A última vez que uma movimentação desta magnitude sacudiu o setor de telecomunicações brasileiro foi em julho de 1998, quando o leilão de privatização do Sistema Telebrás distribuiu 12 empresas entre consórcios nacionais e internacionais e redefiniu para sempre quem mandava nas linhas do país. Quase três décadas depois, o tabuleiro volta a ser embaralhado — desta vez com a Poste Italiane colocando €10,8 bilhões na mesa para absorver a Telecom Italia, controladora da TIM Brasil, enquanto a própria operadora negocia recomprar 51% da I-Systems, sua unidade de fibra óptica, em um negócio estimado em US$ 170 milhões.

A oferta de €10,8 bilhões e o que os números revelam sobre o timing

Na última quinta-feira (28), o CEO da Poste Italiane, Matteo Del Fante, acompanhado pelo CFO Camillo Greco e pelo diretor-geral Giuseppe Lasco, se sentou pessoalmente diante do conselho de administração da Telecom Italia para apresentar os termos formais da oferta pública voluntária de aquisição lançada em março. A proposta prevê pagamento misto: €0,167 em dinheiro mais 0,0218 novas ações da Poste por cada papel da TIM, chegando a €0,635 por ação — um prêmio de aproximadamente 9% sobre o preço de fechamento de março. O problema é que, desde então, as ações subiram para a faixa de €0,73, o que divide analistas sobre se a oferta ainda é vantajosa para os acionistas minoritários. A Morningstar classificou a proposta como adequada; outros gestores discordam. Esse spread de €0,095 entre o valor ofertado e o preço de mercado atual é, em linguagem de tênis, a diferença entre um ace limpo e um saque que o adversário já leu antes de a bola cruzar a rede.

Del Fante confirmou ao conselho que a Poste mantém a expectativa de fechar o negócio até o terceiro trimestre de 2026 — prazo que havia sido sinalizado quando a companhia divulgou seus resultados do primeiro trimestre em maio, mas que ganhou peso institucional com a formalização diante dos auditores estatutários. Para isso, ainda precisam ser obtidas autorizações regulatórias junto ao antitruste italiano, que já abriu investigação sobre a operação, além da publicação do documento final da oferta e da abertura do período de aceitação pelos acionistas.

A recompra da I-Systems e o que a fibra tem a ver com tudo isso

Paralela à negociação europeia, a TIM Brasil trata de um movimento igualmente estratégico no front doméstico. Segundo duas fontes com conhecimento direto do assunto ouvidas pelo Valor Econômico, a operadora negocia recomprar os 51% da I-Systems que havia cedido anteriormente, em uma transação que pode alcançar US$ 170 milhões. A I-Systems opera como rede neutra de fibra óptica — o tipo de infraestrutura que a TIM já defendeu publicamente como "insumo chave para o plano de reconstrução e fortalecimento das telecomunicações no Brasil".

Não há tragédia: há contabilidade. Quando a TIM vendeu a participação majoritária na I-Systems, precisava de caixa e de foco no núcleo móvel. Agora, com o espectro da Oi Móvel em processo de absorção e a perspectiva de um novo controlador europeu chegando, retomar o controle da infraestrutura de fibra é uma jogada de posicionamento para a próxima década. Quem controla a rede neutra controla o preço de acesso dos concorrentes menores — e isso vale muito mais do que US$ 170 milhões em um horizonte de 10 anos.

A Anatel, o Cade e o novo mapa do mercado móvel brasileiro

Para entender o tamanho da reconfiguração em curso, é preciso voltar ao episódio da Oi Móvel. O conselho diretor da Anatel aprovou, por unanimidade dos quatro conselheiros, a venda dos ativos móveis da Oi para TIM, Claro e Vivo. O relator Emmanoel Campelo já havia votado a favor; Vicente Aquino, que havia pedido vistas e suspendido a reunião anterior, retornou sugerindo apenas ajustes de redação — entre eles, a manutenção de um acordo de cooperação científica da Marinha na Estação Antártica Comandante Ferraz. A reunião durou cerca de 20 minutos. O Cade referendou a operação em caráter definitivo no dia 9 de fevereiro, após mais de um ano de análise.

A TIM recebeu a maior fatia de espectro da Oi — e, por consequência, desembolsou mais do que Claro e Vivo no processo. O CEO Alberto Griselli foi direto ao avaliar o desfecho:

"A aprovação da venda da Oi Móvel pelo Cade preserva o interesse do negócio e da sociedade, garantindo a manutenção do ecossistema de competição e investimentos necessários para o desenvolvimento das telecomunicações brasileiras e o avanço digital do país."

Mario Girasole, VP de Regulatório da TIM, foi ainda mais preciso ao descrever a interdependência dos eventos:

"A decisão do Cade, a aprovação da Anatel, a combinação dos respectivos remédios, o êxito do leilão 5G, o surgimento das redes neutras e a intensa regulação setorial não são eventos isolados, mas sim o conjunto interligado de fatores que garante um ambiente de competição e investimentos."

O que muda para o consumidor brasileiro e para a competição entre operadoras

Consolidou. Com a absorção dos clientes da Oi Móvel, o mercado brasileiro de telecomunicações passa a operar com três grandes players — TIM, Claro e Vivo — em uma concentração que não existia desde antes da entrada da própria TIM no país, nos anos 2000. A Anatel determinou que a migração dos usuários da Oi para as bases das concorrentes seja feita sem ônus para o consumidor, com acompanhamento contínuo da agência para detectar irregularidades no processo.

O risco real para o consumidor não está na migração em si, mas no médio prazo: três operadoras com espectro bem distribuído e infraestrutura de fibra neutra controlada pela maior delas tendem a competir em preço por um período, mas o histórico de mercados com três players oligopolistas — nos EUA, no Reino Unido, na Alemanha — mostra que a pressão tarifária cede quando a disputa por cobertura 5G se intensifica. A TIM acumulava, junto com Vivo e Claro, cerca de R$ 11 bilhões em dívidas ativas somente no estado de São Paulo, segundo dados recentes — o que indica que o equilíbrio financeiro do setor ainda tem arestas a aparar antes que qualquer euforia competitiva se justifique.

O calendário agora é preciso: a Poste Italiane tem até o terceiro trimestre de 2026 para concluir a aquisição da Telecom Italia, o antitruste italiano precisa dar seu veredicto, e a TIM Brasil precisa fechar a recompra dos 51% da I-Systems. Se os três movimentos se completarem dentro do prazo, o setor de telecom brasileiro entrará em 2027 com uma arquitetura completamente diferente da que existia em 2020 — e com uma operadora de controle estatal italiano administrando a maior carteira de espectro 4G/5G do país.