O Emirates estava sob pressão de seis pontos de déficit na tabela quando Arteta precisou de alguém que não perdesse a bola. Não de alguém que a escondesse — de alguém que a fizesse circular com a frieza de quem cresceu num futebol que considera o erro técnico quase uma questão moral.
Onde ele pode estar em 2027
Martín Zubimendi completa 28 anos em fevereiro de 2027, e nessa idade um volante de seu perfil costuma atingir o teto da maturidade tática. O paralelo histórico que me vem à cabeça é o de Claude Makélélé na virada dos anos 1990 para os 2000: um jogador que não aparecia nos pôsteres mas cuja ausência reorganizava o time inteiro. O Arsenal de Arteta parece ter encontrado nessa camisa 36 exatamente essa figura — um pulmão que respira pelo coletivo. Se a temporada 2026/2027 confirmar a trajetória que os números desta temporada sugerem, Zubimendi pode consolidar-se como um dos três melhores volantes da Premier League, uma liga que nas últimas duas décadas redefiniu o que se espera fisicamente da posição.
Os 5 gols em 35 jogos na temporada atual não são o dado mais revelador — para um primeiro volante, esse número seria extraordinário em qualquer época. O que revela é a capacidade de aparecer na área adversária em momentos específicos, algo que Llorente fazia no Atlético de Simeone e que transforma o volante num elemento de terceiro tempo ofensivo. Se o Arsenal mantiver a estrutura tática atual e Zubimendi seguir sem lesões relevantes, é razoável imaginar o espanhol como peça central de uma campanha europeia mais profunda em 2027.
O que precisa acontecer até lá
Arteta tem um histórico de construir jogadores em camadas. Fez isso com Saliba, fez com Gabriel, e parece estar fazendo com Zubimendi numa velocidade que surpreende quem acompanha o clube há mais tempo. A notícia de maio de 2026 — de que Arteta o escolheu no lugar de um jogador de 70 milhões — diz muito sobre a confiança depositada num atleta que chegou sem o peso de uma cifra astronômica no currículo imediato.
Para que o cenário positivo se concretize, o espanhol precisa resolver uma equação que o SportNavo identificou ao longo desta temporada: a consistência ofensiva quando Ødegaard está ausente. Com o norueguês fora, a criação do Arsenal tende a recair sobre os volantes e os pontas, e Zubimendi precisará expandir seu raio de ação sem comprometer a função primária de destruição e distribuição. A assistência registrada nesta temporada indica que o caminho existe — mas ainda é uma trilha, não uma estrada.
Há também a questão da Copa del Rey, competição que aparece nas manchetes recentes ligadas ao seu nome. Esse contexto sugere que o jogador carrega consigo uma memória tática construída num futebol de alta exigência posicional — a escola basca, que desde os anos de Txiki Begiristain e Guardiola no futebol espanhol sempre produziu jogadores com leitura de jogo acima da média europeia.
O que já aconteceu na trajetória
Nascido em 2 de fevereiro de 1999, Zubimendi tem 27 anos e representa uma geração espanhola que cresceu sob a sombra dourada da seleção campeã do mundo de 2010 e bicampeã da Eurocopa. Essa geração não herdou só títulos — herdou um método. O futebol de posição, a saída de bola pelo goleiro, o pressing alto como princípio e não como recurso emergencial. Tudo isso está incrustado na forma como o volante se move dentro de campo.
A trajetória até o Arsenal passa pela Real Sociedad, clube que nas últimas décadas construiu uma das academias mais respeitadas da Espanha, ao lado de Athletic Bilbao e Barcelona. A Real Sociedad de San Sebastián tem uma filosofia de formação que remete ao futebol basco dos anos 1980, quando Txiki, Goikoetxea e Sanchos eram o coração de um Athletic que chegou a dois títulos seguidos da Liga espanhola, em 1983 e 1984. Esse DNA de clube-formador, que prioriza a identidade sobre o mercado, moldou Zubimendi de forma diferente de jogadores que migraram cedo para academias de grandes clubes.
A referência à Copa del Rey nos artigos recentes aponta para uma final que envolveu a Real Sociedad — o que contextualiza um turning point importante: a saída de um clube onde era titular absoluto para o desafio de uma Premier League que exige adaptação física e mental acelerada. Essa transição, quando bem-sucedida, costuma produzir os melhores anos de carreira de um volante. Xabi Alonso levou uma temporada para entender o ritmo de Liverpool antes de se tornar um dos melhores meias do mundo. Busquets precisou de um Guardiola para revelar sua dimensão real.
Os obstáculos no caminho
A camisa 36 no Arsenal não é um número de titular histórico — é um número de transição, de jogador que ainda está construindo seu lugar simbólico no clube. Isso importa menos do que parece, mas importa. No futebol inglês, onde a narrativa em torno do jogador alimenta a relação com a torcida, Zubimendi ainda precisa de um momento fundador — um gol decisivo numa semifinal, uma atuação que vire manchete, um jogo que a torcida do Arsenal lembre daqui a dez anos.
Há um obstáculo estrutural também. O volante espanhol de 181 cm e 74 kg não é o perfil físico que a Premier League historicamente privilegia na posição. Patrick Vieira tinha 188 cm e uma presença física que intimidava antes do apito inicial. Roy Keane impunha respeito pelo peso de cada duelo. Zubimendi é um jogador de outra escola — mais Pirlo do que Keane, mais Busquets do que Vieira. Isso não é desvantagem, mas exige que ele seja ainda mais preciso tecnicamente para compensar o que não impõe pela força.
A ausência de Ødegaard, citada nas coberturas recentes, revela uma dependência que o Arsenal ainda não resolveu. Quando o capitão norueguês está em campo, Zubimendi funciona como o metrônomo perfeito. Quando está fora, o time busca soluções improvisadas. Esse é o nó que o volante espanhol precisa desatar — não sozinho, mas sendo protagonista da solução.
Existe um tipo de jogador que a história do futebol europeu repete a cada geração: aquele que só é plenamente compreendido quando sai.
Zubimendi ainda está no Arsenal. E o Arsenal ainda não sabe o que tem.









