O Maracanã estava cheio quando Carlo Ancelotti pediu quatro substituições simultâneas no intervalo. O 2 a 2 no placar não explicava tudo — explicava a inquietação. Nos 45 minutos seguintes, Rayan, Lucas Paquetá, Danilo e Igor Thiago fizeram o que os titulares não conseguiram: desmontar o Panamá com velocidade, objetividade e quatro gols. O placar final de 6 a 2, no amistoso de 31 de maio de 2026, foi apenas o número visível de uma virada tática que ainda está sendo processada pela comissão técnica.
O vestiário que mudou o jogo antes do apito final
O primeiro tempo da Seleção Brasileira foi competente, mas não foi bonito. Com o esquema 4-2-4, a equipe titular abriu 2 a 0, levou dois gols e chegou ao intervalo tecnicamente empatada no marcador. O volume de jogo existia, mas a clareza nas decisões faltou. Ancelotti, experiente o suficiente para não confundir intensidade com eficiência, trocou não apenas os jogadores — trocou o sistema. O 4-3-3 substituiu o 4-2-4, e um atacante cedeu lugar a um meio-campista. A mudança não foi improvisada: conforme registrado pelo SportNavo em apurações anteriores, a possibilidade de alterar a estratégia contra adversários de nível superior já estava na mesa da comissão técnica.
Danilo, do Botafogo, entrou e jogou os 45 minutos finais. Marcou o sexto gol e participou diretamente do quarto. Não foi surpresa para quem acompanhou sua trajetória nos amistosos anteriores: contra a França, foram 19 minutos; contra a Croácia, 76 minutos, um gol e a consolidação de uma confiança que Ancelotti não disfarça. O volante de 25 anos chegou à Copa como reserva declarado. Saiu do Maracanã como dúvida real na escalação.
Igor Thiago e a eficiência que os números não deixam ignorar
Há uma métrica que define centroavantes de Copa: participação direta em gols por minuto jogado. Em três partidas sob o comando de Ancelotti, Igor Thiago acumulou apenas 87 minutos com a camisa da Seleção. Nesse tempo, marcou dois gols, deu uma assistência e ainda sofreu um pênalti — quatro participações diretas em menos de 90 minutos totais. Contra o Panamá, em 45 minutos, fez um gol e serviu um companheiro.
O atacante de 24 anos chegou ao amistoso carregando o peso de ter sido vice-artilheiro da Premier League 2025/2026, com 22 gols pelo Brentford. Para efeito de comparação histórica: Ronaldo Fenômeno, na Copa de 1994, tinha 17 anos e não entrou em campo nos Estados Unidos — mas seus números no Cruzeiro naquela temporada, 12 gols em 14 jogos, já indicavam o que viria. Igor Thiago tem 24 anos, está no auge físico e chega a uma Copa com estatísticas de titular em qualquer seleção do mundo. A questão não é se ele merece jogar. A questão é contra quem Ancelotti vai usá-lo primeiro.
Rayan, o mais jovem do grupo, também deixou impressão no segundo tempo. A velocidade nas transições e a disposição para pressionar a saída de bola do Panamá foram elementos que o esquema 4-2-4 do primeiro tempo não havia gerado com a mesma frequência. Lucas Paquetá, figura constante nas convocações, voltou a mostrar por que Ancelotti insiste em mantê-lo próximo — sua capacidade de circular entre linhas e conectar setores do time é difícil de replicar.
A decisão tática que Ancelotti ainda não tomou — mas vai precisar tomar
Após o jogo, o treinador italiano foi direto ao ponto na coletiva de imprensa:
"Passa pela minha cabeça a possibilidade de mudar a equipe, de mudar a estratégia. Eu acho que o jogo do segundo tempo me coloca mais dúvidas. Isso, para mim, é bom. É importante ter dúvida positiva. A verdade é que o jogo do segundo tempo me deixa com mais dúvidas, e isso é muito bom."
A declaração não foi modéstia retórica. Ancelotti tem histórico de mudar esquemas em função do momento — no Real Madrid, entre 2021 e 2022, alternou entre 4-3-3 e 4-4-2 conforme as lesões e o calendário exigiam, e ganhou a Champions League com flexibilidade tática, não com rigidez. No Brasil, o mesmo princípio se aplica: se o 4-3-3 com Danilo no meio gera mais equilíbrio e não sacrifica poder ofensivo, a tendência é que Luiz Henrique, do Zenit, perca espaço no time inicial.
A mudança não seria punição — seria pragmatismo. Luiz Henrique tem qualidade técnica reconhecida, mas o rendimento coletivo do segundo tempo contra o Panamá foi superior ao do primeiro. Ancelotti não ignora esse tipo de dado.
A estreia do Brasil na Copa do Mundo 2026 acontece no dia 13 de junho, contra Marrocos, no MetLife Stadium, em East Rutherford, Nova Jersey. O Grupo C também inclui Haiti e Escócia. Marrocos, semifinalista da Copa de 2022, é adversário que exige exatamente o tipo de equilíbrio defensivo que o 4-3-3 oferece. Ancelotti tem 11 dias para decidir qual time entra em campo. Os reservas de 31 de maio fizeram questão de tornar essa decisão a mais difícil possível.










