O jogo parou. Não por lesão, não por discussão entre jogadoras — o apito da árbitra Adriana Costa Farias cortou o primeiro tempo de Fluminense x Mixto, no Estádio Dutrinha, em Cuiabá, neste domingo (26), pela oitava rodada do Brasileirão Feminino, depois que a atacante Keké foi alvo de ofensas racistas e homofóbicas vindas das arquibancadas. Era o protocolo antirracista sendo acionado — e, desta vez, em tempo real e com consequências concretas para o agressor.

O que aconteceu dentro das quatro linhas

As ofensas ocorreram ainda no primeiro tempo, fase em que o Fluminense já abria o placar com gol de Lelê aos três minutos. As jogadoras tricolores pararam, manifestaram-se coletivamente e pressionaram a comissão de arbitragem a agir. Adriana Costa Farias respondeu acionando formalmente o protocolo, que prevê a interrupção imediata da partida, comunicação à segurança do estádio e identificação do responsável. A polícia presente no Dutrinha localizou o torcedor e o encaminhou à delegacia ainda durante a paralisação. O jogo foi retomado e o Fluminense manteve o controle: Keké marcou o segundo gol aos 10 minutos do segundo tempo, fechando o placar em 2 a 0.

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A sequência de eventos — ofensa, manifestação das atletas, interrupção, identificação e prisão — levou menos tempo do que o intervalo de muitas partidas. Esse encadeamento rápido é exatamente o que o protocolo prevê no papel, mas raramente se vê executado com essa velocidade no futebol brasileiro, especialmente nas divisões femininas.

Como o protocolo foi executado passo a passo

O mecanismo antirracista adotado pela CBF estabelece três etapas obrigatórias quando há relato de ofensa nas arquibancadas: interrupção da partida pela arbitragem, comunicação imediata ao delegado de segurança do evento e, se o agressor for identificado, retirada compulsória do estádio e encaminhamento às autoridades. Em Cuiabá, as três etapas foram cumpridas. O SportNavo apurou que a presença de efetivo policial dentro do Dutrinha foi determinante para a agilidade da identificação — um fator que nem sempre está garantido em estádios de menor porte que recebem o Brasileirão Feminino.

O Mixto, clube mandante da partida, informou publicamente que o torcedor foi retirado do estádio assim que identificado e declarou que está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações. A nota do clube mato-grossense classificou o episódio como inaceitável e sinalizou que adotará medidas internas para prevenir novos casos — sem detalhar, até o momento, quais seriam essas medidas ou em que prazo seriam implementadas.

As notas oficiais dos clubes

O Fluminense emitiu nota repudiando o ocorrido, informou que presta apoio direto à atleta Keké e cobrou a punição do responsável conforme a legislação vigente — que enquadra injúria racial com pena de reclusão de dois a cinco anos, segundo o artigo 2º-A da Lei 7.716/1989, alterado pela Lei 14.532/2023. Nas palavras do clube carioca, a agremiação "seguirá acompanhando o caso" e reafirmou o compromisso institucional com o combate a qualquer forma de preconceito dentro e fora dos campos.

"O Mixto repudia veementemente qualquer forma de discriminação e solidariza-se com as atletas do Fluminense. O torcedor foi retirado do estádio assim que identificado e o clube está à disposição das autoridades."

O que esse caso revela sobre o futebol feminino

A análise do SportNavo sobre os registros de acionamento do protocolo antirracista no futebol feminino brasileiro mostra que este é um dos casos mais completos em termos de execução desde que o mecanismo foi formalmente adotado. Em geral, as interrupções ocorrem, mas a identificação e o encaminhamento do agressor à delegacia ainda no dia do jogo é exceção, não regra. A combinação de árbitras capacitadas, efetivo policial presente e jogadoras organizadas para manifestar-se coletivamente foi o que tornou o desfecho diferente neste domingo.

Keké, apesar da violência verbal sofrida, permaneceu em campo e marcou o gol que fechou a vitória tricolor. Com o resultado, o Fluminense chegou a 14 pontos e subiu para a sexta colocação do Brasileirão Feminino. O Mixto permanece com seis pontos, na 13ª posição. O caso agora segue seu trâmite policial em Cuiabá, e a CBF pode ainda abrir processo disciplinar contra o clube mandante com base no artigo 243-G do Código Brasileiro de Justiça Desportiva, que responsabiliza a agremiação por atos de seus torcedores no estádio — independentemente das medidas penais em curso.