Confesso: eu errei sobre as tarifas de Trump em 2024. Quando o então candidato prometia elevar sobretaxas sobre produtos chineses como se fossem saques de serviço em quadra rápida — rápidos, contundentes, sem tempo de reação —, escrevi que a retórica não sobreviveria ao contato com a realidade econômica. Hoje, com a tarifa média sobre importações chinesas em 33%, vejo o porquê do meu equívoco: subestimei a disposição de Washington em aceitar o custo doméstico desse jogo.
O saque que partiu de 3% e chegou a 33%
Em 2017, a tarifa média sobre produtos vindos da China girava em torno de 3% — um número quase simbólico, como um net cord que mal interfere no rally. O governo Trump acaba de elevar esse patamar em 20 pontos percentuais adicionais, fixando a média em 33%. A escalada não aconteceu em um único movimento: foi construída ao longo de meses com a precisão de um jogador que encurta o ângulo ponto a ponto, forçando o adversário para fora da linha de base. Segundo a RFI, as medidas de Washington visam reduzir a dependência americana das importações chinesas e combater práticas econômicas de Pequim — mas o efeito colateral é um encargo que recai, com peso matemático, sobre quem compra eletrônicos, roupas e eletrodomésticos nos Estados Unidos.
A China não ficou imóvel diante do saque. Pequim respondeu com tarifas próprias sobre produtos agrícolas e madeira americanos — um backhand cruzado que cortou o ar com precisão milimétrica, mirando justamente a base eleitoral de Trump: os produtores rurais do Meio-Oeste. O chanceler chinês Wang Yi foi direto ao ponto ao declarar que os países "não podem esperar suprimir a China e, ao mesmo tempo, manter boas relações", acrescentando que Pequim "responderá com firmeza a qualquer tentativa de coerção."
O consumidor americano como árbitro involuntário da disputa
Analistas econômicos são unânimes num ponto que a narrativa protecionista prefere omitir: tarifas de importação não são pagas pelo exportador estrangeiro — são absorvidas pela cadeia de distribuição doméstica e, no final do rally, repassadas ao consumidor. Uma sobretaxa de 33% sobre um televisor fabricado em Shenzhen não encarece a vida da fábrica chinesa; encarece a vida do professor de Ohio que quer trocar o aparelho da sala. O mecanismo é tão mecânico quanto um forehand de alta velocidade: a bola sempre chega do outro lado da rede.
Esse repasse pressiona a inflação americana num momento em que o Federal Reserve ainda administra as sequelas do ciclo de alta de juros dos últimos anos. Produtos de consumo cotidiano — de cabos USB a peças de reposição automotiva — dependem estruturalmente de componentes fabricados na China, e cadeias de suprimento não se reconfiguram no tempo de um set.
A equipe do SportNavo mapeou o movimento tarifário ao longo dos últimos meses e o padrão é claro: cada novo anúncio de sobretaxa foi seguido, em média, de três a seis semanas, por reajustes de preço nos segmentos mais expostos ao comércio sino-americano.
O tabuleiro além das tarifas — rotas, energia e terras raras
A guerra comercial, contudo, é apenas o serviço de abertura de um jogo muito mais longo. Os Estados Unidos intensificaram sua presença em pontos estratégicos das rotas globais de energia — do estreito de Ormuz ao estreito de Malaca —, exercendo pressão sobre vulnerabilidades energéticas chinesas. Cerca de 90% das exportações de petróleo do Golfo Pérsico passam por Malaca antes de chegar à China, o que transforma esses corredores marítimos em break points geopolíticos de altíssimo valor.
Há ainda a dimensão das terras raras. Elon Musk, que integra a comitiva de Trump na viagem a Pequim entre 13 e 15 de maio de 2026 — a primeira visita de um presidente americano à China em quase uma década —, tem interesse declarado no neodímio, mineral processado majoritariamente pela China e indispensável para a fabricação de robôs humanoides. Em reunião com acionistas, Musk afirmou abertamente que os ímãs de neodímio são o insumo que pode transformar sua empresa na maior do mundo. Sem acesso a esse mineral, a promessa tecnológica americana perde um set inteiro antes mesmo de sacar.
"Os países não podem esperar suprimir a China e, ao mesmo tempo, manter boas relações", declarou o chanceler chinês Wang Yi, sinalizando que Pequim não aceitará pressão unilateral sem resposta proporcional.
O que Trump leva para Pequim e o que fica para trás
A agenda americana em Pequim tem cinco pontos principais, segundo o Jornal Nacional. Os dois primeiros tocam diretamente no Brasil: a reabertura do mercado chinês para a carne bovina americana — que valia quase US$ 2 bilhões antes da guerra tarifária — e a retomada das exportações de soja, setor que representa uma base eleitoral vital para Trump às vésperas das eleições para o Congresso americano em novembro de 2026. Com os frigoríficos americanos praticamente excluídos do mercado chinês, o Brasil ocupou o espaço e se tornou o maior fornecedor de carne bovina para a China — uma virada de jogo que nenhum analista previu com essa velocidade.
A comitiva inclui ainda o CEO da Boeing, com expectativa de anúncio de compra de 600 aeronaves pela China — um match point simbólico para a indústria americana. Os outros dois pontos da agenda envolvem a criação de comissões bilaterais de comércio e investimento em áreas consideradas não sensíveis, uma tentativa de manter canais de diálogo abertos mesmo com o placar de tensões em alta.
O que a visita de Trump a Pequim não resolve, ao menos no curto prazo, é o custo imediato das tarifas para o consumidor americano. Acordos comerciais levam meses para ser implementados; o reajuste de preço nas prateleiras acontece em semanas. A próxima rodada de dados de inflação ao consumidor nos Estados Unidos, prevista para divulgação em junho de 2026, dirá com precisão milimétrica o quanto essa guerra tarifária já transferiu de carga para quem simplesmente foi às compras.








