Confesso que errei sobre Nakisa Bidarian em 2024. Quando ele e Jake Paul anunciaram a MVP como promotora de MMA, eu descartei como mais um projeto de influenciador com dinheiro sobrando. Hoje, na véspera de um card no Intuit Dome, em Inglewood, transmitido pelo Netflix, com Ronda Rousey, Gina Carano, Nate Diaz e Francis Ngannou no mesmo cartaz, eu tenho que admitir: subestimei o alcance da jogada.

O que está em jogo no Intuit Dome neste sábado

Ronda Rousey e Gina Carano vão entrar num octógono juntas pela primeira vez na história — e isso é um fato que merece ser dito sem ironia. Rousey foi a atleta que colocou o MMA feminino no mapa global, a primeira mulher a assinar com o UFC, a que vendeu PPVs que rivais masculinos não conseguiam. Carano foi a que abriu a porta antes dela, a cara do Strikeforce feminino, a que lutou pela última vez em agosto de 2009 e mesmo assim nunca saiu completamente do imaginário do esporte. Que as duas se encontrem agora, fora do UFC, numa plataforma de streaming com audiência de 300 milhões de assinantes, não é nostalgia empacotada para vender — é uma declaração de independência do modelo de distribuição único que o esporte conheceu por duas décadas.

O card completo tem mais substância do que os críticos admitem. Nate Diaz e Mike Perry constroem há anos uma rivalidade de temperamento que o público entende visceralmente — dois lutadores que parecem biologicamente incapazes de fazer uma luta sem drama. E Philipe Lins, brasileiro de 40 anos, enfrenta Francis Ngannou numa posição que poucos apostam nele, mas que o próprio Lins tem construído metodicamente ao longo de uma carreira de mais de vinte anos no esporte.

A ironia dos fanboys e o que Bidarian viu que eles não viram

Bidarian foi direto ao ponto quando questionado sobre a resistência online ao evento:

"É desconcertante por que as pessoas querem que este evento fracasse ou falam mal dele, porque isso só é bom para o esporte, só é bom para os atletas. Há tantos caras de mídia no Twitter que são fanboys do Dana ou do UFC que tentam falar mal deste card. E é engraçado pra mim. É cômico que eles não vejam o quadro maior."

Quadro maior. Essa expressão me fez lembrar de algo que aprendi no quinto round, quando o corpo já não obedece e a cabeça precisa decidir se a estratégia do treino ainda faz sentido ou se você precisa improvisar. Há um tipo de rigidez mental que confunde lealdade com inteligência. Torcer para que uma promotora concorrente ao UFC fracasse, como se o sucesso de uma organização dependesse do fracasso de outra, é exatamente esse tipo de rigidez. O UFC não vai desaparecer se o Netflix transmitir MMA. O que vai mudar é o poder de negociação dos atletas — e aí a resistência começa a fazer mais sentido como interesse disfarçado de análise esportiva.

Bidarian também citou o exemplo de Jake Paul vs. Mike Tyson, que se tornou o evento de boxe mais assistido desde a era Muhammad Ali, como prova de que eventos fora do circuito tradicional criam audiência nova, não canibalizam a existente. Esse evento gerou um card inteiramente feminino no Netflix. Há uma lógica de expansão aqui que é contábil antes de ser sentimental. Não há tragédia: há contabilidade.

O que a MVP quer ser — e o que não quer

A posição de Bidarian sobre o UFC é mais sofisticada do que a narrativa de confronto direto sugere. Ele reconhece que o UFC é a maior promotora de esportes de combate do mundo. O que a MVP propõe é ser uma alternativa, não uma substituta — e a diferença entre essas duas coisas é enorme para um atleta que negocia contrato.

  • Rousey e Carano lutam fora do UFC por escolha própria, com controle sobre suas narrativas
  • Diaz construiu sua carreira fora do octógono da Zuffa depois de anos de atrito contratual
  • Ngannou saiu do UFC em 2023 e desde então escolheu seus próprios caminhos
  • Lins representa o atleta veterano que raramente encontra palco principal em qualquer organização

Segundo apuração do SportNavo, a estrutura financeira da MVP para este card prioriza percentuais de receita para os lutadores de forma diferente do modelo tradicional de bolsa fixa do UFC — o que Bidarian define como ser "verdadeiramente centrado no atleta em tudo que tocamos e produzimos".

O que muda no mapa do MMA feminino a partir desta noite

Tecnicamente, Rousey e Carano chegam a este momento em condições muito distintas das que tinham no auge. Rousey se aposentou em 2018 após duas derrotas consecutivas para Amanda Nunes. Carano não compete desde 2009. O que está sendo vendido não é a melhor versão atlética das duas — e fingir que é seria desonesto. O que está sendo vendido é uma narrativa que o MMA nunca permitiu que acontecesse quando as duas eram contemporâneas no esporte.

Isso tem valor técnico real, apesar da óbvia diferença de tempo parada. A postura de Rousey sempre foi construída sobre o judô — o koshi guruma, o harai goshi, a transição para o armbar que deixou a academia global de olhos arregalados entre 2012 e 2015. Carano era muay thai e wrestling, uma combinação que gerava pressão constante e volume de golpes que adversárias de sua época não conseguiam absorver. A pergunta técnica legítima desta luta é: quanto de grappling Rousey ainda carrega no corpo depois de seis anos parada, e quanto de resistência cardiovascular Carano reconstruiu depois de dezessete? Essas respostas só existem dentro do octógono.

O que acontece depois desta noite tem implicações concretas para o calendário de 2026. Se o evento registrar audiência expressiva no Netflix — e o histórico de Paul vs. Tyson sugere que o potencial está lá —, a MVP já sinalizou que quer construir um circuito regular, não apenas eventos pontuais. Para o MMA feminino especificamente, isso significa mais palcos, mais contratos, mais atletas com poder de barganha. O próximo card da MVP ainda não tem data confirmada, mas Bidarian indicou que a intenção é anunciar o evento seguinte ainda neste fim de semana, a partir dos resultados desta noite no Intuit Dome.