Confesso: eu errei ao subestimar o impacto da rotatividade de técnicos neste ciclo. Em 2023, quando Ramon Menezes assumiu interinamente e Fernando Diniz foi escalado como solução de transição, escrevi que o processo seletivo seria comprometido de forma irrecuperável. Os números me contradizem: 94 jogadores foram monitorados, avaliados e escalados por quatro comissões técnicas diferentes — Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti —, gerando um banco de dados sobre o futebol brasileiro que provavelmente não tem precedente histórico em extensão e diversidade.

O prazo que comprime quatro anos num único envelope à Fifa

Hoje, 11 de maio, é o dia em que o Brasil entrega à Fifa a pré-lista com até 55 nomes. A data não é simbólica: é o primeiro corte regulatório de um processo que a entidade máxima do futebol tornou mais rígido para a edição de 2026. Todo atleta que eventualmente integrar o grupo final de 26 precisa, salvo comprovação médica de última hora, constar obrigatoriamente nessa relação inicial. O descumprimento equivale a uma vaga perdida. A Copa do Mundo, que abre em 11 de junho com México x África do Sul no Estádio Azteca e encerra em 19 de julho, exige esse rigor burocrático porque o novo formato com 48 seleções e 12 grupos multiplica as variáveis logísticas em escala sem precedente. A lista definitiva precisa chegar à Fifa até 30 de maio, mas Ancelotti antecipou o anúncio para 18 de maio, num evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro — estratégia que dá à comissão técnica doze dias para gerenciar eventuais lesões de última hora antes do prazo regulatório final.

ADENÍZIA FALA SOBRE SE CONVOCADA PARA SELEÇÃO | HELLO LA | #shorts | sportv

Os 94 nomes e o que Marquinhos e Vini Jr revelam sobre o ciclo

Dois jogadores resistiram a cada mudança de treinador, a cada crise interna, a cada derrota nas Eliminatórias: foram convocados 15 vezes cada. Marquinhos e Vini Jr encabeçam a tabela de frequência do ciclo, seguidos por Ederson (14 convocações) e Bruno Guimarães (14). Gabriel Magalhães e Rodrygo aparecem com 13 cada. Entre os goleiros, Alisson soma 11 chamados, Bento 13, enquanto nomes como Hugo Souza (4) e Lucas Perri (4) testaram as margens do elenco. Na lateral, Danilo lidera com 12 convocações — e sua presença ou ausência na lista de Ancelotti é uma das questões em aberto desta semana. A amplitude do ciclo, iniciado em janeiro de 2023, gerou um mapa de 94 atletas que cobre posições, clubes e ligas de forma que os ciclos anteriores raramente alcançaram. Para efeito de comparação: o ciclo de Tite para a Copa de 2022 utilizou 76 jogadores diferentes ao longo de quatro anos, segundo o registro histórico das convocações da CBF. O salto de 76 para 94 reflete tanto a turbulência institucional quanto a decisão deliberada de ampliar o radar.

A rotatividade nos bastidores foi igualmente expressiva: dois presidentes da CBF e quatro técnicos em menos de três anos e meio constituem um cenário de instabilidade que, em tese, deveria produzir um elenco fragmentado. No entanto, a alta frequência de nomes como Bruno Guimarães e Rodrygo demonstra que houve continuidade na espinha dorsal tática, mesmo quando a filosofia de jogo mudou entre Diniz — com seu futebol posicional de trocas rápidas — e o pragmatismo estruturado que Ancelotti trouxe ao assumir o cargo.

O que Ancelotti decide nos próximos sete dias muda o mapa do hexa

Entre 11 e 18 de maio, Ancelotti fará os cortes mais difíceis de sua carreira no futebol de seleções. De 55 possíveis nomes na pré-lista de hoje, ele precisará eliminar 29 atletas em sete dias. A regra de 26 convocados, mantida pela Fifa para 2026 após o formato expandido adotado no Qatar em 2022, é um alento em relação aos 23 tradicionais — mas ainda exige decisões brutais. Historicamente, o Brasil de 2002 levou 23 jogadores para a Coreia-Japão com Ronaldo (8 gols no torneio, artilheiro absoluto), Rivaldo e Ronaldinho Gaúcho formando o tridente que conquistou o quinto título. Em 2006, a lista de Parreira com 23 nomes incluía Adriano, Kaká e Ronaldo, mas o Brasil caiu nas quartas para a França de Zidane por 1 a 0. O tamanho do grupo nunca foi garantia — a qualidade da seleção dentro dele, sim. Com o Brasil estreando em 13 de junho contra Marrocos, em Nova Jersey, Ancelotti tem 26 vagas para montar o projeto do hexacampeonato. A convocação do dia 18 é o momento em que esse projeto deixa de ser hipótese e vira nome, número e posição.