Quantas vezes um padrão precisa se repetir antes de ser reconhecido como estratégia calculada? Desde 2019, quando o diálogo nuclear entre Washington e Pyongyang naufragou definitivamente, cada grande exercício militar conjunto entre Coreia do Sul e Estados Unidos gerou, com precisão quase metrológica, uma resposta armada do regime de Kim Jong-un. Não é coincidência — é um ciclo documentado, com datas, trajetórias de mísseis e declarações oficiais que se repetem como um metrônomo.
O que torna o período 2025-2026 diferente de todos os anteriores não é a intensidade isolada de um único exercício. É a densidade: em menos de doze meses, a aliança EUA-Coreia do Sul empilhou o Ulchi Freedom Shield (18 a 28 de agosto de 2025, com aproximadamente 18 mil soldados sul-coreanos), o Iron Mace — terceira edição do exercício focado na integração de capacidades nucleares e convencionais, realizado no Camp Humphreys — e o Taegeuk, simulação computadorizada de três dias convocada pelo Estado-Maior Conjunto de Seul em meio a ameaças diretas de Pyongyang. Três formatos distintos, um mesmo destinatário.
O argumento da dissuasão e o que Pyongyang quer que o mundo acredite
A leitura dominante em Washington e Seul é objetiva: exercícios são instrumentos defensivos, não provocações. O general aposentado Chun In-bum, hoje pesquisador sênior do National Institute for Deterrence Studies, foi direto ao comentar o Iron Mace à DW:
"Não acho que o momento do Iron Mace seja uma resposta a qualquer evento específico, mas é um exercício há muito necessário para aprender formas eficazes de prevenir e contrariar uma possível ameaça nuclear norte-coreana."O raciocínio é estatisticamente sólido: a Coreia do Norte testou mais de 100 mísseis balísticos entre 2022 e 2025, ritmo que nenhum outro programa nuclear ativo no planeta conseguiu igualar no mesmo intervalo.
Pyongyang, no entanto, opera com uma contra-narrativa igualmente coerente do seu ponto de vista. Kim Yo-jong, irmã do líder norte-coreano e a voz mais frequente da linha dura do regime, classificou os exercícios Freedom Edge 25 — envolvendo EUA, Coreia do Sul e Japão — como "flexão muscular imprudente no lugar errado" e avisou que "definitivamente trará consequências desfavoráveis", segundo a agência estatal KCNA. Ela foi ainda mais explícita sobre o Ulchi Freedom Shield: mesmo após Seul adiar metade dos 40 exercícios de campo planejados — aparentemente como gesto de abertura diplomática — Kim Yo-jong disse que o ajuste "não merece elogios e se mostrará inútil".
Os números que tornam o padrão norte-coreano impossível de ignorar
Comparar eras aqui é revelador. Na época do Sunshine Policy sul-coreano (1998-2008), os exercícios conjuntos EUA-Coreia do Sul eram suspensos ou reduzidos como moeda de negociação diplomática. O resultado? Pyongyang testou sua primeira bomba nuclear em outubro de 2006, mesmo sem provocação militar direta de Seul. O dado sugere que a correlação entre exercícios e escalada nuclear norte-coreana é real, mas a causalidade é questionável — o programa nuclear avança independentemente do calendário de manobras aliadas.
Durante o Ulchi Freedom Shield de 2024, a Coreia do Norte realizou testes de mísseis balísticos que descreveu como simulações de "ataques nucleares incendiários" contra alvos sul-coreanos. Em maio de 2025, antes do ciclo de exercícios do verão, Pyongyang lançou o que chamou de míssil balístico tático com nova tecnologia de guiagem — a trajetória percorreu cerca de 300 quilômetros antes de cair no Mar do Leste, segundo o Estado-Maior Conjunto sul-coreano. A resposta imediata de Seul foi convocar o Taegeuk, exercício de comando de três dias focado especificamente em "provocações surpresa". É o ciclo retroalimentado em tempo real.
Há ainda um dado geopolítico que altera o equilíbrio histórico desta equação: a Coreia do Norte enviou milhares de soldados e volumes expressivos de equipamento militar para apoiar a Rússia na guerra da Ucrânia, tornando Moscou a prioridade estratégica de Pyongyang. Isso significa que Kim Jong-un opera hoje com uma retaguarda diplomática que não existia em nenhum ciclo anterior de tensão peninsular — e com acesso potencial a tecnologia bélica russa em troca.
A síntese que Seul ainda não conseguiu resolver
Como o trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira — previsível, congestionado, inevitável — a dinâmica peninsular parece travada em um equilíbrio que nenhuma das partes quer romper unilateralmente, mas que nenhuma consegue desativar. O governo do presidente Lee Jae-myung sinalizou abertura ao diálogo inter-coreano ao adiar parte dos exercícios de campo do Ulchi Freedom Shield para setembro, por razões que o Estado-Maior Conjunto atribuiu oficialmente ao calor extremo. Observadores independentes, como Hong Min, pesquisador sênior do Korea Institute for National Unification, ponderaram que a escala geral do exercício foi mantida e, portanto,
"não há nada com que a Coreia do Norte deva estar particularmente satisfeita".
A síntese honesta dos dados disponíveis aponta para uma contradição estrutural: os exercícios são militarmente necessários para manter a capacidade de dissuasão credível — o Iron Mace, especificamente, é desenhado para integrar o arsenal nuclear americano com as forças convencionais sul-coreanas, uma lacuna real na doutrina aliada — mas cada ciclo de manobras fornece a Pyongyang o pretexto político interno para justificar novos testes e novo gasto militar. Nenhuma das três edições do Iron Mace (agosto de 2024, abril de 2025 e a versão mais recente) foi seguida de avanço diplomático mensurável. O próximo grande teste do ciclo é o exercício de primavera de 2026, previsto para março, com o contexto adicional de negociações em curso sobre a transferência do controle operacional das tropas americanas para comando sul-coreano em tempo de guerra — um dossiê que Seul e Washington discutem há décadas sem conclusão.








