Diz-se que o Minas Tênis Clube tinha a equipe mais completa desta Superliga feminina — que o elenco mineiro era mais profundo, mais experiente em decisões, e que o Praia Clube de Uberlândia chegava à final carregando mais dúvidas do que certezas. O placar deste domingo, 3 de maio, no Ibirapuera, respondeu com a frieza de quem não precisava de mais argumento: 29/27, 25/21 e 25/13. Três sets. Zero cedido.

A cena

O ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, registrou público recorde para a final, e quem estava nas arquibancadas viu algo que vai além de um resultado. O primeiro set foi longo, áspero, disputado ponto a ponto até o 29/27 que dobrou a resistência do Minas antes mesmo de o jogo entrar no segundo parcial. Quando uma equipe perde o primeiro set por essa margem — depois de salvar set points e ainda assim não conseguir fechar — o abalo psicológico é real e mensurável. O segundo set saiu 25/21, e o terceiro foi quase uma execução: 25/13, uma diferença de 12 pontos que não deixa espaço para interpretação generosa.

A torcida do Praia Clube, que havia cruzado o Brasil para estar em São Paulo, acompanhou cada ponto do terceiro set com a consciência de quem já sabia o que estava vendo — não apenas uma vitória, mas a consolidação de um projeto que muita gente apostou que não ia durar.

O contexto que explica

O Praia Clube tem agora três títulos de Superliga feminina: 2017/18, 2022/23 e 2025/26. A distribuição desses títulos ao longo de oito temporadas conta uma história de intermitência que, paradoxalmente, é também uma história de resiliência. Entre o segundo e o terceiro título, o clube de Uberlândia passou por uma reconstrução de elenco que gerou desconfiança legítima — saíram peças importantes, o orçamento foi apertado em relação aos rivais do eixo Rio-Belo Horizonte, e a temporada começou sem que muitos analistas colocassem o Praia como favorito ao título.

Conforme levantamento do SportNavo ao longo desta temporada, o Praia foi o time que mais cresceu em rendimento de saque e bloqueio entre as semifinalistas, dois fundamentos que costumam ser determinantes em sets equilibrados — exatamente o tipo de set que o primeiro parcial contra o Minas representou. A vitória por 29/27 não foi sorte; foi a colheita de um processo.

O técnico do Praia Clube, ao falar com a imprensa após a conquista, atribuiu o título ao amadurecimento coletivo da equipe ao longo da temporada. Nas palavras dele,

"Este grupo aprendeu a sofrer junto, e foi isso que nos trouxe até aqui. Não tínhamos a equipe mais cara, mas tínhamos a equipe mais coesa."

Do lado do Minas, a derrota por 3 a 0 — especialmente o colapso no terceiro set — vai exigir uma análise honesta. O clube de Belo Horizonte chegou à final como o time com melhor campanha na fase classificatória, e o placar de 25/13 no set decisivo é o tipo de resultado que não acontece por acidente. Acontece quando uma equipe já quebrou antes do set começar.

A cena Praia Clube varreu o Minas e provou que
A cena Praia Clube varreu o Minas e provou que

As implicações imediatas

Três títulos de Superliga colocam o Praia Clube em um patamar de clube formador de legado no vôlei feminino brasileiro — não apenas de passagem, mas de consistência ao longo de décadas. O Osasco dominou os anos 2000 e 2010; o Sesc Rio e o Minas foram protagonistas recentes; o Praia agora reivindica com argumentos concretos o seu espaço nessa conversa.

A análise do SportNavo sobre esta final aponta que a chave tática foi a capacidade do Praia de neutralizar o ataque de meio do Minas, que havia sido o diferencial nas semifinais. Ao forçar o jogo pelas pontas adversárias e variar o timing do bloqueio, o Praia transformou o set 3 em um monólogo.

Uma das jogadoras do Praia Clube, ao ser entrevistada na quadra logo após o apito final, resumiu o sentimento do grupo com precisão:

"Todo mundo duvidou da gente essa temporada. A gente usou isso como combustível do primeiro ao último jogo."

O Praia Clube volta agora às atenções para a temporada seguinte com um elenco que precisa ser confirmado — algumas jogadoras têm contrato até junho de 2026, e a janela de transferências do vôlei nacional abre em julho. O clube terá pela frente o desafio de segurar as peças que construíram este título enquanto os rivais, especialmente o Minas, já começam a planejar a resposta — o Minas Tênis Clube anunciou que vai revisar seu planejamento para 2026/27 ainda neste mês. O Praia chegou ao topo de novo — falta agora defender o que construiu.