É uma faca sem cabo em campo de batalha. Perigosa para quem segura, perigosa para quem está na frente — e impossível de ignorar quando o mundo inteiro está assistindo.

A metáfora serve para o lance que dividiu o jogo entre Lionel Messi e a Argélia na estreia da Copa do Mundo, na segunda-feira, 16 de junho, em Kansas City. Aos 28 minutos do primeiro tempo, com a Argentina vencendo por 1 a 0, Messi acertou uma solada em Mandi — pisou sobre a canela do zagueiro argelino com a sola da chuteira, em movimento que, pelo protocolo vigente da FIFA, enquadra-se na categoria de serious foul play. O árbitro polonês Szymon Marciniak marcou a falta. Só isso. Sem cartão, sem revisão no VAR.

O que aconteceu antes do apito de Marciniak

Para entender a polêmica, é preciso recuar alguns segundos. Messi recebia a bola em transição, pressionado por Mandi pela lateral esquerda. No momento do contato, o argentino já havia perdido o controle da bola — o que, segundo o protocolo da FIFA para serious foul play, é exatamente o contexto que agrava a infração: quando não há disputa real pela bola e o contato é com força excessiva ou potencial de lesão.

A regra 12 do jogo diz que uma solada com a sola da chuteira sobre a perna do adversário, independente da intenção, deve ser avaliada pelo árbitro como possível expulsão direta. O critério não é a intenção — é o risco gerado pelo movimento.

Marciniak, que arbitrou a final da Copa do Mundo de 2022 entre Argentina e França, optou por não usar o cartão. O VAR também não chamou para revisão. Nenhuma das duas instâncias da arbitragem interveio.

O silêncio do VAR e o que os dados do jogo revelam

Aqui entra uma camada que vai além do debate emocional. O jogo terminou 3 a 0 para a Argentina, com hat-trick de Messi. O técnico da Argélia, o bósnio Vladimir Petkovic, foi econômico nas palavras no pós-jogo, mas direto:

"É inútil nesse momento comentar situações hipotéticas. Mas todo mundo viu, inclusive eu. Depois do jogo, eu vi as imagens, mas não quero falar muito sobre isso."

Riyad Mahrez foi mais incisivo. Em entrevista à Bein Sports, o atacante argelino cobrou a aplicação da regra e disse que episódios como esse afetam a credibilidade do futebol — um argumento difícil de rebater quando o lance acontece no minuto 28, com o placar ainda aberto.

"A classe é permanente. Não estamos falando de nenhum jogador velho. Estamos falando de um jogador que ganhou a Bola de Ouro oito vezes."

Petkovic reconheceu a superioridade argentina — "a Argentina deu dez chutes a gol, e sete foram de Messi" — mas o reconhecimento do talento não apaga a questão arbitral.

Agora, olhando para as métricas do jogo, o contexto fica ainda mais pesado:

  • xG (expected goals) da Argentina: 2.8 — os três gols marcados ficaram acima do esperado pelo modelo, indicando alta eficiência de finalização, majoritariamente de Messi.
  • PPDA da Argentina: 6.4 — métrica que mede a pressão defensiva (passes permitidos por ação defensiva). Um valor abaixo de 8 indica pressão alta intensa. A Argentina sufocou a saída de bola argelina durante todo o primeiro tempo.
  • Progressive passes de Messi: 9 — passes que avançam pelo menos 10 metros em direção ao gol adversário. Para referência, a média de um meia ofensivo de elite em 90 minutos numa Copa fica entre 5 e 7. Messi operou num nível acima mesmo sob pressão constante.

A diferença de domínio territorial entre as duas equipes nessa partida foi tão grande quanto a distância entre Recife e Cuiabá — mais de 2.800 km de desequilíbrio visível no mapa de calor do jogo.

O que muda no panorama da Copa após a polêmica

O debate não é novo. Em torneios anteriores, lances similares envolvendo jogadores de alto perfil geraram as mesmas perguntas. A diferença agora é que o VAR existe justamente para corrigir erros claros do árbitro de campo — e a omissão do sistema em revisar o lance de Messi levanta uma questão estrutural: o protocolo de acionamento do VAR para serious foul play está sendo aplicado de forma uniforme?

A resposta honesta, com base no que aconteceu em Kansas City, é que não há evidência de que sim. O árbitro assistente de vídeo tem autonomia para chamar Marciniak à revisão mesmo sem pedido do árbitro central. Não o fez.

Mahrez e Petkovic colocaram o dedo numa ferida real. Quando o jogador mais famoso do mundo está envolvido, a percepção de tratamento diferenciado — mesmo que involuntária — corrói a confiança no sistema. E num torneio que a FIFA posicionou como o maior da história, com 48 seleções e olhos de todo o planeta, essa corrosão tem peso.

A Argélia volta a campo na próxima terça-feira contra a Jordânia, precisando vencer para manter chances de classificação. A Argentina enfrenta a Áustria na segunda-feira — e, em matéria do SportNavo, a pressão sobre Marciniak e a equipe de arbitragem da FIFA por uma explicação oficial sobre o protocolo VAR no lance deve aumentar nas próximas 48 horas.