— Cara, a Honda quebrou?
— Não quebrou, mas sangrou.
— E a F1 fica?

Essa troca de três frases resume o que boa parte do paddock digital estava discutindo na última semana. A Honda Motor divulgou, na última quinta-feira, o balanço referente ao ano fiscal encerrado em março de 2026: prejuízo de 423 bilhões de ienes, equivalente a aproximadamente US$ 2,68 bilhões. Não há tragédia: há contabilidade. Mas há também uma pergunta legítima sobre o futuro do projeto de propulsão que a fabricante japonesa mantém na Fórmula 1.

Os números que a Honda não via desde 1957

A Honda abriu capital na Bolsa de Tóquio em 1957. De lá para cá, atravessou crises do petróleo, recessões globais, terremotos e pandemias sem jamais registrar um resultado anual negativo. O balanço divulgado agora quebra essa sequência de quase sete décadas. A empresa já havia sinalizado o rombo em março, quando revisou suas projeções, mas a confirmação oficial veio com o peso dos números definitivos. O relatório aponta que fatores como a desvalorização cambial, a guerra tarifária global e a queda nas vendas de veículos nos Estados Unidos contribuíram para o resultado.

Os números que a Honda não via desde 1957 Prejuízo histórico da Honda pode mudar
Os números que a Honda não via desde 1957 Prejuízo histórico da Honda pode mudar

O que a Honda fornece para a F1 hoje

A relação da Honda com a Fórmula 1 na temporada 2025/2026 é estrutural, não periférica. A fabricante fornece unidades de potência para a Aston Martin, dentro de uma parceria que ganhou peso simbólico com a chegada de Adrian Newey à equipe britânica. O motor Honda opera sob o novo regulamento de power units de 2026, que eleva a participação elétrica para cerca de 50% da potência total — tecnologia cara, demorada e que exige investimento contínuo em simulação, banco de testes e desenvolvimento de software de controle de energia.

Segundo fontes ouvidas pelo Motorsport.com, a Honda ainda não comunicou qualquer revisão formal de orçamento para o programa de F1. A fabricante, por sua vez, não emitiu declaração pública específica sobre o impacto do prejuízo no projeto da categoria. O silêncio institucional, nesse contexto, é dado tanto quanto qualquer comunicado.

O que a Honda fornece para a F1 hoje Prejuízo histórico da Honda pode mudar t
O que a Honda fornece para a F1 hoje Prejuízo histórico da Honda pode mudar t

O que está em jogo tecnicamente

  • Desenvolvimento do MGU-K e MGU-H — os motores geradores que convertem energia cinética e térmica em eletricidade, com custo de engenharia altíssimo
  • Banco de testes em Sakura — infraestrutura que a Honda reativou para o retorno à F1 e que opera com centenas de engenheiros dedicados
  • Contrato de fornecimento com a Aston Martin — vínculo que, dependendo das cláusulas, pode ser difícil de romper no curto prazo sem penalidades

Três cenários possíveis, lidos pelos números

O prejuízo de US$ 2,68 bilhões não decreta o fim do programa de F1 — a Honda tem reservas e um histórico de comprometimento de longo prazo com a categoria. O que ele faz é pressionar internamente o debate sobre prioridades de capital. O primeiro cenário, e o mais provável dado o estágio avançado do desenvolvimento, é continuidade com corte de custos operacionais: menos pessoal em pista, menos atualizações de motor ao longo da temporada, otimização de recursos. O segundo é uma renegociação do escopo da parceria com a Aston Martin, transferindo mais responsabilidade de integração para a equipe. O terceiro — e mais distante — seria uma saída antecipada, que exigiria negociações contratuais complexas e danos reputacionais consideráveis para uma marca que voltou à F1 justamente para reconstruir prestígio tecnológico.

O próximo sinal concreto virá nas próximas semanas: a Honda tem prevista uma reunião de diretoria para revisão estratégica de portfólio de investimentos, cujos resultados devem ser divulgados antes do GP do Canadá, em junho de 2026. Se o programa de F1 aparecer — ou não aparecer — como linha protegida nesse documento, o paddock terá sua resposta.