Não, a guerra na Ucrânia não está 'chegando ao fim' porque Vladimir Putin assim declarou num discurso de fim de semana. A frase do presidente russo, proferida durante as comemorações da vitória soviética sobre a Alemanha nazista em 9 de maio, esconde uma aritmética brutal: enquanto Moscou fala em paz, mais de 100 drones russos cruzaram o céu ucraniano nesta quarta-feira, 13, mirando infraestrutura ferroviária em Dnipro, instalações de energia em Poltava e áreas portuárias em Odessa. A pergunta real não é se a guerra vai acabar — é se as condições impostas pelo Kremlin têm alguma chance de ser aceitas.

O que Moscou exige antes de qualquer negociação

O porta-voz do Kremlin, Dmitri Peskov, foi direto ao ponto nesta quarta-feira: para que haja cessar-fogo e abertura para negociações genuínas, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky "deve ordenar que o exército ucraniano cesse o fogo e se retire do território do Donbass, abandone as regiões controladas pela Rússia". A exigência não é nova, mas foi reiterada com força justamente quando o mundo esperava algum sinal de abertura após a declaração de Putin.

Verona - Como
"As Forças Armadas da Ucrânia devem deixar o Donbass; elas devem se retirar. Esta é uma condição muito importante. Sem uma solução para a questão territorial, não faz sentido esperar pela conclusão de um acordo de longo prazo", afirmou Peskov.

A Rússia ocupa atualmente um quinto do território ucraniano: a Península da Crimeia, anexada em 2014, a maior parte do Donbass — formado por Donetsk e Luhansk —, além de grandes porções de Zaporizhzhia e Kherson. Moscou reivindica essas cinco regiões como russas, após referendos realizados às pressas e considerados ilegítimos pela maior parte da comunidade internacional.

Zelensky entre ataques e a mesa de Abu Dhabi

Do outro lado, Zelensky não tem margem política para aceitar a demanda russa. Ceder o Donbass, nas palavras do próprio presidente ucraniano, seria equivalente a uma rendição. Ainda assim, ele reconheceu publicamente que a questão territorial é o principal nó do conflito e confirmou que o tema estaria na pauta das negociações trilaterais em Abu Dhabi, envolvendo representantes russos, ucranianos e americanos.

Enquanto isso, os ataques não param.

"A Rússia continua seus ataques e faz isso de forma descarada — mirando deliberadamente nossa infraestrutura ferroviária e locais civis em nossas cidades", escreveu Zelensky no X nesta quarta-feira, acrescentando que 14 regiões foram alvo de bombardeios na terça-feira, 12, deixando pelo menos oito mortos.

A trégua de três dias anunciada pelo presidente americano Donald Trump, que vigorou entre 9 e 11 de maio para marcar as comemorações russas da vitória na Segunda Guerra Mundial, expirou à meia-noite de terça-feira. Rússia e Ucrânia se acusaram mutuamente de tê-la violado antes mesmo do prazo.

A mesa de decisão e os obstáculos concretos

As negociações mediadas pelos EUA estão paralisadas desde o início do conflito no Oriente Médio, em fevereiro. O último contato direto entre as delegações russa e ucraniana ocorreu em julho de 2025, em Istambul, e resultou apenas num acordo de troca de prisioneiros e corpos de soldados — sem avanços territoriais. Em Abu Dhabi, a Rússia seria representada pelo general Igor Kostiukov, chefe do serviço de inteligência militar (GRU), enquanto a Ucrânia levaria o secretário do Conselho de Segurança, Rustem Umerov, e o chefe do Estado-Maior, general Andrii Hnatov, entre outros.

Na avaliação do SportNavo, o impasse não é apenas diplomático — é geográfico e simbólico. Donetsk segue como epicentro dos combates desde a invasão de fevereiro de 2022, e qualquer mapa de retirada ucraniana implicaria abrir mão de territórios que Kiev nunca reconheceu como russos. Trump afirmou na terça-feira que acredita que um acordo está "muito próximo", mas não apresentou nenhum mecanismo concreto para superar a exigência territorial russa.

As próximas rodadas de negociação em Abu Dhabi estão marcadas para esta sexta e sábado. Se o Kremlin mantiver a retirada do Donbass como pré-condição absoluta — e tudo indica que sim —, o que Trump e Putin chamarão de 'fim da guerra' será, na prática, uma rendição territorial que Zelensky já disse que não vai assinar. Diante desse quadro: se a Ucrânia recusar formalmente a demanda russa em Abu Dhabi, os EUA cortarão o apoio militar a Kiev ou dobrarão a pressão sobre Moscou?