Diz-se que atletas que se posicionam politicamente perdem metade de seu público. Na verdade, os números históricos provam o contrário — e o caso de Kylian Mbappé em junho de 2024 é o exemplo mais eloquente da última década no futebol europeu. Quando o capitão da seleção francesa, em coletiva de imprensa na cidade alemã de Düsseldorf, classificou o avanço do Reagrupamento Nacional como "catastrófico" e convocou os jovens a votar no segundo turno das eleições legislativas, ele não perdeu prestígio — ganhou 160 atletas ao seu lado em menos de 24 horas.
A França de 2024 e o peso de uma eleição antecipada
Para entender a amplitude do gesto de Mbappé, é preciso recuar ao contexto que o presidente Emmanuel Macron criou ao dissolver o Parlamento após a derrota do seu partido, o Renascimento, nas eleições para o Parlamento Europeu. O Reagrupamento Nacional, de Marine Le Pen e Jordan Bardella, chegou ao primeiro turno das legislativas com 33% dos votos — o maior resultado da história do partido em eleições parlamentares. Era um terremoto político que lembrava, em escala, a ascensão da Frente Nacional nos anos 1980, quando Jean-Marie Le Pen surpreendeu a Europa ao chegar ao segundo turno da presidencial de 2002 com 16,9% dos votos. Só que agora, em 2024, a marcha era muito mais rápida e muito mais ampla.
Foi nesse cenário que Mbappé, em Düsseldorf, um dia antes de enfrentar Portugal pelas quartas da Eurocopa, escolheu não ficar em silêncio.
"Não podemos nos desconectar do mundo, muito menos quando se trata do nosso país. Cada voz conta e isso não deve ser negligenciado", disse o atacante, que foi ainda mais direto ao classificar os resultados do primeiro turno:
"É realmente urgente. Não podemos deixar o país nas mãos dessas pessoas. Vimos os resultados. É catastrófico."
Bardella e o argumento do milionário isolado
A resposta de Jordan Bardella, possível primeiro-ministro caso o RN conquistasse o poder, chegou rápida e calculada. O líder do partido declarou à CNews TV que sentia "um pouco de vergonha de ver esses atletas dando aulas para pessoas que não conseguem mais pagar as contas, que não se sentem mais seguras, que não têm a chance de viver em bairros superprotegidos por agentes de segurança". Era uma jogada retórica clássica da extrema-direita europeia contemporânea: transformar o porta-voz em réu, deslocar o debate do conteúdo para o endereço do emissor.
O argumento tem uma longa genealogia. Quem cobriu a Itália nos anos 1990 — como eu fiz por quase quatro anos em Milão — se lembra do modo como a Lega Nord de Umberto Bossi desqualificava atores e artistas que se manifestavam contra a xenofobia: "Falem do que vocês entendem." Em Barcelona, no período dos referendos catalães, o mesmo padrão se repetiu com jogadores do Barça que ousavam opinar. A tática não é nova; o que muda é o alcance das redes sociais para amplificar ou destruir reputações em tempo real.
Os 160 atletas e a carta que o L'Equipe publicou
O que Bardella não calculou foi a velocidade da resposta coletiva. No dia seguinte às declarações de Mbappé, 160 atletas franceses assinaram uma carta conjunta publicada no jornal L'Équipe, pedindo mobilização geral contra a extrema-direita. Entre os signatários estava o ex-tenista Yannick Noah, ícone cultural que transcende gerações. O texto evocava diretamente os valores de diversidade, tolerância e respeito — os mesmos que Mbappé citara na coletiva. O atacante Marcus Thuram, filho do zagueiro Lilian Thuram — que há décadas é uma das vozes antirracistas mais respeitadas do esporte francês —, já havia pedido antes que os franceses "lutem diariamente" contra o avanço do RN.
Mbappé, filho de imigrantes de Camarões criado no subúrbio de Bondy, a nordeste de Paris, nunca negou a origem. Em entrevista ao programa espanhol El Objetivo, ele foi categórico:
"Antes de ser um jogador de futebol, sou uma pessoa normal que fica feliz, triste, bravo e, no final, dou minha opinião com base nos meus valores. Não tenho medo de dar minha opinião."Há algo de Muhammad Ali nessa postura — não pela dimensão do sacrifício, mas pela recusa deliberada de usar a fama como escudo de neutralidade.
O atleta-cidadão e o que a história do esporte ensina
O debate sobre o silêncio político dos atletas tem raízes profundas. Nas décadas de 1980 e 1990, o modelo dominante no futebol europeu era o do craque-produto: Jorge Valdano era exceção por escrever sobre filosofia, Eric Cantona era excêntrico por citar Rimbaud. O padrão implícito era o de que os estádios deviam ser zonas de suspensão da realidade — uma espécie de trânsito da Avenida Paulista às 18h, onde cada motorista existe em sua bolha e a cidade ao redor parece outra dimensão.
Essa ilusão foi se tornando insustentável à medida que o futebol globalizou audiências e gerou fortunas que tornam o silêncio politicamente conveniente para patrocinadores, mas moralmente difícil de justificar. Mbappé ganhou, segundo estimativas de 2024, mais de 80 milhões de euros anuais entre salário e publicidade. Bardella usa esse número como argumento. Mas o mesmo raciocínio tornaria inválida qualquer opinião de quem vive bem — o que é, curiosamente, a posição de um líder político com cargo eletivo, assessores e escolta.
O segundo turno das eleições legislativas francesas aconteceu em 7 de julho de 2024, com o bloco de esquerda Nouveau Front Populaire conquistando a maior bancada na Assembleia Nacional, impedindo a maioria absoluta do RN. Bardella não assumiu a chefia de governo. Mbappé, enquanto isso, entrou em campo com a França — e o debate que ele ajudou a acender continuou muito depois do apito final.








