O melhor striker da divisão dos meio-médios é faixa-preta de jiu-jitsu — e esse paradoxo aparente é exatamente o que torna Carlos Prates o problema mais complexo que Islam Makhachev jamais enfrentou no peso de 77 kg. A imagem que o público construiu do paulista da Fighting Nerds é a de um nocauteador puro, um homem que resolve tudo em pé. Mas Prates passou boa parte da coletiva pós-UFC Austrália desconstruindo essa leitura rasa.
Quem se beneficia diretamente
A vitória sobre Jack Della Maddalena, ex-campeão interino dos meio-médios, foi o sétimo nocaute consecutivo de Prates dentro do octógono — uma sequência que não deixa margem para debate sobre quem merece o próximo shot pelo cinturão. Com o resultado em Perth, o brasileiro deve assumir a liderança do ranking dos meio-médios e se consolidar como o principal candidato a enfrentar Makhachev em sua primeira defesa de cinturão na divisão.
"Muita gente vai dizer: 'Como o Carlos Prates pode lutar contra o Islam, se no primeiro round ele foi derrubado pelo Della Maddalena?' Eu não tenho medo de quedas. Sou faixa-preta de jiu-jitsu", declarou Prates na coletiva de imprensa após o evento australiano.
Reparemos no detalhe que essa fala carrega: Prates não negou a queda. Ele a admitiu, a contextualizou e usou como argumento. É o tipo de inteligência competitiva que separa um bom lutador de um candidato a campeão. A queda aconteceu, ele se levantou, e Della Maddalena acabou desacordado na lona.
Quem perde
Ian Machado Garry é o nome que mais sente o peso da ascensão de Prates — ao menos no aspecto simbólico. O irlandês detém a única vitória sobre o brasileiro dentro do UFC, mas essa derrota, que parecia encerrar uma narrativa, virou combustível para uma das revanches mais desejadas da divisão. Garry, que treina regularmente na Chute Boxe Diego Lima e é casado com uma brasileira, já se antecipou ao cenário e usou as redes sociais para projetar um reencontro.
"Carlos, depois que eu vencer o Islam — você e eu no Brasil. Vamos fazer acontecer!", escreveu o irlandês no X, em mensagem direta ao brasileiro.
O problema para Garry é que essa declaração pressupõe uma vitória sobre Makhachev, que até agora figura como favorito pesado nas casas de apostas para qualquer disputa de cinturão. Se o irlandês perder para o russo — cenário que as odds apontam como mais provável — o caminho de Prates para o título pode se abrir antes da revanche projetada, e Garry ficaria fora da equação principal da divisão por meses.
O efeito dominó nas próximas semanas
Makhachev deve retornar ao octógono em agosto de 2026 para sua primeira defesa do cinturão dos meio-médios. O adversário ainda não foi oficializado, mas as especulações apontam para Ian Garry como o nome mais cotado. A análise do SportNavo sobre o ranking atual da divisão mostra que, caso Garry vença e depois enfrente Prates no Brasil, o UFC teria em mãos um dos cards mais vendáveis da história do MMA nacional — dois lutadores com histórico entre si, um cinturão em jogo e um público brasileiro faminto por um evento de grande porte.
O grappling de Makhachev funciona como uma correnteza subterrânea: você não a vê até estar dentro dela, e quando percebe, já está sendo arrastado para o fundo. Prates sabe disso. Sua resposta não foi ignorar o perigo, mas treinar especificamente para ele — e a faixa-preta de jiu-jitsu que carrega é o argumento técnico mais concreto que ele tem para convencer o público de que aquela correnteza não o submergirá.

O quadro geral que se desenha
O contraste de estilos entre Prates e Makhachev é o mais puro que o esporte pode oferecer: o melhor striker da divisão contra o melhor grappler. Sete nocautes consecutivos de um lado; um cartel construído sobre domínio de chão e controle de distância do outro. A divisão dos meio-médios não viveu um duelo técnico tão polarizado desde os tempos de Georges St-Pierre.
Na avaliação do SportNavo, o cenário mais realista para os próximos meses coloca Prates como candidato número um ao cinturão, independentemente do que aconteça entre Makhachev e Garry. Se o russo vencer em agosto e Prates seguir sem lutar enquanto aguarda, o UFC terá a obrigação esportiva de escalar o brasileiro como próximo desafiante — sete nocautes consecutivos e a liderança do ranking não deixam outra saída. A revanche com Garry, seja pelo título ou não, permanece como o capítulo seguinte mais provável desta história, com o Brasil como palco preferencial de ambos os lados.








