O gesto já estava feito. Câmeras captaram Abel Ferreira erguendo o dedo do meio durante a comemoração do primeiro gol do Palmeiras na vitória por 2 a 0 sobre o Sporting Cristal, em Lima, pela fase de grupos da Libertadores. Horas depois, a Conmebol comunicou a abertura de processo disciplinar contra o treinador português.
O enquadramento disciplinar e o prazo que o Palmeiras enfrenta agora
A Conmebol enquadrou Abel no Artigo 11, tópicos B e C do seu Código Disciplinar. O texto cobre dois comportamentos distintos: "comportar-se de maneira ofensiva, insultuosa ou fazer declarações difamatórias" e "violação das diretrizes mínimas do que deve ser considerado comportamento aceitável no campo do esporte e do futebol organizado". As penalidades previstas nesse artigo vão de advertência e repreensão até multa.
O clube tem até 13 de maio para depositar sua defesa junto ao tribunal disciplinar da entidade. Em caso de condenação, o valor máximo projetado é de US$ 25 mil — aproximadamente R$ 122 mil na cotação atual. Para um clube com receita anual superior a R$ 800 milhões, o impacto financeiro direto é residual. O risco real é a suspensão do técnico, que o regulamento também autoriza, embora não esteja indicado como pena principal nesse enquadramento.
"É o jogador que mais dou na cabeça. Ele fez assim para mim (ok). Eu fiz um gesto para ele (dedo do meio), não sei se viram. Eu cobro muito dele e ele sabe o que tem que fazer. Ele tem tudo para ser um centroavante top mundial, mas no Palmeiras, eu o trato como se fosse um filho."
A declaração de Abel após a partida enquadra o gesto como comunicação interna entre treinador e atacante — Flaco López, seu centroavante argentino. Deliberado. A defesa do Palmeiras provavelmente explorará exatamente esse contexto para afastar a caracterização de conduta ofensiva ao público ou às instituições do futebol.
O precedente de Renato Paiva que o Palmeiras vai usar como argumento
Nos bastidores, a estratégia jurídica do clube já inclui um caso análogo: em maio de 2025, Renato Paiva, então técnico do Botafogo, exibiu o dedo do meio a um membro de sua própria comissão técnica durante a comemoração do terceiro gol do Alvinegro — partida em que o time havia saído de 0 a 2 para virar. A Conmebol não abriu processo contra Paiva naquela ocasião.
A diferença operacional entre os dois casos é o registro visual. O gesto de Paiva foi captado de ângulo restrito; o de Abel, em transmissão ampla. Isso pode ser determinante para o tribunal, que tende a ponderar o alcance da exposição ao avaliar o grau de ofensividade.
O que muda no mapa da Libertadores se Abel for suspenso
O Palmeiras segue na fase de grupos da Libertadores com calendário ainda a definir. Uma eventual suspensão de um ou dois jogos retiraria Abel do banco justamente na fase em que o clube precisa consolidar a classificação. Nos últimos três anos, o aproveitamento do Palmeiras em jogos sem Abel no banco — por suspensão ou doença — foi de 50%, contra 68% com o treinador presente, segundo dados compilados pelo departamento de análise do clube.
A decisão do tribunal disciplinar da Conmebol deve sair antes do fim de maio. É o mesmo cenário que o Botafogo viveu em 2025 com Renato Paiva — só que agora a aposta é diferente: o gesto está gravado em alta definição, e a entidade já formalizou o processo.








