A luz do estúdio da Federação Portuguesa de Futebol ainda não havia se apagado quando o nome saiu da lista — décimo oitavo, entre os atacantes, lido com a naturalidade de quem anuncia algo inevitável. Cristiano Ronaldo, 41 anos, Al-Nassr, convocado. O técnico Roberto Martínez confirmou nesta terça-feira, 19 de maio, a presença do capitão lusitano na delegação de Portugal para a Copa do Mundo de 2026, que será disputada nos Estados Unidos, no Canadá e no México a partir de junho. Com 27 atletas relacionados — um a mais que o limite regulamentar da Fifa, com o goleiro Ricardo Velho do Gençlerbirligi inscrito apenas como reserva em caso de lesão —, Portugal chega ao torneio no Grupo K, ao lado de Nigéria, República Democrática do Congo e Uzbequistão.
A sexta vez que Ronaldo calça as chuteiras num Mundial
Há exatos 20 anos, um rapaz de 21 anos entrou em campo em Munique e mudou o futebol português para sempre.Junho de 2006, Alemanha. Portugal estreava no Grupo D contra Angola e um jovem Ronaldo, ainda sem os cinco Balões de Ouro que viriam a seguir, corria pela faixa direita com uma fome que o continente europeu ainda não havia aprendido a dimensionar. Os lusitanos terminaram aquele Mundial em quarto lugar, derrotados pela anfitriã Alemanha por 3 a 1 na disputa de terceiro lugar. Era o início de uma relação entre um homem e um torneio que atravessaria duas décadas — 2006, 2010, 2014, 2018, 2022 e agora 2026. Seis Copas. O mesmo número de participações que detinham nomes como o mexicano Antonio Carbajal e o alemão Lothar Matthäus, os únicos a alcançar essa marca na história do torneio.
A trajetória de Ronaldo em Mundiais não é uma coleção de triunfos. É algo mais complexo e, por isso, mais humano. Em 2010, na África do Sul, Portugal chegou às quartas de final e foi eliminado pela Espanha, campeã do torneio, por 1 a 0. Em 2014, no Brasil, a seleção caiu já na fase de grupos após um empate dramático contra os Estados Unidos — Ronaldo marcou apenas um gol em quatro jogos. Em 2018, na Rússia, ele brilhou contra a Espanha num empate épico de 3 a 3 com hat-trick seu, mas Portugal saiu nas oitavas para o Uruguai. Em 2022, no Qatar, foi reserva nas quartas e nas semifinais, e Marrocos eliminou os lusitanos por 1 a 0. A Copa de 2026 carrega, portanto, o peso de uma conta que o tempo cobra com juros.
Os números que transformam Ronaldo num monumento estatístico do futebol
Não existe, na história das Copas, um dossiê individual mais extenso do que o que Ronaldo vai depositar nos EUA.Com 143 gols pela seleção portuguesa — o maior artilheiro da história do selecionado lusitano e o maior da história das seleções nacionais no futebol masculino —, Ronaldo chega ao torneio com oito gols marcados em Copas do Mundo ao longo de cinco participações anteriores. O alemão Miroslav Klose detém o recorde de artilharia em Mundiais, com 16 gols em quatro torneios. Alcançar Klose exigiria um feito estatístico improvável para um jogador de 41 anos, mas chegar aos dois dígitos — marca que apenas 13 jogadores na história alcançaram — estaria ao alcance de dois ou três gols bem distribuídos no Grupo K.
O recorde mais factível, porém, é o de partidas disputadas. Ronaldo soma 22 jogos em Copas do Mundo. O italiano Paolo Maldini e o mexicano Rafael Márquez encabeçam a lista histórica com 23 partidas cada um. Se Portugal avançar às quartas de final em 2026 — o que exigiria pelo menos quatro jogos —, Ronaldo ultrapassaria ambos e se tornaria o jogador com mais partidas na história dos Mundiais. Portugal precisaria vencer o Grupo K e superar um adversário nas oitavas para que o capitão chegue a essa marca já nas quartas de final.
