'Quatro derrotas consecutivas em casa é um número que nenhum clube de Londres deveria aceitar.' A frase resume o estado de crise estrutural do Chelsea ao entrar na penúltima rodada da Premier League 2025/26 — mas o paradoxo é que o adversário desta terça-feira (19/05), às 16h15 (horário de Brasília), chega a Stamford Bridge com ainda mais pressão existencial.
O Chelsea que não se reconhece no próprio estádio
Uma vitória nos últimos cinco jogos. Um empate. Três derrotas. O retrospecto recente do Chelsea sob o comando interino de Calum McFarlane não é apenas uma sequência ruim — é um colapso de identidade tática. A equipe sofreu gols em cada uma das últimas 14 rodadas da Premier League, um dado que aponta falha sistêmica na organização defensiva, não em erros individuais isolados.
A derrota por 1 a 0 para o Manchester City na rodada anterior expôs o problema central: a linha de pressão alta do Chelsea se dissolve rapidamente quando o adversário executa saídas de bola curtas, gerando espaços nas costas de Malo Gusto e Marc Cucurella. Com Reece James recuando ao lado de Levi Colwill e Jorrel Hato, a compactação no bloco médio fica comprometida — e aí vem o problema.
Cole Palmer permanece o principal criador, mas seu desempenho como pivô de transição ofensiva depende de uma estrutura ao redor que, na configuração atual, simplesmente não existe. João Pedro e Enzo Fernández precisariam oferecer mais profundidade e amplitude para liberar os corredores que Palmer sabe explorar. Os números da temporada mostram o Chelsea na 10ª colocação, distante de qualquer vaga europeia garantida — mas matematicamente ainda vivo.
De Zerbi, Richarlison e o Tottenham que sobrevive jogando fora
O Tottenham de Roberto De Zerbi chega em posição ainda mais delicada na tabela — 17º lugar, dois pontos acima da zona de rebaixamento —, mas com um dado tático que merece atenção: quatro jogos sem derrota como visitante, com duas vitórias consecutivas longe de casa. Para um time pressionado, a regularidade fora é um ativo raro.
De Zerbi deve utilizar um esquema com João Palhinha e Rodrigo Bentancur controlando o meio-campo defensivo, permitindo que Randal Kolo Muani e Mathys Tel operem nas meias-sombras entre as linhas adversárias. A função de Richarlison nesse sistema é específica: pressionar a saída de bola do Chelsea e servir como referência na transição ofensiva, fixando os zagueiros para abrir espaço para as chegadas de Conor Gallagher.
O empate por 1 a 1 contra o Leeds United na rodada passada mostrou melhora defensiva real sob De Zerbi — a equipe concedeu menos espaços no corredor central e apresentou maior disciplina posicional no bloco defensivo baixo. O SportNavo acompanhou os dados de pressão do Tottenham nas últimas cinco rodadas: o time aumentou a taxa de recuperação de bola no campo adversário em relação ao início do mandato do técnico italiano, sinalizando que o sistema está sendo assimilado.
O West Ham perdeu na rodada anterior, o que significa que uma vitória do Tottenham em Stamford Bridge pode praticamente selar a permanência na Premier League antes da última rodada.
O que os sistemas táticos revelam sobre o jogo desta terça
O confronto de sistemas é o elemento mais interessante desta partida. McFarlane provavelmente manterá Moisés Caicedo como âncora defensiva com liberdade para sair na pressão, mas a ausência de um segundo volante de marcação pura cria um corredor central vulnerável — exatamente onde Kolo Muani e Tel gostam de receber.

De Zerbi, por sua vez, tende a alternar entre blocos médio e baixo dependendo da posse adversária. Contra o Chelsea, é provável que o Tottenham utilize uma linha de pressão moderada nos 35 metros iniciais, sem arriscar o espaço nas costas de Micky van de Ven e Kevin Danso. Pedro Porro pelo lado direito e Destiny Udogie pelo esquerdo devem ser os principais vetores de amplitude ofensiva dos Spurs.
A questão central é a seguinte: o Chelsea consegue gerar posse de bola qualificada — com progressão vertical e não apenas lateral — ou vai depender de lances individuais de Palmer para criar perigo? Nos últimos cinco jogos, o time de McFarlane apresentou alta posse de bola (média acima de 55%) mas baixíssima eficiência de finalização, o que sugere criação sem profundidade real.
Para o Tottenham, a receita é mais simples e mais perigosa: defender organizado, explorar as transições rápidas com Richarlison e Tel, e capitalizar os erros defensivos que o Chelsea vem cometendo em série. Sofrer gols em 14 jogos consecutivos não é acidente — é padrão. E padrões são exploráveis.
Segundo o técnico Roberto De Zerbi, a equipe precisa manter a disciplina tática e aproveitar os espaços que o adversário oferece nas transições — uma diretriz que se encaixa perfeitamente no perfil do Chelsea atual.
Os dois clubes jogarão a última rodada na semana seguinte. Para o Chelsea, vencer esta noite e o jogo final ainda pode abrir uma janela para competições europeias secundárias, dependendo de outros resultados. Para o Tottenham, três pontos em Stamford Bridge significam praticamente a manutenção — e o encerramento de uma temporada que quase definiu o rebaixamento como destino inevitável.
'Quatro derrotas consecutivas em casa é um número que nenhum clube de Londres deveria aceitar' — mas depois desta terça-feira, um deles vai precisar aceitar muito mais do que isso.









