Falhou. E o preço tem número, data e contrato por trás. A eliminação do Bahia na Copa do Brasil diante do Remo — 3 a 1 na Casa de Apostas Arena Fonte Nova, em plena Salvador — não foi apenas um tropeço esportivo constrangedor. Foi um evento com consequências diretas e mensuráveis no balanço financeiro do clube para 2026, num momento em que a gestão do Grupo City já acumula buracos abertos pela queda precoce na fase preliminar da Libertadores.
Os dados deixam pouco espaço para interpretação favorável. Em 2025, o Bahia arrecadou R$ 47,1 milhões somando premiações de Libertadores, Copa Sul-Americana, Copa do Brasil e Copa do Nordeste. Em 2026, até esta semana, o montante obtido não passa de R$ 4,5 milhões — isso considerando a 2ª fase preliminar da Libertadores e a 5ª fase da Copa do Brasil. O número representa aproximadamente 9,5% do total arrecadado no ciclo anterior. Não é oscilação. É colapso de receita.
O que a eliminação pelo Remo custou aos cofres do Bahia
A conta é direta. Por chegar à 5ª fase da Copa do Brasil, o Tricolor já havia embolsado cerca de R$ 2 milhões em premiações. Uma classificação às oitavas de final somaria mais R$ 3 milhões, elevando o total a aproximadamente R$ 5 milhões só no torneio. Com a eliminação confirmada, o clube encerra sua participação com os R$ 2 milhões já assegurados — metade do que poderia ter garantido apenas avançando uma fase. Para contextualizar: em 2025, o Bahia chegou às quartas de final da Copa do Brasil e arrecadou cerca de R$ 10,6 milhões no torneio, mais do que o dobro do que vai receber em 2026 pela competição inteira.
O agravante está na acumulação de perdas. A campanha na Libertadores deste ano rendeu ao clube US$ 4,1 milhões — resultado da soma de US$ 500 mil pela 2ª fase preliminar, US$ 600 mil pela 3ª fase e US$ 3 milhões pela entrada na fase de grupos, mais US$ 660 mil pelas vitórias obtidas. O problema é que, eliminado na fase de grupos, o Bahia deixou de acessar os playoffs da Copa Sul-Americana, que em 2025 gerou receita adicional relevante. A ausência na Copa do Nordeste fecha o triângulo de competições que, juntas, compunham o colchão financeiro do clube em anos anteriores.
O vestiário que oscila enquanto a diretoria conta o prejuízo
Nos bastidores da Arena Fonte Nova, o clima após a derrota para o Cruzeiro por 2 a 1 — válida pela 15ª rodada do Brasileirão — revelou um grupo que reconhece a gravidade do momento sem, aparentemente, ter encontrado o remédio. O volante Erick, que esteve em campo durante os 90 minutos da partida do último sábado (9), foi o mais explícito na zona mista.
"Nós não estamos tendo resultado. Estamos tropeçando dentro de casa. Ano passado a gente foi muito forte, mas este ano a gente teve alguns tropeços que nos custaram pontos importantes. Nosso grupo é muito bom. Os treinamentos no dia a dia são muito intensos, muito fortes. Eu acho que a gente como grupo precisa se fortalecer"
O volante ainda foi além ao distribuir responsabilidades — numa declaração que, lida com atenção, sinaliza tensão interna que vai além do técnico. Questionado sobre os protestos da torcida, Erick desviou do caminho mais fácil, que seria proteger o grupo e culpar o treinador.
"No atual cenário do futebol brasileiro, tudo que acontece de ruim tende a cair nas costas do treinador. Eu acho que nós, como atletas, também temos que assumir nossa responsabilidade. A gente tem oscilado muito. Acredito que não seja só culpa do treinador. Tem a culpa do treinador, tem a culpa dos atletas também"
O Bahia acumula, agora, quatro jogos sem vencer em casa, com derrotas para Palmeiras e Remo e empate com o Santos antes do revés para o Cruzeiro. Com 53% de aproveitamento como mandante na Série A — o 13º melhor do campeonato —, o clube inverte a lógica de 2025, quando estabeleceu recorde de vitórias em casa com 14 triunfos e aproveitamento de 78,9%. Fora de casa, paradoxalmente, o Tricolor vai bem: quatro vitórias em 2026, aproveitamento de 67%, melhor visitante da competição.
A mesa de decisão e os contratos que dependem de desempenho
A queda de receita tem implicações diretas no planejamento de contratações para o segundo semestre. O Grupo City trabalha com um modelo de gestão que conecta premiações de competições ao orçamento disponível para reforços e renovações de contrato. Perder mais de 90% da receita de premiações em relação ao ano anterior — passando de R$ 47,1 milhões para algo próximo de R$ 6,5 milhões, considerando o cenário atual — estreita significativamente a margem de manobra da diretoria para movimentações no mercado da bola.
- R$ 47,1 milhões arrecadados em premiações em 2025 (Libertadores, Sul-Americana, Copa do Brasil e Copa do Nordeste)
- R$ 4,5 milhões arrecadados até agora em 2026 (fase preliminar da Libertadores e 5ª fase da Copa do Brasil)
- R$ 2 milhões garantidos na Copa do Brasil em 2026, contra R$ 10,6 milhões em 2025
- US$ 4,1 milhões da campanha na Libertadores 2026, sem acesso à Sul-Americana
O Brasileirão permanece como a única frente competitiva relevante em aberto. Com 53% de aproveitamento em casa, o clube precisa urgentemente inverter esse número para não ver sua posição na tabela — e consequentemente suas cotas de televisão — também deteriorarem. A cota de TV do Brasileirão é calculada com base em critérios que incluem posição final na temporada anterior e audiência gerada, o que coloca pressão adicional sobre resultados que já estão aquém do esperado pela gestão.
O Bahia volta a campo pelo Brasileirão nesta rodada, com o grupo pressionado internamente e a diretoria recalculando projeções financeiras que, no início do ano, eram construídas sobre um cenário muito mais otimista. A conta que o Grupo City precisa fechar em 2026 lembra uma partitura com compassos faltando no meio — o que foi tocado até aqui não é suficiente para completar a obra.








