O que faz um zagueiro de 176 centímetros, nascido numa cidade goiana de pouco mais de quarenta mil habitantes, se tornar uma das peças mais multifuncionais da defesa do Goiás na elite do futebol brasileiro? A pergunta não é retórica por acidente — ela aponta para uma trajetória que desafia a lógica do mercado e os clichês sobre o que se espera de um defensor central.
Rodrigo Alves Soares cresceu em Porangatu, no norte de Goiás, região que raramente aparece nos radares das categorias de base dos grandes clubes. O futebol, para ele, não chegou pela porta principal. Chegou pelo caminho mais longo, aquele que exige paciência, adaptação e a disposição de recomeçar em praças diferentes, contra adversários diferentes, sob pressões diferentes. É esse percurso que explica, em parte, a consistência que Rodrigo Soares demonstra hoje, aos 33 anos, na Brasileirão Série A.
Início de carreira
A construção profissional de Rodrigo Soares passou por três clubes que, juntos, formam um mapa razoável das divisões do futebol nacional. Pelo Juventude, no Rio Grande do Sul, disputou a Série A de 2022 em 35 partidas — número expressivo para um defensor que precisava se firmar na elite —, marcou 1 gol e contribuiu com 1 assistência. O Gaúcho e a Copa do Brasil completaram aquela temporada intensa no sul do país, onde o frio e o estilo físico do futebol gaúcho moldaram aspectos do seu posicionamento.
Em 2023, voltou ao Centro-Oeste para defender o Atlético Goianiense, onde somou 28 partidas na Série B, 2 gols e 3 assistências, além de 15 jogos no Campeonato Goiano — competição em que balançou as redes uma vez. A Copa do Brasil trouxe mais dois jogos àquela temporada. A passagem pelo Dragão foi, em certo sentido, um reencontro com suas raízes geográficas, mas também um laboratório para aprimorar o papel de zagueiro que sai jogando e participa da construção ofensiva.
Em 2024, a mudança de ares levou-o ao Novorizontino, no interior paulista. Foram 30 partidas na Série B e mais 6 no Campeonato Paulista — neste último, contribuiu com 1 assistência. Na Série B, foram 6 assistências, número que chamou atenção dos observadores de mercado e abriu a porta para o retorno ao Goiás na temporada seguinte.
Números que importam
Na temporada atual de 2026, segundo apuração do SportNavo, Rodrigo Soares acumula 32 jogos, 1 gol e 6 assistências pelo Goiás na Série A. Para um zagueiro, esse volume de participações diretas em gols é raro — e coloca o camisa 2 esmeraldino num patamar de produtividade que poucos defensores da liga conseguem sustentar ao longo de uma temporada completa.
O dado das 6 assistências merece atenção especial. Não se trata de um acidente estatístico: na temporada de 2024 pelo Novorizontino, Rodrigo já havia entregado o mesmo número de assistências na Série B. Há, portanto, um padrão. Um zagueiro que distribui 6 passes que resultam em gol numa mesma temporada não está apenas cumprindo sua função defensiva — está redefinindo o perímetro da sua utilidade tática.
Quando faz a bola circular pelo corredor central, ele organiza o ritmo da saída de bola. Quando projeta o passe longo para o terceiro homem, ele funciona como gatilho de contra-ataque. Esses dois gestos, repetidos ao longo de 32 partidas, constroem a identidade de um jogador que o Goiás aprendeu a usar de forma inteligente.
Estilo de jogo
Rodrigo Soares não é um zagueiro de imposição física — 176 centímetros e 73 quilos colocam-no abaixo da média dos defensores centrais da Série A. O que ele oferece é outra coisa: leitura de jogo, posicionamento antecipado e qualidade técnica na saída de bola. Essas características explicam por que clubes como Juventude, Atlético Goianiense e Novorizontino o mantiveram como titular regular em temporadas distintas.
Quando pressiona o adversário na linha de construção, ele corta rotas antes que o perigo se forme. Quando recua para cobrir o espaço deixado pela linha defensiva, ele reposiciona o bloco com precisão quase geométrica. É esse repertório técnico — e não a força bruta — que faz dele uma parede de ferro nos momentos em que o Goiás precisa defender a vantagem no placar.
Há também uma dimensão de liderança que os números não capturam diretamente. Aos 33 anos, com passagens por Série A, Série B, Gaúcho, Goiano e Paulista, Rodrigo carrega um acervo de situações vividas que tem valor intrínseco no vestiário. Jogadores mais jovens aprendem a ler o jogo observando como ele se posiciona nos momentos críticos.

Conquistas e momentos marcantes
O registro de troféus formais na carreira de Rodrigo Soares não está disponível nos dados públicos desta temporada. Mas há conquistas que não aparecem nas prateleiras: a de se manter relevante em três estados diferentes — Rio Grande do Sul, Goiás e São Paulo —, a de atravessar as divisões do futebol brasileiro sem perder espaço, e a de construir, aos 33 anos, uma temporada que rivaliza com as melhores de sua carreira.
A campanha de 2022 pelo Juventude na Série A, com 35 partidas, foi provavelmente o pico de exposição da carreira até aquele momento. A de 2026 pelo Goiás, com 32 jogos e 6 assistências já registradas, pode ser o pico de influência tática. São marcadores distintos de maturidade profissional.
O que esperar daqui pra frente
Rodrigo Soares completa 34 anos em dezembro de 2026. O horizonte imediato é claro: terminar a temporada com o Goiás na Série A, consolidar os números já expressivos e, eventualmente, discutir a renovação contratual a partir de uma posição de força — a de um zagueiro que entrega consistência defensiva e produção ofensiva acima da média da posição.
O cenário mais realista para os próximos doze meses é o de continuidade no clube esmeraldino, desde que o Goiás mantenha sua posição na elite. A experiência acumulada em múltiplas competições e o fato de que seu rendimento não decaiu com a idade — ao contrário, parece ter se refinado — são argumentos concretos para que o clube invista na manutenção do vínculo.
Há, também, a possibilidade de que clubes da Série B ou de mercados regionais se interessem por um perfil que combina maturidade, versatilidade e produção mensurável. Mas, por ora, o que os números de 2026 dizem é que Rodrigo Soares ainda tem muito a entregar na Série A — e que Porangatu, de onde tudo começou, produziu um defensor que o futebol brasileiro ainda não terminou de descobrir.










