Um grito de "pega essa crioula" vindo das arquibancadas do Estádio Dutrinha, em Cuiabá, no último domingo (26), interrompeu o que seria uma tarde de celebração para a atacante Keké. A jogadora do Fluminense completava seu 50º jogo com a camisa tricolor na vitória por 2 a 0 sobre o Mixto, pela 8ª rodada do Brasileirão Feminino, quando foi alvo de ofensas racistas e homofóbicas proferidas por um torcedor nas arquibancadas. A árbitra Adriana Costa Farias acionou o protocolo antirracista previsto pelo regulamento da competição, e o responsável foi identificado pela Polícia e conduzido à delegacia ainda durante a partida.

O que é o protocolo e como ele funciona em campo

O protocolo antirracista no futebol brasileiro é um conjunto de procedimentos que autoriza a árbitro a interromper a partida em caso de ofensas de natureza racial ou discriminatória identificadas dentro do estádio. Regulamentado pela CBF em alinhamento com as diretrizes da FIFA — que implementou o mecanismo globalmente a partir de 2019 —, o protocolo prevê três etapas: advertência pelo sistema de som do estádio, suspensão temporária do jogo e, em último caso, abandono definitivo da partida. No caso de Cuiabá, a primeira e a segunda etapa foram suficientes para que as autoridades policiais presentes no local pudessem agir.

A iniciativa das atletas do Fluminense de levar a reclamação formalmente à árbitra foi determinante para que o mecanismo fosse ativado. Adriana Costa Farias, ao ser comunicada das ofensas pelas jogadoras, seguiu o rito estabelecido e paralisou a partida, garantindo que o caso não passasse em silêncio. A cooperação entre equipe de arbitragem e segurança do estádio permitiu a identificação rápida do torcedor.

Keké fala sobre a dor do racismo

A atacante não se calou. Nas redes sociais, Keké descreveu o teor da ofensa e deixou claro que a situação não seria naturalizada. Com a marcação dos 50 jogos pelo Fluminense transformada em cenário de humilhação racial, ela escreveu:

"Quem já passou por isso sabe o quanto é doloroso, mas seguirei firme e sempre lutando por essa causa que é de todos nós! Espero que as autoridades tomem as devidas providências sobre esse ocorrido, é muito triste ainda ter que lidar com esse tipo de coisa nos dias atuais, enquanto eu estava apenas fazendo o meu trabalho que é o que eu mais amo."

O depoimento de Keké ecoa uma ferida histórica do futebol brasileiro. Nos anos 1990, episódios semelhantes envolvendo jogadores como Grafite e Arouca raramente chegavam a qualquer instância formal de punição. A virada institucional começou timidamente com a criação da Lei 9.615 e foi ganhando corpo somente com pressões internas e externas ao longo dos anos 2000 e 2010. O caso desta 8ª rodada mostra que, ao menos no rito imediato, houve avanço concreto.

Clubes repudiam e o caso chega à delegacia

Tanto o Fluminense quanto o Mixto se manifestaram formalmente contra o ato. O clube carioca divulgou nota em que reforçou sua responsabilidade com a proteção das atletas:

"O Fluminense presta solidariedade e apoio à atleta, reforçando sua responsabilidade com a proteção e o respeito de todas as suas jogadoras. O clube seguirá atento aos desdobramentos do caso e espera que o responsável pelas ofensas seja devidamente punido, nos termos da lei."

O Mixto, clube da casa, também emitiu repúdio público ao comportamento do torcedor identificado. A condução do homem à delegacia no local do jogo é um dos desdobramentos mais simbólicos do episódio — e denota que a articulação entre arbitragem, segurança pública e legislação antirracismo (Lei 7.716/1989, que tipifica o crime inafiançável de injúria racial) pode funcionar quando acionada corretamente. Segundo apuração do SportNavo, o inquérito foi aberto e o caso segue em investigação pela Polícia Civil do Mato Grosso.

O desafio que permanece além do protocolo

A ativação do protocolo é um passo, não uma solução. Levantamento do SportNavo com base nos registros da CBF mostra que, desde a regulamentação formal do mecanismo no futebol feminino nacional, este é um dos primeiros casos documentados em que todas as etapas — acionamento pela árbitro, intervenção policial e condução do autor à delegacia — foram cumpridas dentro de uma mesma partida. O futebol masculino ainda acumula situações em que o protocolo foi ativado de forma parcial ou ignorado por completo, como ocorreu em ao menos três episódios entre 2021 e 2023 registrados pelo Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

A consistência na aplicação da lei é o nó central do debate. No plano internacional, a Serie A italiana e a Premier League inglesa enfrentam críticas recorrentes por não sustentarem punições efetivas mesmo após acionamentos de protocolo. No Brasil, o futebol feminino acaba de dar um exemplo de cadeia funcional — da denúncia à delegacia — que o futebol masculino ainda precisa replicar com regularidade.

O que é o protocolo e como ele funciona em campo Protocolo antirracista é ativad
O que é o protocolo e como ele funciona em campo Protocolo antirracista é ativad

O Fluminense retorna ao Brasileirão Feminino na 9ª rodada, com data e adversário a serem confirmados pela CBF. O torcedor identificado em Cuiabá responde ao inquérito aberto pela Polícia Civil do Mato Grosso, e a CBF pode ainda instaurar processo disciplinar autônomo com base no Código Brasileiro de Justiça Desportiva, o que prevê penas que vão de multa a proibição de acesso a estádios por até três anos.