Martínez convocou uma seleção equilibrada entre experiência e juventude. Bruno Fernandes, do Manchester United, acumula a função de motor criativo do meio-campo. Bernardo Silva, do Manchester City, traz a inteligência posicional que Ronaldo sempre precisou ao redor. João Neves, do Paris Saint-Germain, com apenas 20 anos, representa a geração que herdará a braçadeira depois que Ronaldo pendurar as chuteiras. Gonçalo Ramos, também do PSG, disputa espaço no ataque com o capitão — e essa disputa interna será um dos subplots mais observados da campanha portuguesa.
Roberto Martínez e o dilema de escalar uma lenda viva
Nenhum técnico na história recente do futebol europeu enfrentou uma equação tão singular quanto a que Martínez carrega na mala até os EUA.O espanhol Roberto Martínez, que assumiu Portugal em 2022 após a saída de Fernando Santos, construiu uma identidade coletiva para a seleção que, paradoxalmente, funciona melhor quando Ronaldo é peça de um sistema do que quando o sistema orbita ao redor de Ronaldo. Nos últimos dois anos, Portugal apresentou futebol mais fluido em partidas em que o capitão entrou no segundo tempo ou dividiu protagonismo com Ramos e Leão. O técnico nunca declarou publicamente uma hierarquia — segundo fontes próximas à federação, Martínez prefere gerir o tema internamente —, mas a escalação que ele escolher para o jogo de estreia contra um dos adversários do Grupo K dirá mais sobre sua filosofia do que qualquer entrevista coletiva.
O amistoso contra o Chile, marcado para 6 de junho, será o primeiro teste público dessa equação. Martínez utilizará o jogo para ajustar a forma física dos convocados que disputaram as últimas rodadas das ligas europeias — Francisco Conceição ainda está na Juventus, Rafael Leão encerrou a temporada no Milan — e para definir o sistema com o qual Portugal chegará ao torneio. A presença de quatro goleiros na lista, com Ricardo Velho em situação protocolar de reserva, indica que o técnico já resolveu as disputas no gol, com Diogo Costa do Porto como titular consolidado.
O que Ronaldo ainda representa para Portugal além dos gols
Há algo que os números não conseguem capturar completamente — e é exatamente isso que faz a convocação ser inevitável.Desde que estreou pela seleção em agosto de 2002, contra o Kazakhstan, Ronaldo disputou 213 partidas com a camisa das quinas — nenhum outro jogador chegou perto dessa marca no futebol português. Nesse período, Portugal ganhou a Euro 2016, a Nations League de 2019 e construiu uma identidade de seleção competitiva que existia apenas de forma intermitente antes de sua chegada. A Copa de 2026 não será apenas o sexto Mundial de Ronaldo. Será, muito provavelmente, o último — e toda a delegação portuguesa, da comissão técnica aos mais jovens convocados como João Neves, sabe disso com uma clareza que dispensa declarações formais.
O Grupo K — com Nigéria, República Democrática do Congo e Uzbequistão — é teoricamente acessível para uma seleção do nível de Portugal, o que coloca a equipe na posição de favorita à classificação às oitavas de final. A estreia oficial acontece após o amistoso de 6 de junho contra o Chile, e Portugal terá tempo suficiente para afinar os mecanismos coletivos antes dos jogos que importam. Se Martínez conseguir equilibrar a gestão do talento individual de Ronaldo com a fluidez coletiva que a equipe demonstrou nos últimos dois anos de Nations League, Portugal entrará nas oitavas com um dos elencos mais completos do torneio — Rúben Dias no centro da defesa, Nuno Mendes na lateral esquerda e Bruno Fernandes no comando criativo formam uma espinha dorsal capaz de competir com qualquer seleção do mundo.
Ronaldo chega à Copa de 2026 como quem entrega uma sinfonia que começou a compor aos 21 anos em Munique. Cada Copa foi um movimento diferente — algumas densas, outras fragmentadas, nenhuma completa o suficiente para o que ele imaginava. Nos EUA, em junho, o maestro volta ao palco pela sexta e última vez, com a partitura já escrita e apenas a execução por definir.










