Os mandados de busca e apreensão já estavam sendo cumpridos em Blumenau, Florianópolis e Itajaí quando o nome da operação ganhou sentido cruel: Sentinela. A palavra remete a quem guarda, a quem protege. Mas o que o GAECO encontrou, ao investigar contratos públicos da Prefeitura de Blumenau entre 2021 e 2024, foi exatamente o oposto — um esquema que transformou a proteção das crianças em mercadoria para propina.
O que aconteceu na Creche Cantinho Bom Pastor virou pretexto para um cartel
Em 5 de abril de 2023, um homem invadiu a Creche Cantinho Bom Pastor com um machado e matou quatro crianças entre 5 e 7 anos. Cinco outras ficaram feridas. O ataque chocou o país e gerou uma pressão política imediata por respostas concretas de segurança nas escolas. A gestão municipal da época respondeu com uma dispensa de licitação — um instrumento legal previsto para situações de urgência — e assinou um contrato emergencial de vigilância armada e desarmada nas unidades escolares cujo valor ultrapassou R$ 9 milhões.
O problema, segundo o Ministério Público de Santa Catarina, é que esse contrato foi direcionado. O GAECO apurou que informações sigilosas das propostas concorrentes foram compartilhadas ilegalmente com a empresa que acabou vencendo o certame. Com os dados em mãos, ela apresentou um desconto mínimo calculado para ganhar — nem mais, nem menos do que o necessário para se sagrar vencedora. A tragédia virou janela de oportunidade.
"As condutas investigadas indicam uma organização criminosa estruturada voltada ao desvio sistemático de recursos públicos da prefeitura municipal de Blumenau, mediante fraudes em procedimentos licitatórios, corrupção e lavagem de capitais, envolvendo agentes públicos, empresários e operadores financeiros", afirmou o GAECO em nota oficial.
R$ 600 milhões e um método industrial de corrupção
O contrato de segurança escolar é apenas um dos nós de uma teia muito maior. Entre 2021 e 2024, empresas ligadas ao grupo investigado concentraram contratos nas áreas de segurança patrimonial, limpeza urbana e serviços especializados, movimentando ao todo R$ 600 milhões em recursos públicos municipais. O esquema funcionava em ciclo fechado: as empresas do cartel venciam as licitações por manipulação, recebiam os pagamentos da prefeitura e devolviam parte dos valores como propina — em dinheiro vivo, entregue fisicamente a servidores e intermediários políticos.
Para ocultar o rastro, os investigados usavam notas fiscais simuladas, depósitos bancários fracionados e empresas interpostas ligadas, inclusive, ao setor de combustíveis. Mensagens e documentos analisados pelo GAECO descrevem com precisão o fluxo: os valores eram convertidos em espécie antes de chegar às mãos dos beneficiários. A sofisticação do método lembra os esquemas desarticulados pela Operação Lava Jato no setor de obras da Petrobras entre 2014 e 2016 — mas aqui o palco era uma prefeitura do interior catarinense e as vítimas diretas eram crianças que precisavam de segurança nas salas de aula.
A Operação Sentinela é a terceira ação do GAECO contra a Prefeitura de Blumenau em menos de dois dias. Na quarta-feira (6), o órgão investigou irregularidades nas obras dos terminais municipais. Na manhã desta quinta, antes da Sentinela, uma operação separada mirou um suposto esquema de fraude na merenda escolar. São 21 mandados de busca e apreensão cumpridos só na Sentinela, com apoio da Polícia Científica de Santa Catarina e da Secretaria da Fazenda Estadual.

"A atual administração está à disposição das autoridades e colabora de forma transparente com as investigações, reafirmando seu compromisso com a legalidade, a transparência e a correta aplicação dos recursos públicos", declarou a Prefeitura de Blumenau em nota, ressaltando que os contratos investigados foram firmados pela gestão anterior, encerrada em 2024.
O que ainda precisa ser respondido sobre o esquema de Blumenau
A investigação da 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau ainda tem lacunas a preencher. Quem, especificamente, repassou as propostas sigilosas à empresa vencedora do contrato de segurança escolar? Quantos servidores públicos receberam propina em espécie e em que valores? Há outros contratos emergenciais — além do de vigilância — que seguiram o mesmo roteiro de direcionamento? Segundo apuração do SportNavo, o GAECO não divulgou o número total de investigados nem os nomes dos empresários envolvidos, o que indica que a operação ainda está em fase de coleta de provas.
O que os documentos já revelam é suficiente para uma conclusão dura: a dor de uma comunidade que perdeu quatro crianças foi instrumentalizada. O clamor por segurança nas escolas — legítimo, urgente, humano — criou o ambiente perfeito para dispensar a licitação sem contestação pública. Quem questionaria um contrato emergencial de proteção às crianças no mês seguinte ao massacre? Ninguém. E foi exatamente nessa brecha moral que o cartel se instalou.
A 14ª Promotoria de Justiça de Blumenau conduz o Procedimento Investigatório Criminal e deve consolidar os elementos colhidos nos mandados desta quinta para decidir sobre indiciamentos formais. O prazo legal para conclusão da fase investigativa, uma vez instaurado o PIC, é de 90 dias prorrogáveis — o que significa que as primeiras denúncias criminais podem chegar ainda no segundo semestre de 2026.










