Três coisas: crise interna, agente em comum e uma conta de 3 milhões de euros. Tudo se explica daí.

O Real Madrid atravessa uma das piores fases de relacionamento interno dos últimos anos. Brigas no vestiário, desgaste entre jogadores de referência e uma tensão que extrapolou o campo e chegou à sala de reuniões da diretoria no Santiago Bernabéu. Nesse contexto, o nome de José Mourinho — que há pouco mais de 30 dias era tratado como improvável — ganhou força suficiente para se tornar o principal favorito ao cargo de técnico da equipe merengue para a temporada 2026/27, segundo o jornal espanhol As.

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Como Jorge Mendes mudou o jogo nas últimas semanas

A virada de chave aconteceu a partir da atuação direta de Jorge Mendes, agente histórico de Mourinho e um dos operadores mais influentes do futebol europeu. Segundo o As, foi Mendes quem restabeleceu o canal de comunicação entre o treinador português e a cúpula madridista — um contato que havia esfriado nos últimos meses. O agente conhece os bastidores do Bernabéu melhor do que qualquer outro intermediário: foi ele quem orquestrou a chegada de Mourinho ao clube em 2010 e a saída turbulenta em 2013. Agora, segundo apuração do SportNavo, o movimento de Mendes não é casual — ele enxerga uma janela específica de oportunidade aberta pelo caos interno, e está usando isso como argumento de venda para ambos os lados.

O que diferencia essa negociação das anteriores é a velocidade. O diário espanhol Marca chegou a publicar que

"todos os caminhos conduzem a Mou"
, e a frase captura com precisão o estado de espírito da diretoria merengue: não há um plano B consolidado. O ambiente de guerra no vestiário criou uma demanda específica por um técnico com histórico comprovado de impor hierarquia — e Mourinho, com duas Champions Leagues no currículo, é exatamente esse perfil.

O Benfica já calcula o preço da saída

Em Lisboa, o cenário é de pragmatismo. O Benfica acompanha as movimentações com preocupação real, mas a diretoria já trabalha com a hipótese concreta de perder o treinador ao fim da temporada. O jornal português A Bola revelou que as conversas entre Real Madrid e Mourinho envolvem um contrato de pelo menos duas temporadas no futebol espanhol. O valor estipulado pelo clube lisboeta para liberar o técnico é de aproximadamente 3 milhões de euros — cerca de R$ 19 milhões na cotação atual.

Para quem conhece o funcionamento do mercado europeu, essa cifra é relativamente baixa para um treinador no nível de Mourinho, o que sinaliza que o Benfica já aceitou internamente que a saída é irreversível e prefere garantir a compensação financeira a travar uma batalha jurídica. O clube lisboeta tem dois nomes na prateleira: Marco Silva, atualmente no Fulham da Premier League, aparece como principal alvo, enquanto o nome de Filipe Luís — ex-Flamengo e hoje reconhecido como um dos técnicos mais promissores do Brasil — também foi colocado na mesa pelos dirigentes portugueses nos últimos dias.

Quem perde com a chegada de Mourinho ao Bernabéu

A operação Mourinho, se concretizada, produz um efeito cascata imediato no mercado de treinadores europeus. Marco Silva, por exemplo, teria que decidir entre a estabilidade de um projeto em construção no Fulham — clube que investiu aproximadamente 45 milhões de libras em reforços nesta temporada — e o prestígio de assumir um dos maiores clubes de Portugal. Para Filipe Luís, a situação é ainda mais delicada: o técnico precisaria avaliar se o momento é adequado para dar o salto ao futebol europeu sem ter consolidado um ciclo completo no Brasil.

Como Jorge Mendes mudou o jogo nas últimas semanas Por que o Real Madrid acredit
Como Jorge Mendes mudou o jogo nas últimas semanas Por que o Real Madrid acredit

Há também a dimensão dos jogadores. Federico Valverde, um dos pivôs das tensões internas no Real Madrid, tem despertado interesse concreto do Liverpool, com oferta estimada em US$ 117 milhões segundo o portal Fichajes. Aurélien Tchouaméni, outro nome vinculado às brigas internas, é monitorado pelo Manchester United, com os merengues aceitando negociar por valores próximos a US$ 95 milhões — e há até a possibilidade de uma troca envolvendo Rodri, do Manchester City. O que se nota é que a crise no vestiário madridista não é apenas um problema de vestiário: ela está depreciando ativos de mercado e acelerando saídas que, em condições normais, levariam mais tempo para se concretizar.

O que o futebol sul-americano ensina sobre esse tipo de aposta

O que para o português é uma questão de autoridade técnica e gestão de ego, para o argentino é uma questão de sobrevivência política dentro do clube. No River Plate de 2018, Marcelo Gallardo enfrentou um vestiário fragmentado após a eliminação na Libertadores e reagiu impondo uma hierarquia brutal de treinos e decisões — o resultado foi o título mundial de clubes naquele mesmo ano. Mourinho, no Real Madrid de 2010 a 2013, usou método similar: esvaziou o poder informal de jogadores influentes e centralizou todas as decisões táticas e de comunicação em si mesmo. A diferença é que, em 2026, o vestiário merengue tem jogadores com poder de mercado significativamente maior do que o elenco que Mourinho gerenciou na primeira passagem — o que torna o desafio mais complexo e a aposta mais arriscada.

O Manchester United, que também especulou movimentações no mercado, descartou a contratação de Cole Palmer, do Chelsea, e intensifica esforços por Mateus Fernandes, do West Ham, segundo o Football Insider — sinal de que os ingleses preferem reforçar o meio-campo com perfis mais jovens do que investir em nomes de alto custo político. A decisão do Real Madrid sobre Mourinho deve se tornar pública até o encerramento da temporada europeia 2025/26, com o prazo interno da diretoria madridista apontando para as próximas três semanas como janela de definição.

É o mesmo cenário que o Chelsea viveu em 2015, quando apostou na segunda passagem de Mourinho para resolver uma crise de vestiário — só que agora a aposta é feita por um clube com a pressão exponencialmente maior de entregar a Champions League, e não apenas estabilidade doméstica.