Não, Tomás Cuello não é o atacante mais letal do Atlético Mineiro em 2026 — e entender por que isso não diminui sua importância é o exercício mais honesto que se pode fazer sobre o camisa 28 atleticano neste momento do Brasileirão Série A.
Sob a lente do treinador
Nascido em São Miguel de Tucumán no dia 5 de março de 2000, Cuello chegou ao futebol brasileiro por um caminho que muitos argentinos da sua geração tentaram, mas poucos conseguiram consolidar: o Athletico Paranaense serviu de porta de entrada, e foi no Paraná que ele acumulou os primeiros títulos no país — o Campeonato Paranaense de 2023 e, em seguida, o de 2024. Dois troféus estaduais em sequência revelam um jogador que, ao menos dentro do vestiário, já havia aprendido a vencer em ambiente competitivo antes de cruzar para Minas Gerais.
Do ponto de vista tático, um ponta-esquerda de 176 cm e 75 kg como Cuello não é convocado para ser o protagonista absoluto dos ataques — é chamado para criar desequilíbrio na largura, para obrigar a linha adversária a se abrir, para aparecer em espaços que o centroavante sozinho não consegue forçar. Nesse papel, as 5 assistências distribuídas nesta temporada falam mais do que qualquer gol poderia. Cada passe que vira gol é uma decisão tomada no momento exato, e cinco dessas decisões corretas em 32 partidas descrevem um jogador que o treinador pode acionar sabendo que o plano de jogo não será distorcido.
Sob a lente do torcedor
A torcida atleticana é exigente da forma que só uma torcida que já viu Reinaldo, Éder Aleixo e Hulk podem ser — ela quer sangue, quer velocidade, quer aquele momento em que o jogador pega a bola no campo e o estádio já sente que algo vai acontecer. Cuello ainda não é esse jogador para a maioria do público da Arena MRV. Mas há uma memória recente que ajuda a situar sua participação: no dia 21 de maio de 2026, quando o Galo goleou o Cienciano por 2 a 0, com gols de Renan Lodi e Bernard, o time funcionou como um organismo coeso — e Cuello fez parte do mecanismo que permitiu aquela fluidez ofensiva.
Três dias depois, no empate sem gols contra o Corinthians na Arena, o Atlético deixou pontos na mesa. Partidas assim frustram torcedores e exigem respostas. Para um ponta que já soma 3 gols e 5 assistências em 32 jogos nesta temporada, a cobrança é legítima — mas o contexto importa: ele é parte de um sistema, não seu único motor. O Campeonato Mineiro de 2025, conquistado com a camisa do Galo, foi o primeiro título com a nova equipe, e esse tipo de entrega coletiva costuma ser invisível aos olhos da arquibancada, mas é exatamente o que mantém um jogador na confiança do grupo.
Sob a lente da planilha de dados
Trinta e dois jogos disputados, 3 gols marcados, 5 assistências registradas. Esses são os números de Tomás Cuello na temporada atual do Brasileirão Série A — e eles precisam ser lidos com alguma sofisticação para não enganar. As 5 assistências, por exemplo, representam mais participações diretas em gols do que a soma dos gols e assistências de toda a zaga atleticana nesta campanha — o que, por si só, reposiciona Cuello como um criador de oportunidades em um elenco que distribui a responsabilidade ofensiva entre muitos.
A média de aproximadamente uma participação em gol a cada 3,8 jogos coloca o argentino em linha com o que se espera de um ponta de apoio em um clube que briga por posições na tabela do Brasileirão. Não é o ritmo de um artilheiro, mas é o ritmo de um jogador que não desperdiça suas aparições nos momentos que importam. Para alguém que completou 26 anos em março de 2026, esses números descrevem uma curva ainda ascendente — não um plateau.
Sob a lente do mercado
O futebol sul-americano tem uma lógica própria para avaliar argentinos que se adaptam ao Brasil: o período de aclimatação costuma durar entre seis meses e uma temporada completa, e os que sobrevivem a esse processo geralmente se tornam ativos valorizados. Cuello passou por essa fase no Athletico Paranaense, somou dois títulos estaduais e chegou ao Atlético Mineiro com referências concretas — não como aposta, mas como uma contratação com histórico verificável.

Nos próximos doze meses, os cenários realistas para o camisa 28 se dividem em três: consolidação como titular absoluto no Galo, caso consiga elevar sua média de participações ofensivas; manutenção no papel de rotação qualificada, o que já garante relevância em um elenco de alto nível; ou, eventualmente, uma janela de transferência que o leve a outro clube do Brasil ou da América do Sul com maior protagonismo. A idade — 26 anos — é o fator mais favorável: ele está no pico físico, tem experiência suficiente para não se perder em momentos de pressão e ainda tem tempo para crescer como titular.
O mercado europeu para pontas argentinos desta faixa etária existe, mas exige números mais expressivos do que os atuais para se tornar uma conversa real. O caminho mais provável, e o mais saudável para sua carreira, passa por uma segunda metade de temporada mais produtiva no Brasileirão — que é, afinal, uma das ligas mais observadas do continente por olheiros europeus.
Não, Tomás Cuello não é o atacante mais letal do Atlético Mineiro em 2026 — e entender por que isso, depois de tudo o que esta leitura revelou, já não soa como crítica mas como ponto de partida, é o exercício mais honesto que se pode fazer sobre o camisa 28 atleticano neste momento do Brasileirão.










