Quatro jogos. Esse é o número máximo de partidas que Neymar tem pela frente para convencer Carlo Ancelotti a incluí-lo entre os 26 convocados da Seleção Brasileira para a Copa do Mundo, cuja lista será divulgada em 18 de maio. O Santos ainda disputa cinco confrontos antes dessa data — três pelo Brasileirão, um pela Copa do Brasil e outro pela Sul-Americana —, mas a tendência é que o camisa 10 fique fora do clássico de sábado (2) contra o Palmeiras, no Allianz Parque, exatamente pelo gramado sintético que o atacante abertamente rejeita.

Um histórico de 12 anos longe do sintético

Para entender a magnitude do dilema, é necessário recorrer aos números. Neymar atuou no Barcelona entre 2013 e 2017 e no Paris Saint-Germain de 2017 a 2023 — duas ligas, La Liga e Ligue 1, que proíbem gramado artificial em seus estádios de primeira divisão. Na Champions League, mesmo com a UEFA certificando campos como o do norueguês Bodø/Glimt, o atacante jamais enfrentou um adversário com esse tipo de piso. Na Arábia Saudita, pelo Al-Hilal, o mesmo padrão: todos os estádios da Saudi Pro League operam com grama natural. O resultado é que, ao retornar ao Brasil em janeiro de 2025, Neymar acumulava 12 anos sem disputar uma partida oficial em gramado sintético.

Sua única experiência recente com o piso artificial ocorreu em setembro de 2025, no empate entre Santos e Atlético-MG, na Arena MRV. O rendimento foi pífio pelo padrão histórico do jogador: 81 minutos em campo, uma única finalização fraca defendida pelo goleiro Everson. Nenhuma assistência, nenhum drible decisivo. O dado contrasta com a média de 0,62 gols por jogo que Neymar registrou nas três Copas do Mundo em que participou — 2010, 2014 e 2018 —, com 8 gols em 13 partidas no torneio.

Um histórico de 12 anos longe do sintético Quatro jogos para convencer Ancelotti
Um histórico de 12 anos longe do sintético Quatro jogos para convencer Ancelotti

O manifesto, o receio e a voz do técnico

A posição de Neymar contra o sintético não é nova nem pessoal. Em 2024, o atacante aderiu a um manifesto coletivo, assinado por diversos jogadores da Série A em carta aberta nas redes sociais, exigindo grama natural em todos os estádios do Campeonato Brasileiro. Os argumentos técnicos do documento apontavam para maior risco de lesões ligamentares, impacto excessivo nos tornozelos e alteração na velocidade da bola — fatores que, segundo os atletas, prejudicam tanto a integridade física quanto a qualidade do jogo.

Cuca, técnico do Santos, tratou o tema com transparência na coletiva desta semana:

"Eu não sei se vou contar com Neymar e Gabigol por conta das coisas que vocês sabem que eles pensam sobre o gramado sintético. Claro que vamos conversar com eles, se a gente puder contar, ficaremos mais fortalecidos."

O treinador, que conduziu o Santos ao título da Libertadores de 2011 justamente com Neymar como protagonista, também deixou clara sua torcida pelo retorno do craque à Seleção:

"Eu vejo o Neymar cada vez mais forte para ser convocado para a Seleção e é uma questão do treinador e da comissão técnica. Eu torço para que isso aconteça, como brasileiro que sou."

A conta regressiva e o risco de cada ausência

A análise do SportNavo sobre o calendário santista revela a crueza da situação: se Neymar confirmar a ausência no Allianz Parque, restam quatro oportunidades de aparecer no radar de Ancelotti, que até agora não convocou o atacante para nenhum amistoso da Seleção desde que assumiu o cargo. Historicamente, a Seleção levou à Copa de 2014 jogadores que disputavam regularmente suas equipes — Neymar, àquela época, havia atuado em 26 dos 34 jogos do Barcelone na La Liga naquela temporada antes do torneio.

O Santos, por sua vez, atravessa momento crítico no Brasileirão: 14 pontos em 13 rodadas, primeiro clube fora do Z4 — ou seja, na borda da zona de rebaixamento. A sequência de cinco jogos sem vitórias transforma o clássico contra o Palmeiras numa necessidade coletiva que ultrapassa qualquer agenda individual. O dilema de Neymar, portanto, tem dois planos simultâneos: o pessoal, ligado à Copa do Mundo, e o institucional, que envolve o risco real de o Santos terminar 2025 na Série B.

O que os precedentes históricos ensinam

Copas do Mundo têm sido construídas ou destruídas por decisões tomadas nos meses imediatamente anteriores à convocação. Romário foi convocado para 1994 após sequência decisiva pelo Flamengo nos meses de abril e maio daquele ano. Ronaldo entrou para a lista de 1998 em parte por sua performance devastadora no Barcelona na segunda metade da temporada 1996-97 — 34 gols em 37 jogos. A comparação não é gratuita: Ancelotti, formado na cultura tática italiana e acostumado a decisões frias baseadas em forma recente, dificilmente ignorará o que Neymar fizer — ou deixar de fazer — nessas próximas semanas.

Um levantamento do SportNavo sobre as convocações brasileiras desde 1994 mostra que, em média, apenas três jogadores por Copa foram incluídos na lista final sem regularidade comprovada nos três meses anteriores ao torneio — e todos tinham histórico consolidado de titularidade absoluta na Seleção. Neymar preenche esse critério histórico, mas a lacuna de convocações sob Ancelotti cria uma variável nova.

O Santos retorna aos treinos nesta quinta-feira (30) para preparar o clássico de sábado, e a conversa entre Cuca e Neymar definirá se o camisa 10 entrará em campo no Allianz Parque ou preservará o corpo para os quatro compromissos seguintes. A próxima chance, caso o jogo contra o Palmeiras seja descartado, será pelo Brasileirão na semana do dia 7 de maio — menos de duas semanas antes da convocação definitiva.