O Estadi Johan Cruyff estava em silêncio por uma fração de segundo quando ela tocou na bola pela última vez em casa — aquele toque preciso, quase didático, que definiu uma geração inteira do futebol feminino europeu. Só então o estádio percebeu o que estava vendo: Alexia Putellas, 32 anos, duas vezes Bola de Ouro, disputando seu último jogo como jogadora do Barcelona no Estadi Johan Cruyff. A confirmação oficial chegou nesta terça-feira, 26 de maio: a meio-campista anunciou que não renovará o contrato com o clube catalão, que expira ao fim desta temporada da Liga F.
Os números da despedida são de enciclopédia. Na temporada 2025/26, Putellas anotou 21 gols e distribuiu 13 assistências em 42 partidas — uma participação direta em gol a cada 1,6 jogo. Mais do que isso: ela ajudou o Barcelona a conquistar a quarta Champions League Feminina da história do clube, com uma goleada de 4 a 0 sobre o Olympique Lyonnais na final disputada em Oslo no último fim de semana. O título completou o segundo quádrupla coroa do Barça em três anos, com Liga F, Copa da Rainha e Supercopa da Espanha já garantidos ao longo da temporada.

O que Putellas construiu em 14 anos no Barcelona
Alexia chegou ao clube pela primeira vez ainda na base, mas foi a partir de 2012 — após passagens por Espanyol e Levante — que sua trajetória se tornou definitiva em Camp Nou e arredores. Em 14 temporadas com a camisa catalã, acumulou 36 troféus, entre eles 10 títulos da Liga F e quatro Champions League. Com 232 gols, é a maior artilheira da história do time feminino e a segunda maior de toda a história do Barcelona, considerando equipes masculina e feminina juntas — um dado que coloca sua produção acima da de centroavantes consagrados que vestiram a mesma camisa por décadas.
A comparação intercategoria é reveladora: os 232 gols de Putellas pelo Barça feminino superam a marca combinada de todos os atacantes que o clube contratou para o setor ofensivo masculino nos últimos oito anos — excluindo Lewandowski. Para um clube que pagou mais de 100 milhões de euros em reforços ofensivos masculinos nesse período, o dado reposiciona o valor histórico da espanhola de forma inequívoca.
A própria jogadora, em declaração publicada pelo clube, reconheceu a dimensão do momento.
"Este clube me deu tudo. Aprendi aqui, cresci aqui, venci aqui. Mas sinto que chegou o momento de buscar um novo desafio."A frase — contida, sem melodrama — é coerente com o perfil de uma atleta que sempre deixou os números falarem mais alto do que as palavras.
London City, PSG e o mercado americano na disputa pela assinatura
O contrato de Putellas com o Barcelona incluía uma cláusula que permitia ao clube estender o vínculo por mais um ano — e a diretoria estava disposta a acionar essa opção. A decisão de recusar partiu exclusivamente da jogadora, que optou por um ciclo novo. A ESPN apurou que o interesse por ela é amplo: há clubes europeus, americanos e mexicanos monitorando a situação, com o London City Lionesses — clube financiado por investidores americanos e que joga na Women's Super League inglesa — e o Paris Saint-Germain como os nomes mais concretos até o momento.
O London City Lionesses — projeto ambicioso lançado em 2020 com capital do grupo de investimento Angel City — já tem como certa a chegada da defensora Mapi León, também ex-Barcelona, o que cria um núcleo espanhol atraente para Putellas. O PSG, por sua vez, tem investido de forma crescente no futebol feminino como parte de sua estratégia de expansão de marca na Europa, e a chegada de uma bicampeã da Bola de Ouro seria o maior movimento da história da seção feminina do clube parisiense.

O mercado americano representa outro vetor relevante. A NWSL vive sua fase de maior internacionalização, com franquias como o San Diego Wave e o Portland Thorns tendo histórico de contratar estrelas europeias em fim de ciclo. O México, por sua vez, tem a Liga MX Femenil como competição em ascensão — embora o nível técnico ainda seja inferior ao europeu, o apelo comercial e de patrocínio pode ser um fator de peso para uma jogadora que construiu uma marca pessoal sólida fora dos gramados.
A reestruturação do Barcelona e o que muda com a saída de Putellas
A saída de Putellas não é um caso isolado: representa o início de uma reestruturação profunda no elenco feminino do Barcelona. A defensora Ona Batlle deve se transferir para o Arsenal, enquanto Mapi León vai ao London City Lionesses. A veterana Marta Torrejón — peça histórica do clube — também deve encerrar seu contrato. As pontas Caroline Graham Hansen e Salma Paralluelo ainda não têm renovação encaminhada.
A perda simultânea de cinco ou mais jogadoras titulares representa um desafio de reconstrução que o Barcelona não enfrentava desde o início dos anos 2010. A ironia é que foi exatamente naquele período que Putellas retornou ao clube e ajudou a construir a era de dominância que agora se encerra com ela. A despedida da capitã — nomeada pela segunda vez na carreira como Jogadora da Temporada da Champions League Feminina após a final em Oslo — fecha um ciclo que transformou o futebol feminino europeu em espetáculo de massa.
O último jogo de Putellas com a camisa do Barcelona será na rodada da Liga F contra o Madrid CFF, fora de casa. A partida contra a Real Sociedad no Estadi Johan Cruyff, na quarta-feira, 27 de maio, já foi disputada e marcou o encerramento de sua história como jogadora da casa. O mercado de transferências feminino abre oficialmente em julho, e a expectativa é que o destino de Putellas seja anunciado antes do início da pré-temporada europeia, em agosto.










