Confesso: em dezembro de 2025, quando o primeiro transfer ban ligado à compra de Almada caiu sobre o Botafogo, escrevi que a situação seria resolvida em semanas. John Textor pagaria, o clube voltaria ao mercado e o episódio viraria nota de rodapé. Errei. Hoje vejo o porquê — e a resposta está na estrutura da dívida, não na boa vontade de nenhum gestor.
Quatro punições da Fifa ao Botafogo em menos de seis meses
A cronologia é precisa e não deixa espaço para interpretações favoráveis ao clube. O primeiro ban ligado à compra do meia argentino Almada, adquirido junto ao Atlanta United em junho de 2024, foi aplicado em dezembro de 2025. Em fevereiro de 2026, Textor costurou um acordo e quitou a primeira parcela: US$ 10 milhões (aproximadamente R$ 49 milhões na cotação do período).
A segunda parcela ficou em aberto. Resultado: novo ban, desta vez por prazo indeterminado, notificado nesta segunda-feira, 11 de maio de 2026.
Entre os dois episódios com o Atlanta United, a Fifa ainda aplicou mais duas punições distintas. Na quinta-feira passada, 7 de maio, o clube foi bloqueado por dívida com o New York Red Bulls, referente à contratação do meia-atacante Santi em 2025. No mês anterior, abril de 2026, a entidade havia punido o Botafogo por débito com o Ludogorest, da Bulgária, pela contratação do centroavante Rwan, também em 2025.

- Dez/2025 — Ban 1: Atlanta United (Almada, parcela inicial)
- Abr/2026 — Ban 2: Ludogorest (Rwan)
- 07/05/2026 — Ban 3: New York Red Bulls (Santi)
- 11/05/2026 — Ban 4: Atlanta United (Almada, segunda parcela) — prazo indeterminado
O que a dívida com o Atlanta United revela sobre a gestão Textor
A aquisição de Almada em 2024 foi estruturada em parcelas — prática padrão no mercado, sem problemas per se. O problema é o que veio depois. Textor, enquanto ainda controlava a SAF, tentou renegociar o prazo de quitação do débito com a franquia da MLS. A tentativa não prosperou, e o primeiro ban chegou em dezembro de 2025.
Segundo informações do ge, a segunda parcela com o Atlanta United segue em aberto até esta data. O valor exato não foi divulgado oficialmente, mas o padrão de operações similares na MLS indica parcelas entre US$ 5 milhões e US$ 12 milhões para transferências de jogadores sub-25 de impacto.
"O Botafogo pretende solicitar uma reconsideração da Fifa com base na recuperação judicial da SAF, protocolada na Justiça do Rio de Janeiro", segundo informações do site ge.
A referência ao caso do Vasco é relevante: o clube carioca utilizou o mesmo expediente de recuperação judicial para suspender punições da Fifa e obteve êxito nos tribunais. A diferença é que o Vasco lidava com um ban, não com quatro em sequência, e o histórico de inadimplência reiterada tende a pesar na avaliação da Fifa sobre boa-fé do devedor.
O impacto no planejamento de 2026 e as saídas possíveis
Com um ban por prazo indeterminado ativo, o Botafogo não pode inscrever nenhum reforço até regularizar a situação. A janela de transferências do meio do ano, que abre em julho, está tecnicamente bloqueada enquanto a dívida com o Atlanta United não for quitada — ou enquanto a Fifa não aceitar a tese da recuperação judicial.
O afastamento de John Textor da gestão da SAF, determinado por tribunal constituído, adiciona uma variável operacional relevante: quem conduz a negociação com o Atlanta United agora é a nova gestão, que herda o passivo sem ter montado a estrutura que o gerou. O SportNavo apurou que o clube ainda não divulgou oficialmente quem assume as tratativas com a franquia americana.
Do ponto de vista do ROI da operação Almada, o balanço é negativo no curto prazo. O jogador foi vendido ao Atletico de Madrid após passagem pelo clube, mas os recursos da venda não foram suficientes para cobrir os passivos gerados pela aquisição — um sinal de que o modelo de compra-e-venda dependia de condições de crédito que não se sustentaram.
"Virou rotina", como define o próprio título da nota publicada pelo Terra nesta segunda-feira — e a ironia involuntária da frase diz mais sobre o estado institucional do clube do que qualquer análise financeira.
Não há tragédia nessa história: há contabilidade mal administrada e prazos que se acumularam. O próximo movimento concreto está nos corredores da Justiça do Rio de Janeiro, onde o pedido de recuperação judicial da SAF será avaliado. Se o tribunal aceitar a tese, o Botafogo ganha tempo para renegociar com credores — incluindo o Atlanta United. Se rejeitar, a janela de julho fecha antes mesmo de abrir.
Na sala de reuniões de uma franquia da MLS em Atlanta, alguém abre uma planilha com o nome do Botafogo e vê, na coluna de status, a mesma palavra pela segunda vez em cinco meses: unpaid.








