Não, Pri Daroit não é apenas a jogadora mais longeva do ciclo vitorioso do Minas Tênis Clube. Ela é o ponto de convergência entre duas eras distintas do vôlei de clubes brasileiro — a era pré-dominância e o período em que o clube da Rua da Bahia se tornou referência continental. Entender a trajetória dela é entender como o vôlei feminino brasileiro constrói suas dinastias, da mesma forma que a Itália fez com o Conegliano na Europa ou o Vakifbank fez com a geração Guidetti na Turquia.

O diagnóstico do momento

A final da Superliga Feminina 2025/26, marcada para este domingo (3 de maio), às 10h, no Ginásio do Ibirapuera, em São Paulo, é pela sexta vez em sete anos um duelo entre Minas e Praia Clube. O Minas chegou à decisão com 18 vitórias e quatro derrotas na fase classificatória, terminando em segundo lugar com 54 pontos — um a menos que o Sesc RJ Flamengo. O Praia Clube avançou em quarto, com 16 vitórias, seis derrotas e 47 pontos. São números que traduzem equilíbrio real, não midiático. Para a torcida minastenista, porém, o placar final carrega um peso adicional: será o último jogo de Priscila Daroit com a camisa do clube.

Aos 37 anos — caminhando para os 38 —, a ponteira gaúcha encerra uma relação construída em duas etapas distintas: a primeira passagem, de 2006 a 2010, quando chegou aos 18 anos ainda em formação; e o retorno em 2016, que se estendeu por temporadas até 2018, seguido de uma volta definitiva em 2020 que durou seis temporadas consecutivas. Ao todo, 11 anos somados com a camisa verde e branca, 13 títulos conquistados e uma coleção de prêmios individuais que poucas ponteiras do circuito nacional acumularam.

"Com certeza foi a primeira vez que eu fui campeã da Superliga, em 2020/21. Foi uma temporada muito especial para mim", disse Daroit ao ser questionada sobre a memória mais marcante da carreira no clube.

Os fatores que explicam o quadro

A trajetória de Pri Daroit no Minas não é linear — é cíclica, o que a torna ainda mais relevante do ponto de vista institucional. No vôlei europeu de clubes, atletas que constroem duas ou três passagens pelo mesmo time e mantêm nível de excelência são raras: Tijana Boskovic, por exemplo, nunca deixou o Vakifbank por mais de uma janela de transferência. No Brasil, o mercado é mais fluido, o que torna a fidelidade de Daroit ao projeto minastenista um dado estrutural, não sentimental.

Os prêmios individuais confirmam que a permanência não foi por falta de opções. Daroit foi eleita duas vezes melhor ponteira do Sul-Americano de Clubes, uma vez melhor sacadora da mesma competição e recebeu o prêmio de melhor recepção no Mundial de Clubes de 2021/22 — competição onde o Minas representou o Brasil entre as melhores equipes do planeta. A Superliga 2020/21 lhe rendeu ainda o troféu de melhor ponteira da temporada. Em termos de ranking FIVB de clubes, o Minas desse período figurou consistentemente entre os dez melhores do mundo, e Daroit foi peça central desse posicionamento.

Conforme levantamento do SportNavo, nenhuma outra jogadora de linha do elenco atual do Minas acumula tanto tempo de clube quanto Daroit — o que reforça o caráter de transição geracional desta final. A ponteira foi explícita sobre o momento:

"A gente sente quando alguns ciclos vão se encerrar. Você começa a se conhecer mais, a entender mais as coisas. Também tem que abrir espaço para outras pessoas virem e construírem uma história onde você já construiu a sua", afirmou.

Esse raciocínio de ciclos — muito comum no esporte de alto rendimento europeu, onde técnicos como Daniele Santarelli no Conegliano gerenciam ativamente a transição entre gerações — ainda é raro no discurso público de atletas brasileiras. Daroit o verbalizou com clareza cirúrgica.

Os cenários possíveis daqui

O Minas entra na final como segundo colocado da fase regular, mas com histórico de cinco títulos da Superliga Feminina na última década — número que coloca o clube na mesma prateleira de consistência que o Osasco teve nos anos 2000 e o Sada Cruzeiro masculino construiu na Superliga masculina. O Praia Clube, de Uberlândia, chega depois de eliminar o Sesc RJ Flamengo numa semifinal de três jogos disputada no Maracanãzinho, onde virou um tie-break de 14 a 10 para 16 a 14 no segundo confronto antes de fechar a vaga no terceiro duelo. Resistência emocional não falta ao aurinegro.

Para o Minas, vencer este domingo significa encerrar a temporada 2025/26 com o título mais importante do calendário doméstico — e dar a Daroit a despedida que seu currículo exige. Para o Praia Clube, significa interromper a sequência minastenista num clássico que já se tornou o maior rivalidade do vôlei de clubes feminino do país, comparável ao duelo Conegliano x Scandicci na Itália em termos de regularidade e nível técnico.

A análise do SportNavo aponta que o legado de Daroit vai além dos títulos: ela é a prova de que o modelo de clube-formador do Minas Tênis Clube — que recebeu uma atleta de 18 anos de Garibaldi (RS) e a devolveu ao circuito como referência mundial de recepção — funciona como política de longo prazo, não como acidente isolado.

"Eu cheguei no Minas muito nova, com 18 anos, e hoje estou saindo do clube com 37 para 38. Eu fico muito feliz da minha evolução como atleta e como pessoa mesmo. Entrei uma adolescente no clube e estou saindo uma mulher muito realizada", disse a ponteira.

No domingo, às 10h, quando a bola subir no Ibirapuera, Pri Daroit vai a quadra pela última vez com a faixa do Minas no peito. Treze títulos guardados na memória, o ginásio lotado em São Paulo — e uma gaúcha de 37 anos que chegou adolescente a Belo Horizonte olhando para a rede como se ainda tivesse tudo pela frente.