O áudio chegou antes de qualquer comunicado oficial. Nas palavras captadas e vazadas à imprensa, o presidente do São Paulo, Harry Massis, deixou escapar uma preocupação que o balanço financeiro do clube já registrava em números frios: o Tricolor carrega hoje aproximadamente R$ 10 milhões em dívidas com três ex-treinadores — Hernán Crespo, Luis Zubeldía e Dorival Júnior. Não é uma situação inédita no futebol brasileiro, mas a coincidência de três passivos simultâneos com técnicos de perfis tão distintos revela um padrão de gestão que merece ser examinado com atenção.
O que o áudio de Massis revela sobre a saúde financeira do clube
Quando um presidente de clube tem sua voz captada expressando preocupação com gastos de ex-comissões técnicas, o sinal é inequívoco: o problema ultrapassou a esfera administrativa e chegou à cúpula. Massis mencionou especificamente uma "multa" associada a Dorival Júnior, treinador que comandou o São Paulo em duas passagens — a primeira em 2017 e a segunda entre 2023 e 2024, ciclo que rendeu ao clube o título da Copa do Brasil e ao técnico a convocação para o comando da Seleção Brasileira. No balanço financeiro com data-base de 31 de dezembro de 2025, o clube registrava R$ 3,2 milhões a pagar a Dorival, distribuídos entre valores em nome da pessoa física e da empresa do treinador. Não se trata de multa rescisória, mas de honorários da segunda passagem ainda não liquidados. Entre 2024 e 2025, o São Paulo amortizou cerca de R$ 1,45 milhão dessa dívida — ritmo que, mantido, projetaria a quitação completa apenas no segundo semestre de 2026.
O mesmo balanço aponta que, em 31 de dezembro de 2025, o São Paulo acumulava R$ 80,3 milhões em dívidas trabalhistas e cíveis com aproximadamente 40 credores identificados, entre ex-jogadores, intermediários e escritórios de advocacia. Os R$ 10 milhões referentes aos três técnicos representam, portanto, 12,5% desse passivo total — uma fatia expressiva concentrada em apenas três nomes.
A cronologia das pendências com Crespo e Zubeldía
A dívida mais antiga do trio tem nome e sobrenome argentino: Hernán Crespo. O técnico encerrou sua primeira passagem pelo Morumbis em 2021 deixando pendências que o clube só conseguiu quitar em 2026, cinco anos depois — R$ 2,1 milhões liquidados antes mesmo de sua demissão na segunda passagem, ocorrida em abril deste ano. A ironia histórica é evidente: o São Paulo pagou a conta da primeira gestão de Crespo enquanto ainda o tinha no cargo pela segunda vez. Com a rescisão recente, abriu-se um novo passivo: pouco mais de R$ 4 milhões em multa rescisória devida ao treinador e à sua comissão técnica pela saída desta temporada.
O caso de Luis Zubeldía tem uma particularidade contábil relevante. O argentino comandou o Tricolor entre abril de 2024 e junho de 2025, e quando foi demitido, clube e técnico chegaram a um acordo extrajudicial. Por isso, os R$ 3 milhões que Zubeldía tem a receber não aparecem formalmente no balanço financeiro — estão fora do registro oficial, mas existem como obrigação real. É o tipo de passivo que não aparece na fotografia contábil, mas que pesa no caixa quando o vencimento chega.
- Hernán Crespo (1ª passagem, encerrada em 2021): R$ 2,1 milhões — quitados em 2026
- Hernán Crespo (2ª passagem, encerrada em abril de 2026): R$ 4 milhões em multa rescisória — a pagar
- Luis Zubeldía (abril/2024 a junho/2025): R$ 3 milhões — acordo extrajudicial, fora do balanço
- Dorival Júnior (2ª passagem, 2023-2024): R$ 3,2 milhões — registrados no balanço, amortização em curso
O padrão histórico que o São Paulo precisa romper
Quem acompanha o futebol brasileiro há mais de duas décadas reconhece que dívidas com ex-treinadores não são exclusividade paulistana. Clubes como Flamengo, Corinthians e Atlético-MG já enfrentaram passivos semelhantes em períodos de instabilidade financeira. A diferença está na simultaneidade: ter três ex-técnicos credores ao mesmo tempo, com origens distintas — rescisão antiga, acordo informal e honorários em atraso — sugere que o problema não é pontual, mas estrutural.
A análise do SportNavo sobre as finanças do futebol paulista mostra que o São Paulo encerrou 2025 com receitas totais abaixo do necessário para cobrir todos os compromissos de curto prazo. A Copa do Brasil de 2024, conquistada justamente sob o comando de Dorival, injetou recursos significativos, mas não o suficiente para zerar o passivo acumulado em anos de contratações onerosas. Thiago Carpini, que sucedeu Dorival e também deixou o clube em 2024, é o único dos técnicos recentes sem pendências registradas — o que indica que, quando há planejamento e negociação prévia, o clube consegue encerrar ciclos sem deixar rastros financeiros.
"Não tem dinheiro", teria dito Massis no áudio vazado, segundo informações obtidas pelo ge — frase que, dita por um presidente de clube com 80 anos de história e um dos maiores patrimônios do futebol nacional, soa como diagnóstico mais do que como desculpa.
A comparação histórica é inevitável. Quando o São Paulo demitiu Telê Santana pela segunda vez, em 1996, o clube atravessava uma transição financeira delicada após os títulos mundiais de 1992 e 1993. Naquela época, as pendências com comissões técnicas eram resolvidas nos bastidores, sem a transparência dos balanços auditados que a legislação atual exige. Hoje, os números estão ali, publicados, e somam R$ 10,2 milhões apenas com três nomes — Crespo, Zubeldía e Dorival.

Com a multa rescisória de Crespo ainda sem prazo definido de quitação e os R$ 3 milhões de Zubeldía fora do radar contábil oficial, o São Paulo entra no segundo semestre de 2026 com pelo menos R$ 10,2 milhões a desembolsar para técnicos que já não estão no clube — enquanto precisa financiar a atual comissão técnica e manter a competitividade no Brasileirão.








