conforto e ampliou aos 16 minutos: Pato Rodríguez cruzou da esquerda e Robson Matheus apareceu livre para cabecear o segundo. Soteldo ainda marcou no último lance, mas o gol foi anulado por impedimento.
O que o Fluminense precisa entender para sobreviver na competição
A estratégia de subir no dia do jogo não é necessariamente errada — o Flamengo adotou a mesma abordagem em 2025 contra o Bolívar. O problema é que a eficácia do método depende de uma execução tática que minimize o esforço aeróbico em campo, algo que Zubeldía não conseguiu implementar com eficiência. Segundo apuração do SportNavo, a comissão técnica tricolor não adaptou o plano de jogo de forma suficientemente profunda para compensar a limitação física imposta pela altitude: seis finalizações produzidas contra 14 do adversário evidenciam não apenas cansaço, mas ausência de fluidez ofensiva mesmo nos momentos em que o Bolívar recuava.
Com dois jogos restantes na fase de grupos — incluindo uma visita ao Independiente Rivadavia, da Argentina, no dia 6 de maio, às 21h30, e partidas no Maracanã —, o Fluminense precisa vencer todos os compromissos e torcer por tropeços alheios para seguir vivo na Libertadores. A margem de erro é zero. O próximo compromisso do clube, antes da Libertadores, é no domingo (3), contra o Internacional, no Beira-Rio, às 18h30, pelo Brasileirão — uma partida que, sob qualquer perspectiva, chega num momento de profunda fragilidade emocional e tática do grupo de Zubeldía.









