Confesso: eu errei sobre João Pedro em 2025. Quando o Brighton confirmou os números dele no meio do ciclo classificatório, escrevi aqui que seria difícil para Carlo Ancelotti ignorar um centroavante com aquela estatura física, aquela capacidade de jogo aéreo e aquele aproveitamento razoável na Premier League. Errei. E agora, com a lista dos 26 convocados divulgada na tarde de segunda-feira, 18 de maio, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro, entendo com mais clareza por que o técnico italiano tomou a decisão que tomou — e por que ela tem uma lógica que vai além do debate emocional em torno de Neymar.

O que os números de João Pedro efetivamente dizem

A interpretação dominante nos últimos dias era simples e sedutora: João Pedro foi preterido porque Ancelotti abriu espaço para Neymar, e ponto final. Essa leitura tem apelo imediato, mas ignora o que os dados da temporada 2025/2026 da Premier League revelam sobre o atacante do Brighton. Ao longo da campanha, João Pedro não sustentou a regularidade que se esperava de um centroavante disputando uma vaga em Copa do Mundo. Comparado com o ciclo anterior, quando marcou com mais frequência e apareceu com mais influência nas finalizações da equipe, a temporada recente mostrou um jogador que oscilou entre boas atuações pontuais e longos períodos de apagamento — o tipo de inconsistência que treinadores de alto nível como Ancelotti, acostumados a gerir elencos no Real Madrid e na seleção italiana, historicamente penalizam na hora da seleção final.

Para contextualizar com a régua histórica: Romário foi à Copa de 1994 com 55 gols em 54 jogos pelo Barcelona e Flamengo na temporada anterior — uma consistência devastadora que Zagallo não poderia ignorar. Ronaldo Fenômeno chegou a 1998 com 34 gols pelo Barcelona na temporada 1996/1997. Adriano foi convocado para 2006 vindo de 28 gols pelo Inter de Milão em 2004/2005. O padrão histórico dos centroavantes convocados pelo Brasil para Copas do Mundo é de números expressivos e contínuos, não de lampejos. João Pedro, neste ciclo, não entregou esse volume.

A ironia de Neto e a questão que ela levanta

A repercussão nas redes e nos estúdios de TV foi imediata. No programa Apito Final, o apresentador Neto disparou com a ironia que lhe é característica:

"João Pedro poderia estar na Copa. Parabéns para você, João Pedro. Deu seu lugar ao Neymar. Você não falou que ele tinha que ir? Parabéns. Fica assistindo igual 'eu', sentadinho, comendo pipoca."

A fala tem efeito cômico garantido, mas esconde uma premissa questionável: a de que havia exatamente uma vaga em disputa entre João Pedro e Neymar. Ancelotti, que ao longo da carreira geriu plantéis com Kaká, Ronaldo e Ronaldinho no mesmo time, sabe que a convocação não é um jogo de soma zero tão direto assim. A lista final com 26 nomes inclui Vini Jr., Raphinha, Endrick e Luiz Henrique no setor ofensivo — o que sugere que o técnico italiano montou um ataque com mobilidade e velocidade como premissas, e que um centroavante mais fixo, do perfil de João Pedro, talvez não se encaixasse no sistema independentemente da presença de Neymar.

A síntese que o debate emocional não alcança

A contra-leitura mais honesta é a seguinte: Neymar foi convocado pelos seus números no Santos neste ciclo, pela capacidade de decisão que ainda demonstra em campo e pela ausência de um substituto com estatísticas indiscutíveis no setor. Ao mesmo tempo, João Pedro não foi excluído apenas por causa do camisa 10 — foi excluído porque seus números na temporada 2025/2026 da Premier League não construíram o argumento irrefutável que uma convocação de Copa exige. Segundo a avaliação do SportNavo, essa distinção é fundamental para entender a lógica de Ancelotti.

Bruna Biancardi, em carta publicada nas redes sociais após o anúncio, resumiu o sentimento do lado Neymar com precisão emocional: "Essa convocação não é sorte. É o resultado da sua entrega, fé, esforço, coragem e amor pelo que faz." Do outro lado, Pedro, do Flamengo — que disputou 22 partidas na temporada, marcou em rodadas decisivas do Brasileirão e também ficou fora —, representa o mesmo dilema de João Pedro: bons números pontuais, mas sem o volume que obrigasse a mão do técnico.

A história das Copas do Mundo está repleta de ausências que pareceram injustas no momento e que o torneio depois explicou — ou não. Em 1982, Zico, Sócrates e Falcão conviveram com um esquema que desperdiçou talentos; em 1998, Edmundo ficou fora da lista final de Zagallo mesmo após grande temporada. A ausência de João Pedro em 2026 entra nessa lista de decisões que o campo vai julgar. O Brasil estreia contra o Marrocos em 13 de junho, no MetLife Stadium, com Vini Jr. e Neymar como referências ofensivas — e será a partir daí que saberemos se Ancelotti precisava ou não de um centroavante mais clássico na lista.

Se o Brasil chegar às oitavas de final sem um gol de centroavante puro e com dificuldades para finalizar contra blocos defensivos fechados, a pergunta vai se impor sozinha: o que João Pedro teria feito diferente com 20 minutos para jogar diante de uma zaga organizada?