Todo mundo sabe o placar final: 3 a 0 para o Dentil Praia Clube sobre o Gerdau Minas, com parciais que oscilaram entre o equilíbrio milimétrico do terceiro set (26/24, segundo a ESPN) e o domínio tático exposto no terceiro período (25/13, conforme relatado pelo portal ABCdoABC). O que vale examinar com mais cuidado é como Uberlândia chegou aqui — e por que o Minas, mesmo sendo o adversário mais qualificado do país, se tornou o combustível que impulsiona a identidade do Praia.

O diagnóstico do momento

O Dentil Praia Clube é tricampeão da Superliga Feminina 2025/26. O título foi conquistado neste domingo, 3 de maio, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, encerrando um ciclo de reconstrução que começou com três finais perdidas consecutivas para o próprio Minas — em 2018/19, 2020/21 e 2021/22. O primeiro troféu veio em 2017/18; o segundo, em 2022/23; o terceiro, agora. Oito anos, três taças, e o Minas presente em todas as decisões relevantes do período.

O técnico Paulo Coco construiu um sistema de jogo apoiado num bloqueio duplo altamente coordenado, com a central Adenízia Silva operando como âncora de leitura de trajetória. No terceiro set desta final, o bloqueio do Praia neutralizou as principais rotas ofensivas do Minas de forma recorrente — a diferença de 25 a 13 numa parcial decisiva não é acidente tático, é resultado de eficiência de bloqueio sustentada por ao menos quatro sequências de ponto direto documentadas na transmissão oficial.

"O Praia Clube, enfim, bateu o Minas em uma decisão de Superliga e sagrou-se campeão", registrou a ESPN Brasil ao narrar o bicampeonato de 2022/23 — descrição que agora se repete, com o peso adicional de um tricampeonato consolidado.

Os fatores que explicam o quadro

A distribuição de jogo foi o diferencial apontado de forma unânime pelas coberturas do Regionalzão e do ABCdoABC. A levantadora do Praia operou com variação de tempo de bola — alternando levantamentos de segundo tempo para as centrais com pipes pelas pontas — o que impediu o Minas de organizar seu sistema de bloqueio duplo com antecipação. Quando o bloqueio adversário não consegue alinhar dois braços na zona de conflito, o atacante ganha espaço de bola mesmo sem velocidade máxima no salto.

Payton Caffrey foi decisiva no terceiro set, explorando o lado direito da defesa do Minas em pelo menos dois contra-ataques que ampliaram a vantagem para além do ponto de recuperação. Do outro lado, Yonkaira Peña — que havia marcado 23 pontos na final de 2023/24 pelo Minas — foi contida pelo sistema defensivo do Praia, que apostou na leitura de trajetória e não apenas na proteção de linha.

O diagnóstico do momento Praia Clube tricampeão — e o Minas virou
O diagnóstico do momento Praia Clube tricampeão — e o Minas virou

O levantamento do histórico de confrontos feito pelo SportNavo mostra que, das quatro finais disputadas entre Praia e Minas nos últimos cinco anos, cada equipe venceu duas — mas com padrões distintos: o Minas triunfou quando conseguiu impor seu ritmo ofensivo com sacadores viagem de alto risco (Peña, Thaisa), enquanto o Praia venceu quando neutralizou esses saques com recepção organizada e atacou com pipe na transição.

"Depois de ficar com o vice nas últimas três finais contra o Minas, o Praia, enfim, conquistou seu segundo título na Superliga Feminina", descreveu o ge.globo.com ao narrar a conquista de 2022/23 — frase que hoje precisa ser atualizada: são dois títulos seguidos contra o mesmo adversário, com o tricampeonato selando a virada de hegemonia.

Os cenários possíveis daqui

O Minas encerrou 2025/26 como pentacampeão histórico da Superliga, mas com uma temporada descrita como "mais instável em quadra" pela cobertura do ge.globo.com. A saída ou manutenção de Thaisa — bicampeã olímpica e referência técnica no meio de rede — será o dado mais relevante para avaliar se o time de Belo Horizonte consegue recompor o padrão que o levou ao pentacampeonato em 2023/24.

O Praia, por sua vez, encerra a temporada com elenco intacto nas posições-chave e com Paulo Coco consolidado num projeto que durou mais de um ciclo olímpico. A questão para 2026/27 é se a equipe de Uberlândia consegue manter Caffrey e as irmãs Martinez — Brayelin e Jineiry — num mercado de transferências que atrai clubes turcos e italianos com ofertas significativas. Segundo apuração do SportNavo, ao menos dois clubes europeus já demonstraram interesse formal em jogadoras do atual elenco campeão.

A Superliga Feminina 2026/27 começa em outubro. Se o histórico recente se mantiver, a decisão voltará a passar por Uberlândia e Belo Horizonte — e aí o equilíbrio de 2 a 2 em finais terá que ser resolvido de vez.

No Ibirapuera, quando a bola tocou o chão no match point do terceiro set, Adenízia Silva levantou o punho fechado na direção do teto. Trinta e nove anos, três Superligas. A conta estava certa.