Não, a suspensão de Gianluca Prestianni não é um detalhe burocrático que a comissão técnica argentina pode simplesmente ignorar — ela é uma bomba de efeito retardado instalada no planejamento de Lionel Scaloni para a Copa do Mundo. A FIFA confirmou nesta quarta-feira, 6 de maio, que a punição de três jogos imposta pela UEFA ao meia do Benfica por conduta homofóbica será integralmente estendida às competições organizadas pela entidade, o que coloca o jogador na berlinda antes mesmo de ser convocado.
O que Prestianni fez e por que a UEFA agiu
O episódio que originou a sanção aconteceu em fevereiro de 2026, durante o segundo tempo do confronto entre Benfica e Real Madrid, válido pelo playoff de acesso às oitavas de final da Champions League. Após Vinícius Júnior marcar um gol e dançar próximo à bandeirinha de escanteio, provocando reação hostil das arquibancadas, o árbitro francês François Letexier chegou a aplicar cartão amarelo no brasileiro pela comemoração. O que veio a seguir, porém, foi mais grave: Vini Jr. denunciou ao árbitro que Prestianni tampou a boca com a camisa para lhe xingar com termos homofóbicos. A partida ficou paralisada por cerca de dez minutos enquanto Letexier acionava o protocolo antidiscriminação da UEFA. Mbappé e Tchouaméni foram os primeiros a apoiar Vini Jr. em campo, e o Real Madrid enviou à UEFA um dossiê documentando o episódio em detalhes. O resultado: três jogos de suspensão imediata em torneios europeus, mais três adicionais — em aberto pelos próximos dois anos — caso o jogador reincida.
"O Real Madrid enviou à UEFA um dossiê comprovando que Vini foi vítima de racismo", segundo relato detalhado na súmula da partida, conforme apuração do SportNavo.
Prestianni já cumpriu um jogo — e os dois restantes podem ser na Copa
Até agora, o meia argentino cumpriu apenas uma das três partidas de suspensão, justamente no jogo de volta contra o Real Madrid. Restam dois jogos a serem cumpridos. Se Scaloni optar por convocá-lo para o Mundial, o jogador terá que cumprir essas duas partidas na fase de grupos — o que, dependendo do calendário do grupo da Argentina, pode significar ficar fora dos dois primeiros jogos da competição. Seria, para usar uma hipérbole que os próprios argentinos provavelmente achariam graça, quase como escalar Messi e mandá-lo assistir da tribuna nos dois primeiros jogos — só que sem o talento histórico para justificar o sacrifício.
Caso Prestianni não seja convocado, a suspensão será cumprida nas próximas partidas europeias do Benfica, seja na Liga Europa ou na próxima edição da Champions League. A decisão, portanto, recai sobre Scaloni: convocá-lo implica em abrir mão de um titular em potencial nos jogos inaugurais do torneio; deixá-lo de fora resolve o problema imediato, mas priva a seleção de um jogador em ascensão.
A Argentina está no Grupo A do Mundial, e seus primeiros compromissos na fase de grupos acontecem entre junho e julho de 2026. O regulamento da FIFA não prevê exceções para suspensões transferidas de outras confederações — a punição é automática e não pode ser suspensa por recurso durante o torneio.
O peso de uma escolha que vai além do futebol
Convocar Prestianni sabendo que ele cumprirá dois jogos de suspensão por homofobia dentro da Copa do Mundo não é apenas uma decisão tática — é uma declaração de valores. A FIFA, que nos últimos anos tem endurecido o discurso sobre inclusão e diversidade, dificilmente ficará indiferente ao cenário em que um jogador punido por conduta homofóbica atua no mesmo torneio onde a entidade promove campanhas contra discriminação. O regulamento foi claro ao estender a punição, e qualquer tentativa de minimizar o episódio soará contraditória diante dos números que a própria FIFA divulga: desde 2016, a entidade já aplicou mais de 180 sanções relacionadas a discriminação em competições oficiais.
Será que Scaloni está disposto a carregar esse peso político, além do tático?

A resposta virá com a convocação oficial, prevista para as semanas que antecedem o início do Mundial. Se o nome de Prestianni aparecer na lista, o técnico argentino precisará comunicar publicamente como pretende compensar a ausência do meia nos primeiros jogos — e o que isso significa para o esquema que vinha sendo construído ao longo das Eliminatórias Sul-Americanas. A Argentina estreia na Copa do Mundo de 2026 em solo norte-americano, e os rivais do grupo já monitoram cada movimento da atual campeã mundial.









