Quanto tempo leva para uma organização criminosa transformar um documento falso em aposentadoria paga pelo erário, mês após mês, por mais de uma década? A resposta, segundo as investigações da Polícia Federal, é menos tempo do que a maioria imagina — e o custo acumulado, no caso de uma única quadrilha desarticulada no Rio de Janeiro, ultrapassou R$ 50 milhões.

Não se trata de um caso isolado. Entre flagrantes em Campo Grande, prisões na Baixada Fluminense e operações em Sergipe, o padrão se repete com variações táticas que qualquer analista de jogo reconheceria: o adversário explora a mesma zona de conflito até alguém finalmente fechar o bloqueio.

A Operação Caça ao Tesouro e os 193 benefícios rastreados

Na madrugada de uma terça-feira recente, 70 agentes da PF saíram da Superintendência na Praça Mauá em direção a cinco municípios fluminenses — Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Duque de Caxias, Araruama e Mesquita. A Operação Caça ao Tesouro cumpriu 13 mandados de prisão preventiva e 19 de busca e apreensão. Até as 11h50 daquele dia, nove pessoas haviam sido detidas.

O fio que puxou toda a investigação foi puxado em 2022, quando um homem de 57 anos foi preso tentando sacar benefícios de "fantasmas" — identidades fabricadas — em uma agência da Caixa na Abolição. Com ele, R$ 76 mil em espécie. A partir desse flagrante, a Coordenação-Geral de Inteligência da Previdência Social (CGINP) mapeou ao menos 193 benefícios sacados pela organização, que contava com funcionários do próprio INSS, advogados, escreventes de cartórios e profissionais de gráficas responsáveis por falsificar carteiras de trabalho e comprovantes de residência.

Como a inteligência previdenciária fecha o cerco antes do saque

O método de detecção lembra a análise estatística de um set de vôlei de alto rendimento: você não espera o ponto ser perdido para ajustar a defesa — você lê o padrão de ataque antes do contato com a bola. A CGINP cruza variáveis como frequência de saques, perfil etário dos titulares, geolocalização dos terminais e consistência documental para identificar anomalias sistêmicas.

A Operação Caça ao Tesouro e os 193 benefícios rastreados Quanto custa não perce
A Operação Caça ao Tesouro e os 193 benefícios rastreados Quanto custa não perce

Nos flagrantes de Marechal Hermes, dois suspeitos tentaram retirar cartões de benefícios de aposentadoria por incapacidade permanente concedidos irregularmente. A ação evitou o pagamento imediato de R$ 120 mil e projetou uma economia de R$ 7,6 milhões, calculada com base na expectativa de vida dos supostos titulares. Em São João de Meriti, a Coordenação de Inteligência (Coinp) identificou que um benefício havia sido concedido com base em processo judicial que não pertencia ao beneficiário real — R$ 75 mil prontos para saque foram bloqueados, evitando um desvio potencial de R$ 5,5 milhões ao longo da vida do benefício.

"O esquema do grupo atuava para a obtenção de valores mediante saques ilegais de benefícios previdenciários há mais de 10 anos", informou a Polícia Federal sobre a organização desarticulada na Operação Caça ao Tesouro.

Sergipe e os R$ 4 bilhões em descontos não autorizados

Enquanto o Rio concentrava as operações de flagrante, a Operação Sem Desconto chegava a Sergipe com outro vetor de fraude: descontos associativos não autorizados aplicados diretamente nos benefícios de aposentados e pensionistas. A PF prendeu duas pessoas em Aracaju e Umbaúba na última terça-feira (17), e a Justiça Federal determinou a apreensão de cinco imóveis vinculados aos investigados, avaliados em R$ 12 milhões. A estimativa é que até R$ 4 bilhões tenham sido cobrados irregularmente de beneficiários do INSS nos últimos cinco anos — um número que, segundo apuração do SportNavo, ainda pode crescer conforme as investigações avançam.

Como a inteligência previdenciária fecha o cerco antes do saque Quanto custa não
Como a inteligência previdenciária fecha o cerco antes do saque Quanto custa não
"A operação busca recuperar bens e avançar nas investigações sobre os descontos indevidos, com foco na recomposição do erário e na responsabilização dos autores", declarou a Polícia Federal sobre a Operação Sem Desconto.

O que muda para os segurados após as prisões

A Força-Tarefa Previdenciária, que integra o Ministério da Previdência Social e a PF há mais de duas décadas, tem operado com crescente sofisticação analítica. Em Campo Grande, um suspeito confessou ter utilizado cópia autenticada de documento de identidade falso para se apresentar como procurador cadastrado de um aposentado — prejuízo estimado de R$ 141 mil naquele caso específico, com economia projetada de R$ 1,034 milhão considerando a sobrevida média do IBGE. A mulher que o acompanhava foi detida após agredir um agente federal e resistir à prisão.

Para os segurados legítimos, o efeito prático das operações é duplo: redução do volume de benefícios fraudulentos que drenam o caixa previdenciário e, consequentemente, menor pressão sobre o equilíbrio atuarial do sistema. Os investigados nas diferentes operações responderão por estelionato, organização criminosa e inserção de dados falsos em sistemas de informação — crimes que carregam penas que podem se acumular conforme o número de benefícios fraudados.

Uma partitura de jazz funciona porque cada músico conhece exatamente quando entrar e quando calar — e é justamente o silêncio entre as notas que revela onde o esquema desafinou. A inteligência previdenciária aprendeu a ouvir esses intervalos.