Diz-se que o Flamengo é um clube que vive de torcida e marketing. A frase está errada — e os números de 2025 provam isso com precisão cirúrgica. O Flamengo encerrou o ano com R$ 2,1 bilhões em receitas, superando em 60% a projeção de R$ 1,33 bilhão aprovada pelo Conselho de Administração em janeiro daquele mesmo ano. Não foi sorte. Foi uma combinação de desempenho esportivo, estrutura contratual e gestão de ativos que merece ser decomposed item a item.

O presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, apresentou os resultados na sede da Gávea, na terça-feira (23), aos sócios rubro-negros — e colocou o dado em perspectiva de mercado.

"Nós crescemos em um ano o faturamento de um São Paulo, que era o quarto do Brasil. O que acontece se o Flamengo não ganhar nada esse ano, a casa cai? A gente fatura R$ 1,4 bilhão. O orçamento do Palmeiras com tudo dentro é R$ 1,2 bilhão", disse Bap durante o evento transmitido pelo canal do clube no YouTube.

Como R$ 375 milhões em premiações reescreveram o orçamento

Quando a diretoria montou o orçamento original, a premissa esportiva era conservadora — praxe em planejamento financeiro de clubes. O que ninguém projetou com precisão foi a acumulação de quatro títulos nacionais e internacionais: Supercopa do Brasil, Campeonato Carioca, Libertadores e Brasileirão, mais as campanhas no Super Mundial de Clubes e na Copa Intercontinental.

Só em premiações, o total chegou a R$ 375 milhões — valor que, por si só, representa 28% do que o clube havia projetado ganhar no ano inteiro.

Para entender o tamanho do desvio: em 2023, o Flamengo registrou receita de R$ 1,37 bilhão, então recorde do clube. O salto de um ano para o outro foi de R$ 730 milhões — quase o orçamento anual de um clube de médio porte no Brasil.

Venda de atletas ficou abaixo do potencial, mas o programa de sócios compensou

A projeção de vendas de jogadores para 2025 era de 35 milhões de euros (R$ 232,8 milhões). O resultado real ficou bem abaixo dessa marca em termos de transferências concluídas: Gerson, Wesley e Matheus Gonçalves, entre outros, renderam pouco mais de R$ 50 milhões em conjunto. Uma performance aquém do planejado nessa linha específica.

O déficit no mercado de transferências foi mais do que compensado por duas outras frentes.

Primeira: o programa Nação. O clube atingiu o pico de 118 mil sócios-torcedores em 2025 — alta de 64% sobre os 72 mil registrados em 2024. O faturamento dessa vertical chegou a R$ 81,1 milhões, 13% acima do ano anterior. Segunda: as receitas de matchday (ingressos e operação de estádio) totalizaram R$ 365 milhões, número consistente com o volume de jogos em competições de alto nível que o clube disputou ao longo do ano.

O Flamengo de 2019 já antecipava esse modelo — só faltava escala

O paralelo histórico mais honesto é com 2019, quando o clube conquistou Libertadores e Brasileirão sob Jorge Jesus e registrou salto expressivo de receitas. Naquele ciclo, o Flamengo ainda dependia fortemente de cotas de TV e tinha uma base de sócios muito menor. Seis anos depois, o modelo mudou: as receitas estão mais distribuídas entre premiações esportivas, matchday, sócios e direitos comerciais — o que reduz a dependência de qualquer fonte isolada.

A análise do SportNavo sobre os balanços dos últimos quatro anos mostra que essa foi a primeira vez em que o Flamengo registrou margem operacional acima de 30% sem depender de uma venda pontual de ativo para equilibrar as contas.

"Temos um caixa absolutamente saudável, um resultado crescente, uma margem acima de 30%. Isso se a gente não ganhar nada. Se ganha de novo, vamos para uma margem de 40%, e mais condições de investir no negócio", completou Bap.

O modelo de 2019 era dependente de performance. O modelo de 2025 tem piso estrutural.

O que os R$ 2,1 bilhões significam para o planejamento de 2026

Bap projetou que, mesmo sem conquistar títulos em 2026, o clube fatura R$ 1,4 bilhão — valor que já supera o orçamento anual completo do Palmeiras (R$ 1,2 bilhão). Esse piso muda a lógica de contratações: o clube não precisa vender para comprar.

No início de 2025, o orçamento para reforços era de 25 milhões de euros (R$ 166,3 milhões). Com o caixa acumulado em 2025, a diretoria tem condições de ampliar esse envelope sem comprometer o fluxo operacional. Juninho custou 7 milhões de euros (R$ 43,5 milhões) na janela anterior; Danilo chegou por luvas ainda não divulgadas.

O Flamengo entra em 2026 como o clube de maior receita do futebol brasileiro — e com o balanço para provar que o número não foi acidente.