Se Robinho Júnior tivesse resolvido o episódio dentro do próprio CT Rei Pelé, como manda a tradição não escrita do futebol brasileiro, esta matéria provavelmente não existiria. Mas a opção dos representantes do jovem atacante pela notificação extrajudicial transformou um conflito de treino em crise institucional — e revelou, com precisão cirúrgica, como o código silencioso do vestiário santista funciona em 2026.
O número que define o momento do Santos no Grupo D
Dois pontos em três rodadas. Esse é o saldo do Santos na Copa Sul-Americana 2026, o pior desempenho entre os clubes brasileiros na fase de grupos, com o Peixe ocupando a lanterna do Grupo D antes do confronto desta terça-feira, 5 de maio, contra o Deportivo Recoleta no Estádio Monumental Rio Paraná, às 19h (de Brasília). É nesse contexto de pressão máxima que o tapa de Neymar em Robinho Júnior, ocorrido no domingo, 3 de maio, ganhou proporções que extrapolam o campo de treino.
Neymar e Robinho Júnior viajaram juntos para o Paraguai, e o camisa 10 foi confirmado como titular contra o Recoleta, enquanto o jovem atacante deve iniciar no banco. O presidente Marcelo Teixeira abriu sindicância para apurar o episódio — o que, por si só, já indica que a direção reconhece a gravidade formal do caso. Internamente, porém, Neymar admitiu o erro aos companheiros, e essa admissão foi suficiente para que o grupo se posicionasse ao lado do veterano.
O código do vestiário e por que Robinho Júnior o violou
No futebol brasileiro, existe uma regra não escrita que atravessa gerações: o que acontece no treino, se resolve no treino. Não há contrato assinado, não há cláusula em convenção coletiva. É um pacto cultural, transmitido de vestiário em vestiário, que sustenta a coesão de grupos que precisam conviver sob pressão diária. Quando os representantes de Robinho Júnior optaram pela notificação extrajudicial em vez da conversa interna, romperam esse pacto — e o grupo santista, segundo apuração, considerou a atitude "mimada".
Não é a primeira vez que Neymar se envolve em episódio semelhante. Em 2019, durante treino do Brasil, ele travou com falta o lateral Wéverton, do Cruzeiro sub-20, após levar um drible. Naquela ocasião, houve falta, não acusação formal de agressão. A diferença entre os dois episódios não está na conduta de Neymar — que em ambos os casos reagiu de forma desproporcional a um drible — mas na resposta do lado oposto. Em 2019, o caso ficou restrito ao campo. Em 2026, virou documento jurídico.

Em O Senhor das Moscas, William Golding demonstra como grupos sob pressão constroem hierarquias morais próprias, frequentemente incompatíveis com as normas externas. O vestiário do Santos funciona de modo análogo: tem sua própria jurisprudência, e quem recorre a instâncias externas sem esgotar as internas paga um preço de reputação difícil de reverter.
Rollheiser preenche o espaço que a polêmica deixou vazio
Enquanto o episódio consumia energia do clube, Benjamín Rollheiser construía em silêncio o melhor momento da sua passagem pelo Santos. O argentino, contratado do Benfica no início de 2025 por R$ 65 milhões (85% dos direitos econômicos), acumula três gols e uma assistência nas últimas rodadas, contra Bahia, Palmeiras e San Lorenzo, em jogos do Brasileirão 2026 e da Sul-Americana.
"Rollheiser vem crescendo muito. Pode jogar pela direita, como atuava anteriormente, e também como o nosso 10, sendo o armador da equipe. Consegue performar por períodos cada vez maiores. No último jogo, aguentou até os 60 minutos; hoje, suportou mais, e estamos muito felizes", disse o técnico Cuca.
Os números do atacante no duelo contra o Palmeiras sintetizam a evolução: 86 minutos em campo, 1 gol, 5 finalizações (3 no alvo), 5 passes decisivos, 5 de 7 dribles certos e nota Sofascore 8.3. No total pela temporada, são 62 jogos (37 como titular), 7 gols, 5 assistências e média de 1 desarme certo por partida. O goleiro Gabriel Brazão também reconheceu a transformação do argentino.
"É um grande jogador. Fico feliz que ele está voltando a performar. A gente sabe da qualidade dele e conta com isso. Está fazendo grandes jogos e ganhando sequência. Ganhamos um grande jogador e tenho certeza de que vai nos ajudar muito", afirmou Brazão.
Com Vojvoda, antecessor de Cuca, Rollheiser não conseguiu regularidade. Sob o novo treinador, encerrou um jejum de gols de quase três meses e se consolidou como segunda opção ofensiva de peso — exatamente o papel que Robinho Júnior disputava no elenco.
A notificação extrajudicial ainda pende sobre o Santos, e o episódio, segundo fontes ligadas ao clube, não cairá bem na CBF tampouco — especialmente diante de Carlo Ancelotti, que assumirá a Seleção Brasileira e precisará de um Neymar concentrado, não envolvido em processos. O jogo desta terça-feira contra o Recoleta, às 19h, é urgente: uma derrota deixaria o Peixe virtualmente eliminado da Sul-Americana com três rodadas ainda pela frente. O Santos que entra em campo no Paraguai precisa de coesão — e a escolha de Robinho Júnior de levar o conflito para fora do vestiário cobrou, antes do apito inicial, o preço mais caro possível: o isolamento dentro da própria casa. Uma receita que começa com os ingredientes errados raramente se corrige no fogo.








