17 de outubro de 2024. Naquela data, o Corinthians anunciou a contratação de Memphis Depay com pompa de clube europeu — telão na Neo Química Arena, multidão na arquibancada, o atacante holandês sorrindo para câmeras como quem acabou de assinar com o Bayern de Munique. Dezoito meses depois, o mesmo Depay que custou ao clube uma dívida estimada em R$ 42 milhões em salários está prestes a render ao Timão uma receita diária paga pela Fifa durante a Copa do Mundo de 2026. A narrativa que circula nos bastidores alvinegros é a de que a convocação do atacante pela Holanda representa um "presente" financeiro. A realidade é um pouco mais sóbria — e mais interessante.

O programa da Fifa que poucos clubes brasileiros conhecem direito

A Fifa opera desde 2010 um mecanismo chamado Club Benefits Programme, que obriga a entidade a compensar financeiramente os clubes que cedem jogadores para a Copa do Mundo. O princípio é direto: se o clube paga o salário do atleta e o libera para a seleção, a Fifa assume os custos do período de competição. Para a Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, Canadá e México, a Fifa estabeleceu o valor de US$ 10.000 por jogador por dia de convocação — montante que inclui desde a data de apresentação ao grupo nacional até a eliminação ou conquista do título pela seleção.

A fase de grupos da Copa do Mundo tem duração aproximada de 23 dias, contando da convocação oficial até o encerramento. Se a Holanda avançar até a final, realizada em 19 de julho de 2026, o período pode ultrapassar 50 dias. A cada dia que Depay permanecer na seleção orange, o Corinthians recebe US$ 10.000 da Fifa — o que equivale, na cotação atual do dólar em torno de R$ 5,75, a aproximadamente R$ 57.500 diários. Uma campanha da Holanda até as quartas de final, por exemplo, representaria algo próximo a R$ 1,7 milhão para o clube paulistano. Uma jornada até o título poderia chegar a R$ 2,9 milhões.

"O programa de compensação da Fifa é uma das poucas fontes de receita previsível e garantida que um clube pode ter durante uma Copa do Mundo. Para clubes com caixa apertado, cada dia conta." — análise de consultor de gestão esportiva citada pelo portal ge.globo em cobertura do programa em edições anteriores da competição.

A diferença entre alívio de caixa e solução financeira para o Corinthians

Aqui mora o ponto que a narrativa entusiasmada tende a suavizar. O Corinthians encerrou o exercício fiscal de 2024 com uma dívida total superior a R$ 2,1 bilhões, segundo balanço divulgado pelo clube. Nesse contexto, R$ 1,7 milhão — ou até R$ 2,9 milhões em um cenário de título holandês — representa algo entre 0,08% e 0,14% do passivo total. Útil? Absolutamente. Transformador? Longe disso.

O que torna a receita da Fifa relevante não é o valor absoluto, mas a natureza do pagamento: é dinheiro líquido, sem contrapartida de desempenho esportivo do próprio clube. Enquanto o Corinthians disputa o Brasileirão 2026 — atualmente no meio da tabela da Série A — e precisa de resultados dentro de campo para atrair patrocínio e cotas de TV, o repasse da Fifa chega independentemente de qualquer placar na Neo Química Arena. Para um departamento financeiro que opera no fio da navalha, como o do trânsito da Avenida Paulista às 18h numa segunda-feira, essa previsibilidade tem valor desproporcional ao número em si.

Outro detalhe operacional importante: a Fifa não repassa o valor durante a competição. O pagamento é processado após o encerramento da Copa, com prazo de liquidação que costuma se estender até o primeiro trimestre do ano seguinte. Ou seja, o dinheiro referente à Copa de 2026 provavelmente entrará no caixa do Corinthians apenas em 2027 — o que limita ainda mais seu impacto imediato nas obrigações correntes do clube.

Outros clubes brasileiros na mesma fila da Fifa

O Corinthians não estará sozinho nessa fila. O programa da Fifa beneficia qualquer clube que ceda jogadores para a Copa, independentemente de país ou divisão. Na edição de 2022, no Catar, clubes brasileiros receberam coletivamente mais de US$ 3,2 milhões pelo programa de compensação, de acordo com dados divulgados pela própria Fifa. Para 2026, com a competição expandida para 48 seleções e mais jogos no calendário, a tendência é de que esse montante global aumente.

Flamengo, Palmeiras, São Paulo e Botafogo, que têm jogadores regularmente convocados para seleções sul-americanas e europeias, também devem figurar entre os beneficiados — embora o mecanismo seja proporcionalmente mais relevante para clubes com situação financeira delicada. No caso específico do Corinthians, a convocação de Depay pela Holanda adiciona uma camada de ironia contábil ao relacionamento turbulento entre clube e jogador: o mesmo atacante que gerou passivos milionários ao Timão agora produz um crédito junto à Fifa, com a entidade funcionando como uma espécie de seguradora do vínculo trabalhista durante a Copa.

"Depay é profissional e vai estar 100% focado na seleção holandesa durante a Copa", declarou o diretor de futebol do Corinthians em entrevista ao UOL Esporte, ao ser questionado sobre a convocação do atacante — afirmação que, lida à luz do programa da Fifa, tem também um subtexto financeiro bastante concreto.

A Copa do Mundo de 2026 começa em 11 de junho, com a fase de grupos da Holanda iniciando na segunda semana do torneio. Conforme detalhado em matéria do SportNavo, o Corinthians está monitorando o desempenho de Depay na competição não apenas por razões esportivas — o atacante tem contrato com o clube até dezembro de 2026, e sua valorização de mercado durante a Copa pode abrir janelas de negociação com clubes europeus que reduziriam o passivo salarial do Timão no segundo semestre.

No caixa da Neo Química Arena, um contador já tem a calculadora aberta: a cada vitória da Holanda, a régua avança mais um dia, e mais US$ 10.000 se acumulam no crédito alvinegro junto à Fifa. Pequeno demais para salvar o clube. Grande o suficiente para pagar uma semana de luz.