Quantos bilhões de pessoas podem acordar no dia do jogo sem ter onde assistir? A pergunta parece absurda quando se fala da maior competição esportiva do planeta, mas ela é, neste momento, absolutamente real. A Copa do Mundo de 2026 se aproxima com uma lacuna gigantesca no mapa das transmissões: China e Índia — os dois países mais populosos da Terra — ainda não têm acordo fechado com a Fifa para exibir o torneio.
O silêncio nas negociações ressoa diferente quando você coloca os números na mesa. São aproximadamente 2,8 bilhões de pessoas, ou cerca de 34% da população mundial, que podem simplesmente não ter acesso legal às partidas. A Fifa confirmou acordos para 180 das suas 211 associações membro — incluindo, segundo o site The Athletic, uma plataforma de streaming pan-caribenha que garantiria cobertura a torcedores em países como Curaçao e Haiti, somando mais 200 milhões de pessoas com acesso garantido. Mas China e Índia seguem como pontos cegos no mapa.
A dimensão do problema vai além da logística. Estamos falando de dois mercados que a Fifa há anos tenta transformar em pilares do crescimento global do futebol — e que agora correm o risco de ficar do lado de fora da festa.
A interpretação dominante ignora o fuso horário como bomba-relógio
A narrativa mais comum sobre esse impasse coloca o problema como puramente comercial: emissoras que não querem pagar, Fifa que pede demais. Mas há uma variável técnica que complica tudo antes mesmo de qualquer cifra entrar em cena. Na época em que a Copa começar, a Índia estará nove horas e meia à frente de Nova York, e a China, doze horas. Isso significa que a maioria dos jogos nos Estados Unidos, Canadá e México vai começar quando a Índia estiver dormindo e a China ainda estará no começo da manhã.
O contraste com o Catar é brutal. Em 2022, a diferença de fuso horário entre Doha e a Índia era de apenas duas horas e meia — e entre Doha e a China, cinco horas. Os jogos caíam em horários nobres para esses mercados. Agora, a geografia joga contra. Uma audiência que já é difícil de monetizar fica ainda mais cara de alcançar quando o torcedor precisa acordar às 3 da manhã para ver sua seleção jogar.
E o histórico financeiro não ajuda a convencer as emissoras locais. Na edição do Catar, a gigante indiana de mídia Viacom18 pagou 60 milhões de dólares pelos direitos de transmissão e exibiu os jogos gratuitamente na plataforma JioCinema. O número de visitantes únicos saltou de menos de três milhões por mês no início do torneio para quase 23 milhões na final — uma audiência expressiva. O problema é que a empresa arrecadou apenas cerca de 30 milhões de dólares em publicidade, ficando no prejuízo. Boa audiência, receita insuficiente. Esse é o nó que nenhuma emissora indiana quer repetir.
A contra-leitura que a Fifa prefere não ouvir sobre China e Índia
Existe, porém, uma leitura diferente — e mais incômoda para a entidade. O impasse não é só culpa das emissoras locais ou das diferenças de fuso. Há uma questão estrutural: a Fifa nunca desenvolveu de forma consistente o futebol nesses mercados a ponto de criar uma demanda que justifique o investimento publicitário necessário para cobrir os direitos. A Índia não tem seleção competitiva no cenário global. A China tentou, investiu pesado em jogadores estrangeiros na liga doméstica e viu o projeto desmoronar. Sem um produto local que gere paixão nacional, vender publicidade em cima de jogos que começam de madrugada é uma equação que não fecha.
O SportNavo apurou que fontes ligadas ao mercado esportivo asiático apontam para outro fator: a percepção de que a Fifa cobra valores desproporcionais à realidade publicitária desses mercados, sem oferecer contrapartidas como janelas de transmissão ajustadas ou modelos de receita compartilhada. A entidade, na visão dessas fontes, ainda opera com a lógica europeia de precificação em mercados com dinâmicas completamente diferentes.
O risco concreto de um acordo que não se concretize é a pirataria em escala industrial. Sem transmissão legal acessível, torcedores chineses e indianos vão recorrer a streams ilegais — e a infraestrutura para isso já existe e funciona nesses países. A Fifa perderia não só a audiência oficial, mas também qualquer capacidade de mensurar o alcance real do torneio nesses territórios, o que prejudica futuras negociações comerciais.
O que os números reais dizem sobre o tamanho do apagão possível
A síntese honesta desse cenário exige pesar os dois lados. A Fifa avançou: 180 associações com acordos fechados é um número expressivo, e a busca pelo acordo pan-caribenho mostra que a entidade está tentando fechar os últimos buracos. Mas fechar acordos com Curaçao e Haiti enquanto China e Índia seguem sem definição é uma inversão de prioridades difícil de explicar para qualquer patrocinador global.
Segundo o site de negócios esportivos indiano State of Play, o JioCinema registrou quase 23 milhões de visitantes únicos na final da Copa de 2022 — um número que qualquer plataforma de streaming ocidental invejaria. O problema nunca foi audiência. Foi monetização.
A matemática é simples e devastadora. Se China e Índia ficarem de fora, a Copa do Mundo de 2026 pode ser, em termos de alcance legal, menor do que a edição do Catar — mesmo sendo realizada em três países com infraestrutura de transmissão de primeiro mundo. A Fifa teria o maior torneio da história em número de jogos (104 partidas) com um buraco de 34% na audiência global potencial.

As negociações seguem abertas, e a Copa começa em junho de 2026. O prazo para fechar acordos que permitam às emissoras estruturar sua grade, vender publicidade e preparar a cobertura técnica está se esgotando. Cada semana sem acordo é uma semana a menos para transformar 2,8 bilhões de pessoas em espectadores — e não em piratas involuntários do maior espetáculo esportivo do mundo.
Quantos bilhões de pessoas podem acordar no dia do jogo sem ter onde assistir? A resposta, agora, depende do que a Fifa e as emissoras de Pequim e Mumbai vão assinar — ou não — nas próximas semanas.








