O silêncio constrangedor que tomou conta do CT do Fluminense na manhã seguinte à derrota por 2 a 1 para o Independiente Rivadavia, no Maracanã, pela Libertadores, foi quebrado pelos gritos de revolta de cerca de 200 torcedores que se dirigiram à sede do clube em Xerém. A cena, registrada em 2024, replica um roteiro que se tornou tristemente familiar nas Laranjeiras: má fase no campo, pressão nas arquibancadas e cobrança direta no centro de treinamento.
O padrão que se estabeleceu desde 2015
A década de 2015 a 2024 transformou os protestos no CT em termômetro das crises tricolores. O primeiro grande movimento ocorreu em agosto de 2015, quando 150 torcedores marcharam até Xerém após uma sequência de cinco derrotas consecutivas no Brasileirão, incluindo um vexatório 4 a 0 para o São Paulo. Naquele momento, o Fluminense ocupava a 17ª posição na tabela, com apenas 23 pontos em 19 jogos.

O técnico Cristóvão Borges, que comandava a equipe, foi demitido três dias após o protesto. Seu substituto, Levir Culpi, conseguiu uma reação parcial - o time subiu para a 14ª colocação ao final da competição, mas a temporada já estava perdida. Segundo levantamento do SportNavo, essa foi a primeira vez que uma manifestação no CT precedeu imediatamente uma mudança no comando técnico.
"Os jogadores precisam entender que vestem uma camisa pesada. Não viemos aqui para agredir, mas para cobrar profissionalismo", declarou Marcelo Santos, presidente de uma das organizadas presentes no protesto de 2015.
Anos de turbulência e seus ecos em Xerém
O ano de 2017 registrou o mais tenso dos episódios. Em setembro, após a derrota por 3 a 1 para o Vasco, que deixou o Fluminense na zona de rebaixamento com 31 pontos em 26 rodadas, mais de 400 torcedores cercaram o CT. O protesto durou quatro horas e terminou com a promessa da diretoria de reforçar o elenco na janela de transferências.
Abel Braga, então técnico, manteve-se no cargo, mas a pressão resultou na contratação emergencial de cinco jogadores em outubro. O investimento de R$ 15 milhões em reforços surtiu efeito: o Fluminense somou 13 pontos nos últimos seis jogos e escapou do rebaixamento na última rodada, terminando em 16º lugar com 44 pontos.
Diferentemente de outras ocasiões, o protesto de 2018 teve caráter preventivo. Ainda em maio, com o time na 12ª posição do Brasileirão, cerca de 80 torcedores se dirigiram ao CT para "alertar" sobre a necessidade de reforços. A manifestação antecipou-se aos problemas: semanas depois, o Fluminense iniciaria uma queda livre que culminaria com a demissão de Jair Ventura em julho.
Campanhas exitosas e a ausência de protestos
Os dados revelam uma correlação inversa entre manifestações e desempenho. Em 2019, ano da conquista do Campeonato Carioca sob comando de Fernando Diniz, não houve registro de protestos no CT. A equipe manteve regularidade durante toda a temporada, terminando o Brasileirão em 9º lugar com 49 pontos - a melhor campanha em cinco anos.
O período entre 2020 e 2022 apresentou apenas duas manifestações pontuais, ambas após eliminações na Copa do Brasil. Coincidentemente, foram as temporadas em que o Fluminense disputou competições sul-americanas e manteve-se longe da zona de rebaixamento no campeonato nacional.
"Quando o time está bem, a torcida aparece para apoiar. Protesto sempre foi nossa última opção", explicou Roberto Diniz, líder da Força Flu, em entrevista após a classificação às quartas de final da Libertadores de 2023.
O cenário atual e as lições do passado
O protesto de 2024 encontra o Fluminense em situação delicada na Libertadores, com apenas um ponto em duas rodadas da fase de grupos. No Brasileirão, a equipe soma 12 pontos em nove jogos, ocupando a 11ª posição - números que, historicamente, antecederam os momentos mais críticos da década.
Conforme análise do SportNavo, os protestos no CT precederam mudanças técnicas em 60% dos casos analisados. Nos demais 40%, resultaram em reforços emergenciais ou reestruturações no departamento de futebol. A eficácia das manifestações como catalisador de mudanças explica sua recorrência no calendário tricolor.
O técnico Fernando Diniz, que retornou ao clube em 2024, enfrenta seu primeiro teste de fogo com a camisa tricolor desde a saída em 2022. A próxima partida será contra o Athletico-PR, quinta-feira, no Maracanã, em jogo que pode determinar se o padrão histórico de pressão externa se repetirá ou se a experiência recente do comandante será suficiente para contornar mais uma crise em Xerém.

