Um espelho d'água que só reflete quando está completamente parado. É assim que Jasmine Paolini jogou no Foro Italico neste fim de semana — e a metáfora exige explicação imediata.
A tenista de 29 anos não oscilou. Não no saque, não na linha de base, não nos momentos em que Coco Gauff tentou reescrever o roteiro. Paolini venceu a americana por 6/4 e 6/2 em 1h30 de partida, tornou-se a primeira italiana campeã do WTA 1000 de Roma em 40 anos e, no dia seguinte, ergueu também a taça de duplas ao lado de Sara Errani. A última a conseguir o dobradão no Foro Italico havia sido Monica Seles, em 1990 — e Paolini tinha apenas quatro anos de idade.
O que 40 anos de silêncio significam para o tênis italiano
Para entender o peso do título, é preciso colocar o tênis feminino italiano num contexto que vai além das fronteiras do Mediterrâneo. A última campeã italiana em Roma havia sido Raffaella Reggi, em 1985 — ano em que a própria Paolini ainda não havia nascido. Nos 40 anos seguintes, o torneio passou pelas mãos de potências como a Alemanha de Steffi Graf, a Sérvia de Monica Seles, a Bélgica de Justine Henin e, mais recentemente, a Polônia de Iga Swiatek. A Itália assistia, aplaudia e esperava.

O paralelo com o vôlei é inevitável para quem acompanha o esporte olímpico italiano de perto. A Itália construiu sua hegemonia no vôlei masculino ao longo dos anos 1990 com paciência geracional — títulos mundiais em 1990, 1994 e 1998 foram resultado de um ciclo que demorou quase uma década para amadurecer. O tênis feminino italiano parece trilhar caminho semelhante: Errani chegou à final de Roland Garros em 2012 e foi número cinco do mundo; Paolini, uma geração depois, chegou a duas finais de Grand Slam em 2024 (Roland Garros e Wimbledon) e agora soma seu segundo título WTA 1000. O ciclo não é acidente — é construção.
No ranking WTA, a vitória em Roma renderá a Paolini a ascensão da quinta para a quarta posição, além de um prêmio de 900 mil euros — aproximadamente R$ 5,7 milhões. Gauff, apesar da derrota, voltará à segunda posição do ranking, seu recorde de carreira, ultrapassando Swiatek.
Como Paolini desmontou Gauff em 90 minutos
A americana chegava à final em condições desfavoráveis — vinha de uma semifinal de 3h32 contra a chinesa Qinwen Zheng — enquanto Paolini havia encontrado um ritmo diferente, empurrada pela torcida e pela presença do presidente italiano Sergio Mattarella nas arquibancadas do Foro Italico. O contexto emocional importa, mas os números da partida contam uma história ainda mais clara.
Paolini venceu 59% dos pontos com seu primeiro serviço, contra 52% de Gauff. A americana disparou o único ace da partida, mas cometeu sete duplas-faltas — número que resume bem a instabilidade do saque americano no dia. As quebras nos três primeiros games do primeiro set estabeleceram o padrão: a italiana pressionava o saque colocado de Gauff e forçava trocas longas que a americana não conseguia encerrar com bolas curtas.
O segundo set foi ainda mais categórico. Paolini abriu 3/0 em menos de 14 minutos, cedeu dois games para a adversária e fechou em 6/2. Este foi o quarto confronto entre as duas, com duas vitórias para cada lado — mas o head-to-head recente pende para a italiana: ela também havia vencido Gauff no WTA 500 de Stuttgart, cerca de um mês antes de Roma.
"Foi uma partida muito difícil, mas nós duas fomos muito sólidas, eu diria que taticamente perfeitas", comemorou Sara Errani após a semifinal de duplas, antecipando o que seria o tom do fim de semana italiano.
Errani e Paolini — a dupla que reescreveu dois calendários seguidos
Se o título de simples já carregava peso histórico, a conquista nas duplas adicionou uma camada de raridade que merece análise separada. Errani e Paolini — atuais campeãs olímpicas, após o ouro em Paris 2024 — derrotaram a parceria formada pela russa Veronika Kudermetova e pela belga Elise Mertens por 6/4 e 7/5, conquistando o bicampeonato em Roma. A última dupla a vencer o torneio em dois anos consecutivos havia sido a parceria Beatriz "Gigi" Fernández e Natasha Zvereva, em 1994 e 1995.
A semifinal já havia mostrado o nível da dupla italiana: vitória sobre as russas Mirra Andreeva e Diana Shnaider — as mesmas que haviam perdido a final olímpica para elas em Paris — por duplo 6/4. As italianas cometeram 25 erros não forçados, contra 34 das adversárias, e converteram quatro de 11 break-points (36%). Com o título, Errani e Paolini chegam ao seu sétimo troféu juntas e ao terceiro WTA 1000 da parceria — Roma e Pequim no ano passado, Doha na temporada atual de 2026.
A primeira-ministra italiana Giorgia Meloni não deixou o momento passar em silêncio.
"Após a esplêndida vitória de ontem, hoje mais uma grande satisfação para o tênis italiano: Sara Errani e Jasmine Paolini conquistaram mais uma vez o título de duplas no Masters 1000 de Roma. Parabéns!", publicou Meloni.
Errani, de 37 anos e com 32 títulos de duplas no circuito, representa a experiência que ancora a parceria. Paolini, com sete títulos de duplas, traz a potência de simples que transforma o par numa ameaça constante em qualquer superfície. A combinação — veterana que lê o jogo com precisão cirúrgica ao lado de uma das melhores jogadoras de simples do mundo — é o tipo de parceria que os Estados Unidos tentaram construir com a dupla Venus e Serena Williams nos anos 2000 e que a Espanha replica no tênis masculino com pares que combinam especialistas e jogadores de elite do circuito individual.
Paolini tornou-se ainda a quarta jogadora italiana a disputar finais de simples e duplas na mesma edição de Roma, seguindo Lucia Valerio (que o fez em 1930, 1931 e 1932), Raffaella Reggi (1985) e a própria Errani (2014). E foi a primeira desde 1990 a vencer as duas categorias no mesmo torneio.
Com Roland Garros começando em 25 de maio, Paolini chega a Paris como quarta do mundo, bicampeã de duplas na temporada e finalista do Grand Slam francês em 2024 — condição que a coloca entre as principais favoritas ao título sobre o saibro parisiense, onde a atual número um Iga Swiatek ainda é a referência absoluta com quatro títulos.
O jejum de 40 anos acabou. Roma tem uma rainha italiana.








