O áudio vazou na segunda-feira. Na quarta, São Paulo e Roger Machado já estavam separados. Entre os dois momentos, o clube acumulou mais uma obrigação financeira que não tinha como evitar — e que, como as anteriores, será diluída no tempo.
A multa rescisória de Roger Machado está estimada em R$ 2 milhões, valor que o Tricolor terá de honrar após a demissão unilateral comunicada nesta quarta-feira, 14 de maio, horas depois da eliminação na Copa do Brasil diante do Juventude. O pagamento não será à vista. Assim como aconteceu com outros desligamentos recentes, a diretoria optou pelo parcelamento.
O passivo que Harry Massis herdou — e o que ele próprio gerou
No áudio que circulou entre torcedores no início desta semana, o presidente Harry Massis foi explícito sobre a situação do caixa:
"Não temos condição de contratar, de trocar o técnico. Não temos dinheiro. Estou pagando multa do Dorival Júnior, do Zubeldía, que não tenho nada com isso, multa do Crespo da primeira passagem, que não tenho nada com isso. Está sobrando tudo para mim."
O desabafo revelou um passivo de ex-treinadores que, somado, ultrapassa R$ 14 milhões. A decomposição por nome é a seguinte:
- Hernán Crespo — multa rescisória estimada entre R$ 4 milhões e R$ 4,5 milhões, gerada pela saída em 2026
- Luis Zubeldía — pendências da passagem anterior entre R$ 3 milhões e R$ 7,5 milhões
- Dorival Júnior — aproximadamente R$ 3,2 milhões em direitos de imagem e outras obrigações contratuais, não multa rescisória
- Roger Machado — rescisão de R$ 2 milhões, confirmada após a demissão desta quarta
O ponto que Massis fez questão de sublinhar — "que não tenho nada com isso" — distingue contratos assinados por gestões anteriores de obrigações que ele próprio assumiu. Juridicamente, a distinção não existe: o clube responde pela integralidade da dívida, independentemente de quem a gerou.
Por que o parcelamento virou padrão no Morumbi
O São Paulo não está usando o parcelamento como recurso emergencial. Trata-se de uma prática consolidada na gestão de passivos trabalhistas do clube ao longo dos últimos ciclos. A lógica é simples do ponto de vista de fluxo de caixa: distribuir o desembolso ao longo de meses reduz o impacto imediato sobre a liquidez operacional, ainda que eleve o custo total — dependendo das condições negociadas, há incidência de correção monetária e juros.
No caso de Roger Machado, a apuração do SportNavo indica que o clube não tinha reserva específica para cobrir a rescisão à vista. O próprio presidente havia dito, dois dias antes da demissão, que "não vai pagar mais uma multa" — declaração que tornou a decisão de quinta-feira ainda mais contraditória do ponto de vista da comunicação institucional.
"Será que vocês não entendem que pegamos o São Paulo sucateado? Eles não pagaram nada o ano passado. Está sobrando tudo para mim", disse Massis no áudio que vazou na segunda-feira.
A fala expõe uma tensão real: o clube precisava demitir por pressão esportiva — eliminação na Copa do Brasil, campanha abaixo do esperado no Brasileirão — mas não tinha folga orçamentária para arcar com o custo imediato. A saída foi demitir e parcelar, aceitando ampliar o passivo de curto prazo.
O que o São Paulo precisa resolver antes de contratar outro técnico
A demissão de Roger Machado resolve o problema esportivo imediato — ou ao menos abre espaço para uma mudança de rota — mas cria uma nova variável financeira. Contratar um substituto exige, no mínimo, pagamento de luvas de assinatura, salário mensal e, eventualmente, comissão de intermediação ao agente do novo treinador.
Com o passivo atual — que pode chegar a R$ 17 milhões somando todas as obrigações com ex-treinadores e a nova rescisão de Roger —, o espaço para um contrato robusto é limitado. Um técnico de mercado com histórico em clube de porte equivalente ao São Paulo costuma custar entre R$ 800 mil e R$ 1,5 milhão mensais em salário bruto, fora benefícios e comissão de comissão técnica.

O Transfermarkt avalia o elenco são-paulino em aproximadamente € 85 milhões — valor que posiciona o clube como o quarto mais valioso do Brasil, atrás de Flamengo, Palmeiras e Atlético Mineiro. O ativo existe; o problema é o passivo que corrói a liquidez antes que qualquer receita de transferência seja realizada.
O São Paulo volta a campo pelo Brasileirão — competição em que o próprio Massis disse que chegar ao 6º lugar já seria suficiente para garantir vaga na Libertadores — com um técnico interino no banco. A diretoria tem até o próximo compromisso oficial para definir se anuncia um nome fixo ou prolonga a solução provisória. Dado o custo de cada dia de atraso em negociação com agentes — que cobram por hora de trabalho em contratos de alta complexidade —, a pergunta concreta que fica é: o São Paulo consegue fechar um contrato com novo técnico antes que o parcelamento de Roger Machado comece a comprometer o limite de crédito disponível para a folha de pagamento de maio?








