Voltou. Kylian Mbappé pisou no gramado do Real Madrid na quinta-feira, 14 de maio, entrando aos 69 minutos no lugar de Gonzalo García na vitória por 2 a 0 sobre o já rebaixado Real Oviedo — e o que encontrou foi um coro de vaias capaz de tirar o fôlego de qualquer jogador. Isso apesar de ser o artilheiro do clube na temporada 2025/26, com 41 gols em 42 jogos em todas as competições. Quarenta e um gols. Para ter dimensão do absurdo: esse número é superior à soma de todas as assistências registradas por Jude Bellingham, Rodrygo e Valverde juntos na mesma campanha. A matemática protege Mbappé. A emoção da torcida, não.
O vestiário antes do apito — o que antecedeu a recepção hostil no Bernabéu
A semana que culminou no duelo contra o Oviedo foi, provavelmente, a mais turbulenta do Real Madrid em anos. Começou com uma briga durante o treino que resultou em multas internas — episódio que a imprensa espanhola noticiou sem revelar todos os envolvidos. No meio da semana, o presidente Florentino Pérez convocou uma entrevista coletiva incomum, saindo em defesa do clube e atacando o que chamou de forças externas tentando desestabilizar a instituição. Dois banners pedindo a saída do próprio presidente foram retirados por seguranças durante a partida. Em paralelo, uma petição online pedindo a saída de Mbappé acumulou dezenas de milhões de assinaturas — um fenômeno sem precedente na história recente do clube merengue. O gatilho imediato foi a ausência do francês no Clásico de domingo, quando o Barcelona selou o título da La Liga com três rodadas de antecipação, terminando 11 pontos à frente do Real Madrid, que fecha a temporada em segundo lugar com 80 pontos. Mbappé estava lesionado, mas fotos publicadas nas redes sociais o mostraram em um iate na Sardenha durante a folga autorizada pelo clube para se recuperar. A imagem virou símbolo de indiferença aos olhos de uma torcida já fragilizada.
"Foi uma lesão bem séria na perna. Foi uma pena não conseguir jogar no Clásico. É uma partida que adoro disputar, sempre marco contra o Barcelona, então foi uma lástima não poder ajudar o time." — Kylian Mbappé, após o jogo contra o Oviedo
Quem acompanhou o Bernabéu no fim dos anos 1990 vai lembrar de uma cena parecida: Nicolás Anelka, contratado em 1999 por 35 milhões de dólares para substituir Predrag Mijatović, foi recebido com ceticismo crescente após apenas uma temporada sem convencer no plano coletivo. O caso Mbappé tem outra escala — financeira, midiática e emocional —, mas o padrão de rejeição acelerada a uma estrela cara num ciclo sem troféus é historicamente recorrente no clube.
De titular indiscutível a quarto atacante — a virada tática de Arbeloa
O mais revelador da noite não foram as vaias, mas a declaração do próprio Mbappé sobre sua posição na hierarquia do elenco. Alvaro Arbeloa, técnico do Real Madrid, comunicou ao francês que ele é, neste momento, o quarto atacante do time — atrás de Franco Mastantuono, Vinícius Jr. e Gonzalo García. Para um jogador que chegou ao clube como a grande aposta de Florentino Pérez, com salário entre os maiores do futebol mundial, a informação soa como um terremoto silencioso.

"Hoje não joguei porque o treinador me disse que, para ele, sou o quarto atacante do elenco, atrás de Mastantuono, Vini e Gonzalo. No fim, aceito e jogo o tempo que me dão. Jogamos bem, dei assistência para o Jude e estou positivo." — Mbappé, em declaração após o confronto
Segundo apuração do SportNavo com fontes próximas ao clube, a relação entre Mbappé e a comissão técnica não chegou a um ponto de ruptura formal, mas a comunicação interna está tensa. A comparação histórica que me ocorre imediatamente é a de Ronaldo Fenômeno na Inter de Milão entre 1999 e 2002: artilheiro em potencial, lesionado de forma recorrente, cada retorno virava um teste de confiança. Quando o Inter não conquistou títulos relevantes naquele ciclo, parte da responsabilidade caiu sobre o brasileiro — mesmo que os números individuais continuassem respeitáveis. Mbappé vive uma versão 2026 desse dilema.
Dois anos, zero títulos e a conta que Mbappé ainda não conseguiu fechar com Madrid
A temporada 2025/26 marca o segundo ano consecutivo do Real Madrid sem conquistar títulos de expressão. Para um clube que entre 2015 e 2018 ergueu três Champions Leagues seguidas — com Zidane e aquele time de Cristiano Ronaldo, Benzema, Bale e Modric no auge —, dois anos em branco representam uma ruptura de ciclo difícil de digerir. A torcida madridista tem memória longa e paciência curta, combinação explosiva quando o calendário começa a se encerrar sem conquistas.
Mbappé respondeu às vaias com uma maturidade que surpreendeu parte da imprensa espanhola. Sem confrontar, sem vitimizar, reconheceu o descontentamento como parte do território que escolheu ocupar:
"As vaias... é a vida. Não se pode mudar a opinião das pessoas quando estão com raiva. É a vida de um jogador do Real Madrid e de um jogador famoso como eu. Os jogadores nem sempre precisam entender — precisam aceitar, olhar para frente e mudar a situação."
A resposta ecoa, curiosamente, a postura que Zinedine Zidane adotou durante os anos difíceis no Bernabéu como jogador, nos momentos em que a torcida cobrava mais do que o rendimento entregava. Mbappé ainda tem duas partidas para encerrar a temporada. A próxima será contra o Celta de Vigo, no sábado, 18 de maio, no Bernabéu — uma última chance de encerrar o campeonato com algum brilho pessoal, mesmo que o título já esteja pendurado na parede do Camp Nou. O que vier depois — renovação de confiança, negociação ou saída no mercado de verão — depende de decisões que vão muito além do campo. Por ora, Mbappé é como uma partitura de concerto executada numa sala com acústica errada: as notas estão certas, mas o som que chega ao público é outro.









