O silêncio tomou conta do vestiário do Porãbask na noite de sexta-feira (17), dois minutos antes da final dos Jogos Escolares Brasileiros (JEBs) Sub-18, em Brasília. Os jovens atletas de Ponta Porã (MS) acabavam de receber a notícia do falecimento de Oscar Schmidt, aos 68 anos, vítima de parada cardiorrespiratória. Para aqueles garotos da periferia, o Mão Santa não era apenas um ídolo distante – era o homem que transformou um terrão improvisado em sonho realizado.

A conexão entre os meninos do interior sul-mato-grossense e o maior cestinha da história olímpica vai muito além da admiração. Em 2007, Schmidt conheceu pessoalmente o projeto social criado pelo treinador Hugo Costa, de 59 anos, então chamado de "Meninos do Terrão" por funcionar em uma quadra improvisada no Jardim Irene, periferia de Ponta Porã. O que começou como um encontro casual se transformou em uma parceria de 19 anos que culminaria simbolicamente com o título nacional conquistado horas após a despedida do mentor.

Do terrão ao ginásio com nome de ídolo

Costa criou o projeto em 2004 com recursos próprios e uma estrutura precária. Três anos depois, quando Schmidt fez palestras na cidade fronteiriça, o cenário começou a mudar definitivamente. O ex-jogador do Palmeiras, que iniciou sua carreira profissional aos 17 anos no ginásio do Sírio em 1975, se identificou imediatamente com a realidade daqueles jovens da periferia.

Do terrão ao ginásio com nome de ídolo Projeto de Oscar Schmidt forma campeões
Do terrão ao ginásio com nome de ídolo Projeto de Oscar Schmidt forma campeões

A partir daquele encontro, Schmidt passou a pedir recursos para o Porãbask em todas as palestras que realizava pelo país. Conforme apuração do SportNavo, o investimento permitiu a compra de um terreno próprio e a construção de um ginásio que hoje leva o nome do Mão Santa. "A gente comprou o terreno e ele ajudou a construir o ginásio. Inclusive, o ginásio leva o nome dele", revelou Costa em entrevista após a conquista.

"Muita gente pensa que basquete não seria para pobre. Nem para periferia. O Oscar ensinou para a gente que é possível fazer basquete em qualquer lugar", declarou o treinador Hugo Costa.

O método de trabalho social implementado por Schmidt em Ponta Porã seguia a mesma filosofia que o tornou referência mundial: persistência e dedicação técnica. Durante 19 anos, o projeto disputou mais de 20 competições escolares, sempre chegando perto do título, mas sem conseguir a conquista máxima. A vitória por 74 a 63 sobre a equipe paulista na final de 2025 representou não apenas o primeiro título nacional, mas a materialização de quase duas décadas de investimento social.

Legado além das quadras profissionais

Schmidt, que acumulou 49.973 pontos na carreira e conquistou o título brasileiro pelo Palmeiras em 1977, deixou um legado que transcende os recordes individuais. O projeto Porãbask formou mais de 300 jovens desde sua criação, muitos dos quais conseguiram bolsas de estudo universitárias através do basquete. A metodologia social aplicada em Ponta Porã serviu de modelo para outros projetos similares em cidades do interior brasileiro.

O impacto financeiro também foi significativo. Segundo levantamento do SportNavo, o ginásio Oscar Schmidt custou aproximadamente R$ 800 mil entre 2007 e 2009, recursos viabilizados através de parcerias público-privadas articuladas pelo próprio ex-jogador. O espaço conta com arquibancada para 1.200 pessoas e se tornou referência regional para competições de base.

"Nós disputamos mais de 20 jogos escolares. Sempre chegamos perto. Foi a primeira vez que fomos campeões. Que seja uma homenagem a ele", declarou Costa, visivelmente emocionado após a conquista.

Simbolismo de uma despedida vitoriosa

A coincidência temporal entre o falecimento de Schmidt e a conquista do primeiro título nacional pelos meninos do Porãbask carrega um simbolismo que não passou despercebido pelos presentes em Brasília. O ex-astro da NBA Pau Gasol, que defendeu o Los Angeles Lakers por 18 temporadas, chegou a usar uma postagem do Palmeiras nas redes sociais para se despedir do brasileiro, demonstrando o reconhecimento internacional do legado de Schmidt.

Costa, que se tornou amigo pessoal de Schmidt após aquele primeiro encontro em 2007, destacou a obstinação como principal ensinamento deixado pelo ídolo. "Oscar, segundo o treinador, deixou a ele o aprendizado de ser obstinado para chegar ao objetivo", método que se provou eficaz após 19 anos de trabalho contínuo na formação de atletas da periferia.

Legado além das quadras profissionais Projeto de Oscar Schmidt forma campeões
Legado além das quadras profissionais Projeto de Oscar Schmidt forma campeões

O Porãbask retorna a Ponta Porã como campeão nacional dos JEBs Sub-18, carregando não apenas a conquista inédita, mas a responsabilidade de dar continuidade ao legado social deixado por Schmidt. O projeto já tem calendário definido para 2025, com participação confirmada em competições estaduais e nacionais, mantendo viva a filosofia de que o basquete pode transformar realidades independentemente das condições socioeconômicas.