Diz-se que a Copa do Mundo é ganha pelos mais talentosos. A convocação da Inglaterra divulgada nesta sexta-feira (22/5) por Thomas Tuchel contradiz essa premissa com nomes e argumentos concretos: Phil Foden, do Manchester City, e Cole Palmer, do Chelsea — dois dos meias mais produtivos da temporada 2025/26 na Premier League — ficaram fora da lista final de 26 jogadores. A ausência não é acidente. É tese.

A cena que Tuchel montou na coletiva desta sexta

Diante dos jornalistas, o técnico alemão de 52 anos foi direto ao ponto. Não se esquivou das perguntas sobre Foden e Palmer, e tampouco sobre Trent Alexander-Arnold, do Real Madrid, e Harry Maguire, do Manchester United — outros dois nomes relevantes que também ficaram de fora.

"Acho que desde o primeiro dia deixamos bem claro que estávamos tentando selecionar e construir a melhor equipe possível, o que não significa necessariamente selecionar e reunir os 26 jogadores mais talentosos", afirmou Tuchel.

A declaração não foi retórica. Tuchel revelou que conversou individualmente com cada atleta cortado — conversas que ele próprio descreveu como "dolorosas" — e que a espinha dorsal da seleção foi construída nos períodos de preparação entre setembro e novembro de 2025. O grupo, segundo avaliação interna, encontrou uma identidade funcional. Mexer nessa estrutura, mesmo com talentos inegáveis, representaria risco tático.

"Os títulos são conquistados por equipes, é simples assim. O que estamos tentando alcançar só pode ser alcançado em equipe", completou o treinador.

O perfil que Foden e Palmer não entregam no modelo de Tuchel

Foden e Palmer são meias de criação com características similares: ambos operam melhor com liberdade posicional, preferência pela zona central e tendência a se aproximar do atacante de referência. No Manchester City de Pep Guardiola, Foden tem autonomia para flutuar. No Chelsea, Palmer funciona como organizador ofensivo com alto volume de passes progressivos — registrou mais de 10 assistências na temporada atual pela Premier League.

A cena que Tuchel montou na coletiva desta sexta Por que Tuchel cortou Foden e P
A cena que Tuchel montou na coletiva desta sexta Por que Tuchel cortou Foden e P

O problema é que o modelo de Tuchel para a Inglaterra não parece demandar esse tipo de jogador. A lista convocada sugere um meio-campo de três com Declan Rice (Arsenal) como pivô defensivo, Jude Bellingham (Real Madrid) como box-to-box de alta intensidade e espaço para Kobbie Mainoo (Manchester United) ou Eberechi Eze (Arsenal) como terceiro elemento. Nenhum desses perfis é de meia clássico de criação — são jogadores que pressionam, cobrem espaços e transitam verticalmente.

Na avaliação do SportNavo, a convocação de Morgan Rogers (Aston Villa) e Elliot Anderson (Nottingham Forest) reforça essa leitura: Tuchel quer atletas com capacidade de pressão alta e mobilidade em bloco, não criadores individuais que exigem espaço para operar. Como se diz no Brasil, quem não tem cão caça com gato — e Tuchel, sem os seus meias mais talentosos, apostou num grupo coeso que talvez seja mais difícil de desmontar taticamente do que um elenco recheado de estrelas sem entrosamento.

O Grupo L e o que a aposta de Tuchel precisa provar

A Inglaterra estreia na Copa do Mundo no dia 17 de junho, com dois amistosos preparatórios antes disso: contra a Nova Zelândia no dia 6 e contra a Costa Rica no dia 10. No Grupo L, os adversários são Croácia, Gana e Panamá — um grupo administrável, mas que exigirá consistência defensiva e transições rápidas, exatamente o que o modelo de Tuchel tenta construir.

O histórico recente da seleção inglesa contextualiza a pressão sobre essa aposta. A Inglaterra foi vice-campeã nas duas últimas edições da Eurocopa, chegou à semifinal da Copa de 2018 e às quartas de final em 2022. O único título mundial permanece em 1966 — um jejum de seis décadas que nenhuma geração talentosa conseguiu encerrar. Tuchel herdou de Gareth Southgate um grupo experiente em finais, mas ainda sem troféu.

A lista com Harry Kane (Bayern de Munique), Bukayo Saka (Arsenal), Marcus Rashford (Barcelona) e Ivan Toney (Al-Ahli) no ataque indica que a qualidade ofensiva não foi sacrificada. O que Tuchel escolheu abrir mão foi da imprevisibilidade individual de Foden e Palmer — apostando que uma equipe mais previsível taticamente, mas mais coesa e intensa, chegará mais longe do que um grupo de solistas sem sinfonia.

Uma convocação é como uma receita: você pode ter todos os ingredientes mais caros da despensa e ainda assim errar o prato se não entender o que cada um faz no calor do forno. Tuchel escolheu uma receita diferente. A Inglaterra estreia em 17 de junho para descobrir se ela funciona.