137 anos separam a fundação de Roland Garros da ameaça mais concreta de boicote que o torneio já recebeu em tempos recentes. Aryna Sabalenka, número 1 do ranking WTA e bicampeã do Australian Open, assinou um comunicado conjunto divulgado no início desta semana expressando descontentamento formal com a estrutura de premiação do Grand Slam francês — e foi além: afirmou publicamente que um boicote coletivo é possível caso as negociações não avancem. A declaração, feita em Roma durante os preparativos para o Internazionali BNL d'Italia, não passou despercebida nos corredores da Federação Francesa de Tênis (FFT) nem nos escritórios da WTA Tour.
A cena que Roland Garros prefere esquecer de 1973
Para entender a gravidade do momento atual, é preciso recuar até Wimbledon 1973, quando 81 jogadores do circuito masculino boicotaram o torneio britânico em solidariedade a Nikola Pilić, suspenso pela federação iugoslava após se recusar a representar o país numa Copa Davis. Foi o episódio que acelerou a criação da ATP como associação representativa dos tenistas — e provou que ameaças coletivas, quando organizadas, produzem mudanças institucionais reais. Cinquenta e três anos depois, o cenário é diferente em forma, mas semelhante em substância: jogadores insatisfeitos, organização resistente e uma janela de negociação que se fecha à medida que Paris se aproxima.
No circuito feminino, o precedente mais relevante está na batalha pela igualdade de premiação em Wimbledon e Roland Garros, travada entre 1968 e 2006. Billie Jean King liderou o boicote ao US Open de 1970 antes de o torneio igualar os prêmios — tornando-se o primeiro Grand Slam a fazê-lo. Roland Garros só equiparou homens e mulheres em 2006, 36 anos depois. Seria injusto chamar aquele período de era de resistência — mas foi uma era em escala doméstica do tênis mundial, com consequências que moldaram o esporte até hoje.
O que Sabalenka e os jogadores exigem em 2026
O comunicado assinado por Sabalenka e outros tenistas de alto ranking — incluindo nomes do circuito masculino, segundo informações circuladas em Roma — aponta especificamente para a distribuição de premiação em Roland Garros, que teria crescido em proporção menor do que os demais Grand Slams na temporada 2025/2026. O Australian Open 2026 distribuiu cerca de AUD 86 milhões no total; o US Open 2025 chegou próximo a US$ 75 milhões. Roland Garros, historicamente o Grand Slam com menor premiação proporcional entre os quatro, ainda enfrenta críticas por concentrar os maiores valores nas fases finais, deixando jogadores eliminados nas primeiras rodadas com valores que não cobrem custos operacionais de uma temporada europeia de saibro.
"Os jogadores precisam se unir e mostrar que estamos dispostos a tomar medidas concretas se a situação não mudar", declarou Sabalenka, segundo relato do UOL Esporte a partir de Roma.
A posição de Sabalenka ganha peso institucional pelo seu posto no ranking. Quando a número 1 do mundo fala, o mercado ouve — patrocinadores, emissoras e a própria organização do torneio. O mesmo princípio se aplica ao lado masculino: quando Djokovic co-fundou a PTPA (Professional Tennis Players Association) em 2020, a iniciativa foi tratada inicialmente como excentricidade; hoje, a associação representa mais de 700 tenistas e participa de negociações sobre calendário e premiação.
O que a comparação com outros esportes revela
Colocando o tênis no contexto da competição esportiva mundial, a discussão sobre premiação em Grand Slams ganha outra dimensão. No vôlei, a FIVB remunera atletas principalmente via seleções nacionais — o Brasil, com 3 ouros olímpicos masculinos (1992, 2004, 2016) e 1 feminino (2008, 2012), depende de cotas de participação e não de prize money individual. No basquete, a NBA distribui cerca de US$ 10 bilhões em receitas por temporada entre 30 franquias, mas atletas independentes em competições internacionais, como a FIBA, recebem valores proporcionalmente menores. O tênis é único: é um esporte individual de alto nível onde o atleta arca com 100% dos custos — comissão técnica, fisioterapia, logística — e recebe prize money variável conforme o Grand Slam e a fase alcançada.
Nesse contexto comparativo, a tabela de premiação por rodada torna-se central. Em Roland Garros 2025, um tenista eliminado na primeira rodada recebeu aproximadamente €65.000 — valor que, descontados viagens, equipe técnica e hotel em Paris por duas semanas, representa margem estreita para jogadores fora do top 50. No Australian Open 2026, o equivalente ficou acima de AUD 110.000. A diferença percentual entre os dois torneios, para as fases iniciais, supera 40% — e é exatamente esse desequilíbrio que o comunicado desta semana coloca na mesa.
Qual o desfecho mais provável antes de Paris
A história dos protestos no tênis sugere que boicotes completos raramente se concretizam — mas as ameaças quase sempre produzem concessões parciais. Em 1988, quando tenistas masculinos ameaçaram boicotar o Australian Open por questões de calendário, a ITF cedeu em pontos específicos sem que nenhum nome de ponta ficasse de fora de Melbourne. Em 2012, quando Djokovic e outros líderes criticaram abertamente a extensão do calendário, a ATP criou uma comissão mista que, dois anos depois, resultou em ajustes no número de torneios obrigatórios.
Quantas vezes, ao longo dos últimos 50 anos, um Grand Slam cedeu sob pressão organizada dos próprios atletas?

A resposta é: todas as vezes em que a pressão foi coletiva, documentada e veiculada por atletas no topo do ranking. O padrão histórico é consistente. O que diferencia 2026 é a velocidade da informação — um comunicado assinado em Roma em segunda-feira chega a Paris, Londres e Melbourne em minutos, mobilizando patrocinadores e emissoras antes que a FFT tenha tempo de preparar uma resposta institucional.
No cenário brasileiro, o episódio interessa diretamente. Beatriz Haddad Maia, atualmente entre as 20 primeiras do ranking WTA, e outros tenistas nacionais que competem nas fases iniciais dos Grand Slams são exatamente o perfil mais afetado pela disparidade de premiação nas primeiras rodadas. O COB e a CBT acompanham as negociações com atenção, especialmente em ano de ciclo olímpico — Los Angeles 2028 está no horizonte e a saúde financeira dos atletas impacta diretamente a preparação de longo prazo.
Roland Garros 2026 começa em 25 de maio. A FFT tem menos de três semanas para responder ao comunicado de Sabalenka e evitar que uma ameaça se torne um precedente histórico pela segunda vez em Paris.








