O último brasileiro a sair de uma Copa do Mundo com a Chuteira de Ouro na mão marcou 8 gols em sete jogos, dançou no gramado de Yokohama e tinha 25 anos. Era 30 de junho de 2002, e Ronaldo Nazário encerrava ali uma campanha que ainda hoje é referência de eficiência ofensiva em Mundiais. Vinte e quatro anos depois, a emissora britânica BBC colocou Vinicius Júnior no topo da lista de favoritos à artilharia da Copa do Mundo 2026 — e a pergunta que o Brasil inteiro quer responder é se esse jejum finalmente acaba nos gramados dos Estados Unidos.

O favoritismo de Vinicius e o que os números sustentam

A análise da BBC não é construída no vácuo. Vinicius Jr. chega à Copa do Mundo 2026 como um dos jogadores mais decisivos do planeta na temporada 2025/2026 — um atacante que, nos últimos 12 meses pelo Real Madrid, acumulou participações diretas em gols em volume superior ao de toda a linha defensiva da Seleção somada em jogos eliminatórios das Eliminatórias Sul-Americanas. O brasileiro divide o favoritismo com Harry Kane e Kylian Mbappé, os outros dois nomes no topo da lista britânica. Kane, que levou a Chuteira de Ouro em 2018 com 6 gols pela Inglaterra, chegou a 2026 após uma temporada de 61 gols na Europa — número que, para um centroavante, é quase obsceno. Mbappé, por sua vez, tenta o feito inédito de vencer duas Chuteiras de Ouro consecutivas, depois de ter sido artilheiro em 2022 com 8 gols, igualando a marca histórica de Ronaldo.

A diferença estrutural entre Vinicius e seus concorrentes diretos é o contexto coletivo. Kane depende de uma Inglaterra que historicamente trava nos momentos decisivos. Mbappé carrega uma França — a mais desgastada entre todas as favoritas, segundo levantamento da plataforma Opta publicado pelo Bolavip Brasil — que acumulou 94.537 minutos jogados pelos 26 convocados na temporada, o maior número entre as 11 seleções analisadas. O Brasil, com 87.163 minutos, chegou mais descansado que França, Inglaterra, Portugal, Alemanha e Espanha. Esse dado não é cosmético: em torneios de seis rodadas em 30 dias, pernas frescas valem gols.

O grupo brasileiro e a atmosfera que Ancelotti construiu

Nos bastidores da preparação em Basking Ridge, Nova Jersey, o que chama atenção não é só a qualidade técnica do elenco — é o ambiente. Na coletiva de imprensa desta quarta-feira, 3 de junho, Endrick e Rayan sentaram na sala de imprensa para acompanhar a entrevista de Igor Thiago, o camisa 25 convocado por Carlo Ancelotti. O atacante do Brentford, que marcou de pênalti na goleada por 6 a 2 sobre o Panamá no Maracanã no dia 31 de maio, respondeu ao companheiro do Real Madrid com uma frase que viralizou nas redes sociais:

"Poder compartilhar esse momento com vocês, poder cravar esse momento na história, e espero que no final de tudo isso a gente possa conquistar", disse Igor Thiago, respondendo a Endrick que havia assumido o papel de repórter.

Esse tipo de cena — espontânea, descontraída, filmada por dezenas de câmeras — revela um vestiário que Carlo Ancelotti construiu com inteligência emocional. Igor Thiago destacou que a relação com os outros atacantes é de "competitividade saudável", e o próprio Endrick tratou de fechar a coletiva com bom humor. Para um grupo que precisará de entrosamento coletivo para liberar Vinicius Jr. nos espaços certos, essa coesão não é detalhe.

Marquinhos, Gabriel Magalhães e a solidez que Vinicius precisa atrás

Artilheiros de Copa não existem sem seleções que chegam longe. E chegar longe, em 2026, passa pela solidez defensiva — um setor que ganhou uma camada humana importante nesta semana. Marquinhos, capitão da Seleção, revelou em coletiva nesta quarta-feira os detalhes do abraço que deu em Gabriel Magalhães após o zagueiro do Arsenal perder o pênalti que deu o título da Champions League ao PSG. A imagem — o capitão brasileiro interrompendo a própria comemoração para consolar o companheiro — ganhou repercussão mundial e diz algo sobre a qualidade humana desse grupo.

"Como eu gostaria de ter recebido um abraço, eu deixei um momento, alguns minutos, para dar um abraço, falar duas, três palavras. Para ele ficar firme, erguer a cabeça, que ele tinha sido incrível, o melhor zagueiro do mundo", disse Marquinhos, lembrando que viveu situação semelhante contra a Croácia em 2022.

Gabriel Magalhães — campeão da Premier League com o Arsenal na temporada 2025/2026 — deve retomar a parceria com Marquinhos já no sábado, 6 de junho, contra o Egito, em Cleveland, no último amistoso antes do Mundial. A zaga funcionando é o pré-requisito para que Vinicius Jr. jogue liberado, sem o peso de cobrir erros defensivos.

O que falta para a Chuteira de Ouro chegar ao Brasil pela primeira vez desde 2002

A matemática é simples e brutal ao mesmo tempo. Ronaldo marcou 8 gols em 2002 — número que, em Copas modernas com fases de grupos mais equilibradas, equivale a ser decisivo em praticamente todas as partidas até a final. Mbappé igualou essa marca em 2022. Para Vinicius Jr. — um atacante de velocidade e criação, não um centroavante puro como Kane ou Haaland — chegar perto desse volume exige que o Brasil avance às semifinais ou à final, e que o esquema de Ancelotti o use como referência ofensiva, não apenas como criador. A BBC também citou Raphinha e Igor Thiago como candidatos a surpresa da competição, o que indica que o ataque brasileiro tem profundidade suficiente para não depender exclusivamente de Vinicius.

O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no dia 13 de junho, contra Marrocos, em Nova York — um adversário que eliminou Portugal e Espanha em 2022 e que não pode ser subestimado. Antes disso, o amistoso contra o Egito, sábado, 19h (de Brasília), em Cleveland, será o termômetro final do sistema que Ancelotti vai usar para liberar Vinicius Jr. nos espaços que podem transformar um favorito da BBC em artilheiro real de uma Copa do Mundo, conforme acompanhado em tempo real pelo SportNavo.