Quando Paolo Zampolli, enviado especial de Donald Trump, procurou Gianni Infantino com uma proposta inusitada, poucos imaginaram que a sugestão de substituir o Irã pela Itália na Copa do Mundo de 2026 ganharia as manchetes internacionais. O ítalo-americano de 58 anos, nascido em Milão e radicado nos Estados Unidos desde os anos 1990, argumentou que os quatro títulos mundiais da Azzurra (1934, 1938, 1982 e 2006) justificariam a inclusão da seleção italiana no torneio.

A proposta, revelada inicialmente pelo Financial Times e posteriormente confirmada pelo próprio Zampolli ao Corriere della Sera, gerou ondas de indignação na Itália. O ministro da Economia, Giancarlo Giorgetti, não poupou palavras ao classificar a iniciativa como "vergonhosa", enquanto o ministro dos Esportes, Andrea Abodi, foi categórico durante evento em Roma nesta quinta-feira.

"Não é oportuno, a classificação se conquista em campo", declarou Abodi, ecoando o sentimento de grande parte do establishment esportivo italiano.

A muralha regulamentar da FIFA

Do ponto de vista jurídico-esportivo, a proposta de Zampolli esbarra em obstáculos praticamente intransponíveis. O regulamento da FIFA para a Copa do Mundo estabelece que as 48 vagas são distribuídas através de um sistema de eliminatórias continentais rigorosamente estruturado, onde cada confederação possui cotas pré-definidas. A UEFA (Europa) tem 16 vagas, a AFC (Ásia) possui 8, incluindo a ocupada pelo Irã.

Segundo análise do SportNavo com especialistas em direito desportivo, uma eventual substituição do Irã exigiria alterações profundas no regulamento da entidade, processo que demandaria aprovação do Conselho da FIFA e ratificação pelos 211 membros da organização. Tal procedimento, além de inédito na era moderna do futebol, estabeleceria precedente perigoso para futuras manipulações políticas do esporte.

A Itália, três vezes consecutivas fora de Copas do Mundo (2018, 2022 e 2026), foi eliminada pela Bósnia e Herzegovina nos pênaltis durante a repescagem europeia. O país que dominou o cenário continental com a conquista da Eurocopa de 2021 vive crise profunda no futebol nacional, com dirigentes renunciando e instabilidade técnica generalizada.

Precedentes históricos e suas limitações

O único caso comparável na história recente ocorreu em 1992, quando a Dinamarca substituiu a Iugoslávia na Eurocopa devido às sanções das Nações Unidas impostas durante a guerra nos Bálcãs. Contudo, aquela situação envolveu um torneio continental com apenas 8 seleções, realizado a poucos dias do início, e sob circunstâncias de força maior reconhecidas internacionalmente.

A situação atual apresenta diferenças substanciais: a Copa de 2026 ainda está a meses de distância, o Irã mantém relações diplomáticas normais com a FIFA e não existem sanções esportivas internacionais contra o país persa. Luciano Buonfiglio, presidente do Comitê Olímpico da Itália, expressou o constrangimento que tal mudança causaria.

"Primeiro, não creio que seja possível. Segundo, eu me sentiria ofendido. Você tem de ir por merecimento", afirmou Buonfiglio durante pronunciamento na capital italiana.

O contexto geopolítico da proposta

A sugestão de Zampolli ganha contornos ainda mais complexos quando analisada sob a perspectiva das relações Estados Unidos-Irã. A seleção iraniana tem seus três jogos da fase de grupos programados justamente em território norte-americano: estreia contra Nova Zelândia em 15 de junho, em Los Angeles; enfrentará a Bélgica seis dias depois na mesma cidade; e fechará a primeira fase contra o Egito em 27 de junho, em Seattle.

O México já se ofereceu para sediar os jogos do Irã como alternativa aos Estados Unidos, proposta que não encontrou acolhida na FIFA. A entidade máxima do futebol mundial tem se manifestado otimista quanto à participação iraniana no Mundial, mantendo os locais definidos no sorteio dos grupos realizado em dezembro.

A figura de Zampolli adiciona camadas controversas à narrativa. Ex-marido da modelo brasileira Amanda Ungaro, deportada em outubro de 2024 após investigações envolvendo exercício ilegal da medicina, o enviado de Trump nega qualquer interferência política no caso, embora o New York Times tenha reportado possíveis conexões entre sua rede de contatos governamentais e o processo de deportação.

A realidade jurídica imutável

Independentemente das pressões políticas ou sentimentalismos esportivos, a estrutura legal da FIFA permanece clara e inflexível. O Irã conquistou sua vaga através das eliminatórias asiáticas, competição que durou dois anos e envolveu 47 seleções da AFC. Qualquer alteração pós-classificação estabeleceria precedente devastador para a credibilidade do sistema eliminatório mundial.

A muralha regulamentar da FIFA Proposta de Trump para trocar Irã por It
A muralha regulamentar da FIFA Proposta de Trump para trocar Irã por It

A Copa do Mundo de 2026 será a primeira com 48 seleções, expandindo de 32 participantes. Mesmo com o aumento de vagas, a Itália falhou em se classificar através dos mecanismos regulamentares existentes. A tetracampeã mundial terá que aguardar 2030 para uma nova oportunidade, quando o torneio será disputado em Espanha, Portugal, Marrocos, Argentina, Paraguai e Uruguai, marcando o centenário da primeira Copa realizada em solo uruguaio.