A conta começou a ser feita nos departamentos financeiros dos grandes clubes europeus assim que a Fifa confirmou o montante: US$ 355 milhões (aproximadamente R$ 1,78 bilhão na cotação atual) destinados a compensar as agremiações que cederem jogadores para a Copa do Mundo de 2026. O número é expressivo, representa quase 70% a mais do que foi distribuído no Catar, mas a aritmética final — aquela que define quanto cada clube vai efetivamente receber — só estará resolvida às vésperas de 11 de junho, data de abertura do torneio na Cidade do México.

O mecanismo de pagamento por dia de cessão e o que mudou desde o Catar

Em 2022, a Fifa adotou uma fórmula objetiva: cada dia de cessão de um jogador a uma seleção equivalia a US$ 10,9 mil (cerca de R$ 54,65 mil). Ao final do torneio, 441 clubes ao redor do mundo dividiram o bolo referente aos 837 jogadores convocados para as 32 seleções participantes. A lógica era direta — quanto mais tempo o atleta ficava à disposição da seleção, maior o repasse ao clube de origem.

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Para 2026, o princípio se mantém, mas as variáveis se multiplicaram. O Mundial desta edição terá 48 seleções e projetados 1.248 atletas convocados — um salto de 49% no número de jogadores em relação ao Catar. Isso significa que, mesmo com o fundo 70% maior, o valor por dia de cessão pode não crescer na mesma proporção: mais jogadores dividindo um bolo maior, mas não proporcionalmente maior. Para ter uma referência de escala, a diferença entre os 837 convocados de 2022 e os 1.248 esperados em 2026 é superior ao número total de atletas que disputaram as três primeiras edições da Copa do Mundo somadas — os Mundiais de 1930, 1934 e 1938 reuniram pouco mais de 600 jogadores no total.

Segundo apuração do SportNavo, a Fifa aguarda a definição completa das listas de convocados antes de calcular o denominador final da equação. Existe uma variável adicional que complica ainda mais a previsão: oficialmente, as Eliminatórias já integram o ciclo da Copa do Mundo, e os clubes que cederam atletas para os qualificatórios também têm direito a fatias do repasse — mesmo que esses jogadores não apareçam na lista final dos 26 para o torneio principal.

Por que a definição dos convocados em junho muda tudo para os clubes

A incerteza tem uma razão técnica precisa. Um jogador que disputou dez partidas das Eliminatórias mas não foi convocado para o Mundial propriamente dito já acumulou dias de cessão computáveis. Se um técnico optar por convocar atletas que não participaram de nenhum jogo classificatório — algo perfeitamente possível em seleções que já estavam classificadas cedo —, esses jogadores só entram na conta a partir de junho, aumentando o número de partes na divisão e, consequentemente, reduzindo o valor unitário por dia.

Nas palavras da própria Fifa, em comunicado sobre o programa de compensação, o objetivo é "garantir que os clubes sejam devidamente remunerados pela contribuição que fazem ao futebol mundial ao ceder seus atletas". A entidade não fixou um valor diário para 2026 exatamente porque o denominador — total de dias de cessão de todos os jogadores de todas as 48 seleções — só será conhecido quando as convocações estiverem encerradas.

Para os clubes brasileiros, o impacto é duplo. Times como Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro que cederam jogadores para a Seleção Brasileira durante as Eliminatórias sul-americanas — um ciclo que se estendeu por quase dois anos — já acumularam dias de cessão contabilizáveis. Se esses mesmos atletas forem convocados para o Mundial, o período se estende e o repasse cresce. Clubes europeus com maior número de convocados em seleções que avançam até as fases finais tendem a receber os maiores valores, já que o torneio se prolonga por mais semanas.

O que os clubes podem esperar receber a partir de junho

Projetando um cenário conservador — mantendo o valor de US$ 10,9 mil por dia de 2022 e aplicando ao maior número de atletas e ao calendário mais longo de um Mundial com 48 seleções —, os repasses totais por clube poderiam variar entre algumas dezenas de milhares de dólares para agremiações menores, com um ou dois jogadores convocados que caem nas primeiras rodadas, e vários milhões de dólares para clubes com múltiplos representantes em seleções que chegam às semifinais e à final, disputada em 19 de julho de 2026.

Em 2022, o Real Madrid, maior fornecedor de jogadores ao torneio com 13 atletas em diferentes seleções, foi também um dos maiores beneficiários do fundo de compensação. A lógica se repetirá em 2026, mas com o campo ainda mais aberto: clubes da Arábia Saudita, da MLS e de ligas menores que antes não tinham jogadores em Copas agora terão representantes entre as 48 seleções classificadas, pulverizando ainda mais a distribuição.

É o mesmo cenário que o futebol viveu em 1998, quando a Copa da França ampliou o número de participantes de 24 para 32 seleções — os clubes reclamaram que a fatia por jogador encolheu, mas o volume total de recursos injetados no sistema cresceu e, no médio prazo, os grandes beneficiários foram exatamente os clubes com plantéis mais internacionalizados. Só que agora a aposta é diferente: o fundo é quase quatro vezes maior do que o de 1998, e o futebol global nunca teve tantos clubes com interesse direto no resultado desta conta.