Quantos craques um único torneio pode arrancar de uma seleção antes mesmo de a bola rolar? A Copa do Mundo de 2026 ainda não começou — o torneio vai de 11 de junho a 19 de julho nos Estados Unidos, Canadá e México — e o Brasil já perdeu Éder Militão e Rodrygo de forma definitiva, enquanto aguarda um diagnóstico mais preciso sobre Estêvão. Três jogadores que Carlo Ancelotti havia posicionado no centro do seu esquema tático, três funções diferentes, três buracos abertos ao mesmo tempo.
A pergunta que agita torcedores de Caxias do Sul a Belém é se o Brasil ainda é candidato ao título. Mas antes de responder isso, é preciso entender o tamanho real do que foi perdido — e se as alternativas disponíveis são soluções ou apenas curativos.
A tríade que Ancelotti construiu e o acidente que a desfez
O colapso veio em cascata. Militão sofreu ruptura do tendão proximal do bíceps femoral da perna esquerda durante a partida entre Real Madrid e Alavés, válida pela 33ª rodada do Campeonato Espanhol — jogo que o Real venceu por 2 a 1. A cirurgia foi realizada no dia 28 de abril, após consulta com especialista na Finlândia, com previsão de retorno apenas em outubro. Desde o Mundial do Catar, em 2022, esta é a nona lesão do zagueiro, que já passou por três cirurgias.
Rodrygo foi o primeiro a cair: operado no joelho direito em março, o atacante do Real Madrid não terá tempo de recuperação antes do início do torneio. Já Estêvão, do Chelsea, enfrenta uma lesão muscular de grau 4 na coxa direita — a mais severa da escala clínica — mas, segundo informações divulgadas pela CNN Brasil, o jogador confia na recuperação a tempo. A margem, porém, é estreitíssima.
O peso dessas ausências vai além do talento individual. Militão exercia dupla função no esquema de Ancelotti — zagueiro central e lateral-direito — com a confiança de quem conviveu com o treinador nas temporadas do Real Madrid. Rodrygo era o organizador das transições pelo meio, não um simples ponta. E Estêvão representava a imprevisibilidade, o jogador capaz de resolver um jogo no um contra um, a herança mais pura das categorias de base do Palmeiras transposta para a elite europeia.
A contra-leitura que o desespero impede de ver
A narrativa dominante é a do caos. Mas há uma leitura alternativa que merece espaço: o Brasil, mesmo sem o trio, chega à Copa com um dos elencos mais profundos da competição — e Ancelotti tem nomes de peso para cada posição comprometida.
Na defesa, a pré-lista da ESPN aponta 17 opções para o setor, entre elas Marquinhos (PSG), Gabriel Magalhães (Arsenal), Bremer (Juventus), Murillo (Nottingham Forest) e Vitor Reis (Girona). Roger Ibañez, do Al-Ahli, já foi utilizado por Ancelotti na lateral-direita nas datas Fifa de março, contra França e Croácia — ou seja, o treinador não está improvisando, está testando desde o início do ano. Danilo, do Flamengo, também mantém posição na briga.
No ataque, a ausência de Rodrygo abre caminho para Lucas Paquetá assumir protagonismo no meio criativo, função que o jogador do West Ham exerceu com consistência na temporada europeia 2025/2026. Sem Estêvão, os nomes de Gabriel Martinelli, Luiz Henrique e Matheus Cunha — todos no álbum oficial da Copa — ganham força. Segundo apuração do SportNavo, o próprio Ancelotti tem tratado as ausências como oportunidade de consolidar hierarquias que antes ficavam obscurecidas pelo brilho dos titulares.
"Estêvão confia na recuperação a tempo do torneio", informou a CNN Brasil, sinalizando que o Chelsea e a comissão técnica da Seleção mantêm comunicação direta sobre a evolução do atleta.
O que os números e a síntese revelam sobre o Brasil real
Há um equilíbrio difícil de alcançar aqui. Minimizar as perdas seria desonestidade analítica — Militão e Rodrygo são titulares absolutos no Real Madrid, clube que disputou a final da Champions League na temporada 2024/2025. Estêvão, aos 18 anos, já acumula atuações decisivas pelo Chelsea na Premier League 2025/2026. Não há substitutos diretos à altura, e essa é uma verdade que nenhum entusiasmo patriótico apaga.
Mas transformar três lesões em sentença de morte é erro igualmente grave. O Brasil de Ancelotti tem Vinícius Júnior como o melhor jogador do mundo em atividade, Raphinha recuperado e pronto para a Copa, Bruno Guimarães como um dos melhores meio-campistas da Premier League, e uma defesa com opções suficientes para Ancelotti montar ao menos duas combinações competitivas. Há profundidade real nesse elenco — algo que o Brasil não exibia com tanta clareza desde 2002.
A síntese honesta é esta: o Brasil perdeu qualidade e perdeu opções táticas, mas não perdeu a condição de favorito. A seleção que entrar em campo no dia 11 de junho será diferente da que Ancelotti planejou em janeiro — mais dependente de Vinicius, menos imprevisível no ataque, com uma defesa ainda em construção. Como no trânsito da Avenida Paulista às 18h de uma sexta-feira, o caminho vai existir, mas o percurso vai exigir mais paciência e mais escolhas corretas ao longo do trajeto.
"Éder Militão era peça chave no esquema tático de Carlo Ancelotti na seleção", resumiu a reportagem da Veja, destacando que o zagueiro atuava em ambas as funções — zagueiro e lateral — a pedido do treinador italiano.
O Brasil estreia na Copa do Mundo 2026 no grupo que inclui adversários ainda a serem definidos pelo sorteio da FIFA, previsto para ocorrer em dezembro de 2025 — o sorteio já realizado posicionou a Seleção no Grupo D. A primeira partida oficial de Ancelotti à frente do Brasil no torneio será o teste real de todas essas equações — e o treinador terá até o encerramento da temporada europeia, em meados de junho, para definir sua convocação final com base na evolução clínica de Estêvão.









